Capitulo 30
Por Luísa:
Acordei com o corpo quente e a sensação da respiração de Bia na minha nuca. Meu primeiro impulso foi me afastar, mas algo me manteve ali, imóvel, aproveitando aquela proximidade. Senti o peso do braço dela sobre minha cintura, a maneira como seus dedos repousavam levemente contra minha barriga, e meu estômago se contraiu involuntariamente.
As lembranças da noite anterior voltaram em fragmentos: as taças de vinho, as palavras dos amigos dela sobre o incidente em Vintervile, a forma como minha mão havia tocado a pele dela traçando círculos em seu braço até que o som ritmado da respiração me indicou que ela havia adormecido. Todo o passado dela em Vintervile então não passava de uma confusão? Uma perseguição midiática injusta? Senti uma pontada estranha no peito.
Me espreguicei lentamente, tentando não acordá-la, e por um momento me permiti observá-la. Os cabelos espalhados pelo travesseiro, os lábios entreabertos, a expressão serena. Um fio de cabelo caía sobre seu rosto e precisei controlar o impulso de afastá-lo. Ver ela ali na cama daquele jeito...
Levantei com cuidado e fui para o banheiro. Enquanto fazia minha higiene matinal, as lembranças do sonho que tive voltaram com força total. De novo com Bia. Nós duas nos amando, nos entregando sem reservas, sem fingimentos, sem contratos. Fechei os olhos com força, apoiando as mãos na pia, tentando afastar as imagens que ainda pulsavam vívidas demais na minha mente. Era inegável. Bia estava certa na conversa que tivemos no carro. Havia uma atração física intensa entre nós, e talvez fosse realmente só isso. Deveria ser fácil de resolver, não?
Mas meu coração já acelerado pela manhã dizia o contrário.
Decidi tomar uma ducha rápida para tirar a sensação pegajosa do suor na pele. A água fria me trouxe um pouco de lucidez, mas não o suficiente para apagar completamente o calor que ainda persistia em lugares que eu preferia ignorar. Peguei uma roupa leve. Uma blusa branca de linho com decote em V e uma saia midi azul clara que destacava a minha cintura. Me vesti ali mesmo no banheiro, tentando ganhar tempo para organizar melhor os pensamentos.
Quando saí, me deparei com Bia sentada na cama mexendo no celular. A luz da manhã entrava pela janela e iluminava seu perfil de um jeito quase cinematográfico. Trocamos brevemente um olhar, e senti meu estômago revirar.
— Bom dia — ela disse com a voz rouca de quem havia acabado de acordar.
— Bom dia! Acho que pelo adiantado das horas, perdemos o café do hotel.
— Pois é, me desculpa por isso — Bia disse se levantando e indo em direção ao banheiro.
O short de pijama havia subido durante a noite, e foi impossível controlar meus olhos, que seguiram uma direção indecente por conta própria. Mordi o lábio inferior e desviei o olhar rapidamente, sentindo o calor subir pelo meu pescoço.
— Vou pro banho e vamos encontrar um local bom pra fazer um brunch. Não quero você com essa cara de fome — ela disse, sorrindo de canto e me deixando com a pele do rosto quente.
Tinha certeza de que ela havia notado meu olhar.
***
Bia havia escolhido um local lindo para nosso café-almoço. Uma pequena padaria artesanal no centro de Vintervile, com mesas de ferro fundido espalhadas por um jardim interno. Trepadeiras de jasmim cobriam as paredes de tijolos aparentes, e o perfume doce flutuava no ar.
E ela estava linda. Usava um vestido midi floral em tons de vermelho e azul. O decote discreto revelava apenas o suficiente para me fazer perder o foco várias vezes. Os cabelos soltos caíam em ondas naturais pelos ombros, e ela havia escolhido um gloss nude que destacava o formato perfeito dos lábios. Cada vez que ela passava a língua pelos lábios, sentia que minha respiração falhava um pouco.
— Gostou do lugar? — perguntou, se acomodando na cadeira à minha frente.
— É perfeito — respondi, tentando não soar tão afetada quanto me sentia.
— Perfeito — ela repetiu devagar, e havia algo na forma como disse a palavra que me fez engolir em seco.
Meu coração batia tão forte que tinha certeza de que ela conseguiria ouvir.
O garçom trouxe o cardápio, mas Bia mal olhou para ele.
— Já sei o que quero — disse, me encarando diretamente. — E você?
A pergunta parecia ter camadas, e senti meu rosto esquentar. Meus dedos apertaram o menu com mais força do que o necessário.
— Ainda estou... decidindo — murmurei.
— Às vezes a gente fica em dúvida entre o que é seguro e o que realmente queremos — ela comentou, apoiando o queixo na mão, os olhos fixos nos meus. — Mas a vida é muito curta para ficarmos sempre na zona de conforto, não é Luísa?
A intensidade do olhar dela me deixou sem ar.
— E você pelo jeito sempre foi boa em sair da zona de conforto — retruquei, encontrando o olhar dela e tentando recuperar algum controle da situação.
— E você sempre foi boa em se esconder nela — ela devolveu com um sorriso provocativo nos lábios.
Senti uma mistura de irritação e desejo.
O garçom apareceu para anotar os pedidos, interrompendo o momento. Pedimos bruschettas e sodas italianas.
— Sobre hoje à noite... — comecei, mas ela me interrompeu.
— O que tem?
Seus olhos me desafiavam a continuar.
— Eu não sei se o vestido que escolhi para o casamento é… Como é mesmo o nome? Harmoniza com o seu… — sussurrei, baixando a voz, claramente insegura sobre o que eu estava falando.
Ela inclinou a cabeça, um sorriso pequeno brincando nos cantos da boca.
— Ah… a harmonização. — ela repetiu, inclinando-se levemente para frente. — Eu nem lembrei disso. Deveria ter dito para o Pietro...
A proximidade repentina fez meu coração disparar ainda mais.
— Bia… — Agora foi minha vez de interrompê-la. — Por que pediu para o Pietro me procurar para falar desse casamento? Por que você…
— Sumiu? — Ela completou minha fala, e algo mudou em sua expressão. Ficou mais séria. — Era isso que iria perguntar, Luísa?
Meu coração disparou. A forma como ela me olhava, a voz baixa, quase íntima... Senti minha garganta apertar.
— Era isso. Por quê? — admiti finalmente, odiando como minha voz saiu fraca.
— Porque eu cansei de complicar minha vida com algo que já veio com data de validade? — ela disse, e vi sua mandíbula tensionar levemente. — Por que não admitir que isso — ela disse balançando o dedo entre nós — é apenas uma questão sexual?
As palavras dela deveriam ser um alívio, mas de alguma maneira me machucavam.
— Porque... porque não é simples assim — Disse, sentindo meu rosto esquentar, as mãos tremendo levemente.
— Claro que é — ela disse, estendendo a mão sobre a mesa até tocar a minha.
O contato foi como um choque elétrico. Minha pele formigou inteira.
— Somos duas mulheres adultas que sentem atração uma pela outra. Não precisa ser mais complicado do que isso.
Os dedos dela traçaram um círculo lento na palma da minha mão, e precisei me concentrar para manter a respiração regular.
— E depois? — perguntei, minha voz quase um sussurro.
— Não precisa ter depois — ela respondeu, finalmente entrelaçando nossos dedos. — Amanhã a equipe estará aqui. Daqui algumas semanas o contrato acaba. Não tem depois.
O toque dela queimava na minha pele. Senti um aperto doloroso no peito, como se algo estivesse algo sendo arrancado de dentro de mim. A maneira como ela estava sendo direta machucava ao mesmo tempo que me instigava, e por um momento esqueci onde estávamos, esqueci de todas as razões pelas quais o que ela estava propondo era uma má ideia.
— O casamento é daqui a algumas horas — murmurei, mais para mim mesma, tentando me ancorar na realidade.
— É — ela concordou, apertando meus dedos. — E depois disso, voltamos para Porto Grande. Para nossas vidas separadas.
A pressão dos dedos dela parecia desesperada, contradizendo as palavras frias.
— Eu não sei, Bia. A maneira como você está me tratando...
— Como eu estou te tratando?
— No caminho para cá você mal falou comigo. Ontem no almoço e no jantar com seus amigos, me tratou bem... mas tinha público. Era encenação, não era?
Minhas próprias palavras saíam amargas, e senti os olhos arderem.
Bia soltou minha mão completamente e se recostou na cadeira, o sorriso sumindo do rosto. Seus ombros ficaram rígidos.
— Não estou te pedindo em casamento, Luísa. Estou te propondo que a gente... — ela deu uma risada baixa, amarga, e desviou o olhar pela primeira vez. — Quer saber... esqueça. Não vale a pena. Eu não valho a pena, não é mesmo? Sou o tipo de pessoa com quem você jamais se envolveria.
O tom de autodesprezo na voz dela me cortou. Senti raiva da maneira como ela falava. Parecia que estava brincando comigo. Rindo de mim.
— Você finalmente disse algo que faz sentido.
As palavras saíram mais cruéis do que eu pretendia. Vi o impacto delas no rosto de Bia.
— Ótimo — ela disse, voltando a atenção para a comida que havia chegado, mas suas mãos tremiam levemente ao pegar o garfo.
— Ótimo — respondi, fazendo o mesmo.
O som dos talheres contra os pratos ecoava alto demais. Fingi me interessar pela bruschetta, mas cada garfada sentia minha garganta intalar. O nó que se formara ali não deixava nada passar.
— Então é isso? — Bia quebrou o silêncio depois de alguns minutos, sem levantar os olhos do prato.
— É isso o quê?
— Você vai fingir que não tem nada acontecendo.
Voltei a olhar para ela. Havia algo diferente na voz dela. Cansaço. Derrota.
— Não é fingimento, Bia. É autopreservação.
— Autopreservação — ela repetiu, finalmente me olhando. Seus olhos estavam mais escuros, feridos. — De quê? De mim?
— Sim. Do que isso pode virar. Do que isso pode destruir.
Minha voz saiu baixa, quase como uma confissão.
Bia pegou a bolsa com um movimento brusco e fez sinal para o garçom sem olhar para mim. Seus lábios formavam uma linha fina e tensa.
— Conta, por favor.
Esperamos o pagamento em um silêncio constrangedor. Cada segundo parecia uma eternidade. O som dos outros clientes conversando ao redor parecia amplificado, contrastando com o vazio entre nós duas. Mantive os olhos fixos na mesa, contando as veias da madeira para não ter que encarar o que havia acontecido entre nós.
Quando saímos do café, Bia checou o celular com uma expressão irritada. A mandíbula dela estava tensa, os ombros rígidos.
— São duas e meia — disse, ainda evitando meu olhar. — O casamento é às seis.
— Eu sei que horas é o casamento.
Minha voz saiu cortante.
— Preciso voltar ao hotel para me arrumar — ela continuou, ignorando meu tom seco. — E você também.
— Obviamente.
— Então vamos logo — ela disse, já caminhando em direção ao carro.
Seguimos em silêncio até o estacionamento. Meus passos ecoavam no chão de pedra, cada um deles me afastando mais dela, mesmo caminhando na mesma direção.
O trajeto de volta foi pior que o de ida. Nem fingimos estar confortáveis. Bia dirigia com a mandíbula tensa, as mãos apertando o volante com força desnecessária, e eu olhava pela janela sem ver nada realmente. O ar dentro do carro parecia sufocante, pesado com tudo que não estávamos dizendo. Senti uma lágrima ameaçar escapar e pisquei com força para contê-la.
— Você trouxe vestido longo? — ela perguntou quando estávamos chegando ao hotel, a voz profissional e distante.
— Trouxe um midi.
— Que cor?
— Por quê?
Minha resposta saiu defensiva demais.
— Porque vão tirar fotos. Não podemos estar destoando tanto.
Claro. A aparência. Sempre a maldita aparência. Senti um amargor subir pela garganta.
— Verde escuro.
— Sapatos?
— Nude. Salto médio.
— Está bem.
Quando chegamos à entrada do hotel, ela desligou o carro mas não saiu. Os dedos dela permaneceram sobre o volante, apertando e soltando nervosamente.
— Vou estacionar e nos encontramos no quarto daqui a pouco — disse, finalmente me olhando.
Havia algo nos olhos dela que eu não conseguia decifrar. Algo que parecia muito com arrependimento.
— O casamento é em um local perto daqui. Quinze minutos de carro.
— Perfeito.
— E Luísa? — ela me chamou quando eu já estava saindo.
Me virei, esperando, meu coração batendo descompassado.
— Lá vai ter muita gente desconhecida, mas poderão ter jornalistas e fotógrafos por perto. Você sabe como funciona.
A realidade me atingiu. Claro. Sempre voltávamos para isso.
— Não se preocupe. Eu sei muito bem, Bia.
— Eu sei que sabe — ela disse, mas havia algo frio na voz dela. — Só estou lembrando que, independente do que aconteceu aqui, lá a gente volta a representar.
A palavra "representar" soou como um ponto final em tudo. Senti algo se quebrar dentro de mim.
— Entendi perfeitamente.
— Ótimo.
Saí do carro sem me despedir. Senti os olhos dela me seguindo até eu entrar no hotel, mas não me virei para confirmar. Não confiava em mim mesma para não voltar.
No elevador, sozinha, não pude mais conter as lágrimas. Apoiei a cabeça na parede fria do metal, fechando os olhos com força. Daqui a algumas horas, teríamos que fingir ser um casal apaixonado na frente de dezenas de pessoas. Sorrir, posar para fotos, talvez até nos tocarmos para manter a farsa.
A ironia era amarga. Passaríamos a noite inteira representando intimidade enquanto, na verdade, mal conseguíamos nos olhar nos olhos.
E o pior de tudo era saber que, apesar de toda a raiva e confusão, uma parte de mim ainda ansiava pelo toque dela.
Apertei os punhos até as unhas cravarem nas palmas das mãos, usando a dor física para ancorar a emocional.
Quando as portas do elevador se abriram, respirei fundo, limpei meus olhos e me recompus. Daqui a pouco, teria que colocar a máscara novamente.
Fim do capítulo
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