Capitulo 29
Por Bia:
Nos despedimos de Helena e Isabela com abraços e sorrisos. Elas ficaram lá, radiantes, como se tivessem saído direto de um catálogo de casais perfeitos. Eu e Luísa, por outro lado, voltamos para o carro em silêncio. O toque da mão dela ainda formigava na minha pele, como se tivesse decidido se instalar ali sem pedir permissão.
No hotel, o sol da tarde parecia conspirar contra nós, decidido a nos assar vivas. Apertei o botão do ar condicionado assim que entramos. O zumbido suave da máquina se misturou ao barulho abafado da rua.
— Pode ir primeiro para o banho, se quiser — falei, jogando-me na poltrona. Tentei soar casual, mas minha voz saiu rouca.
— Obrigada — Luísa respondeu, séria, antes de desaparecer com sua nécessaire.
Sozinha, peguei o celular. Helena tinha registrado uma foto nossa e, para meu azar, a imagem estava linda. Cruel também. O sorriso de Luísa parecia verdadeiro demais. Suspirei, postei nos stories com uma legenda neutra sobre “vista inesquecível” e tentei convencer a mim mesma de que era só uma foto.
O chuveiro desligou. Segundos depois, Luísa saiu enrolada numa toalha branca, cabelos úmidos escorrendo pelos ombros. Sim, definitivamente, o ar condicionado não daria conta.
— Sua vez — disse, desviando os olhos.
Entrei no banheiro e deixei a água fria me atingir, como se isso fosse me salvar. Não salvou. Voltei para o quarto tentando parecer recomposta, mas quem eu queria enganar?
Luísa estava à mesa, óculos no rosto, notebook aberto. Concentrada, séria, irresistível.
— Trabalhando? — perguntei, enquanto secava o cabelo.
— Sim. Preciso resolver uma pendência da PS. — não ergueu os olhos.
— Sempre tão dedicada — sorri de canto, deixando a ironia escorrer. — Deve ser ótimo viver num mundo onde o trabalho é prioridade absoluta.
Ela ergueu os olhos devagar, e o impacto daquele olhar foi quase físico.
— E deve ser ótimo viver num mundo onde nada é levado tão a sério.
— Quem disse que não levo as coisas a sério? — retruquei, aproximando-me da cama. — Só não faço cara de mártir enquanto isso.
O olhar dela deslizou pelos meus ombros ainda úmidos, demorando-se mais do que deveria.
— Às vezes sua ironia parece só um escudo, Bia.
— Talvez seja — arqueei uma sobrancelha. — Mas prefiro esse escudo à pose de santa.
Silêncio. Cada palavra vinha afiada, mas os olhares… ah, esses queimavam.
Luísa fechou o notebook devagar, como quem anuncia que a guerra vai começar. O som seco da tampa batendo ecoou pelo quarto quente, dourado pelo sol que insistia em entrar pelas frestas da cortina.
— De qualquer forma — disse, com a voz baixa — hoje à noite e amanhã precisaremos ser convincentes.
— Não acho que isso será difícil — respondi, sorrindo de lado. — Pelo menos não para mim.
Ela estreitou os olhos. Por um instante, achei que se levantaria só para me provar alguma coisa. Nada como um pouco de perigo para temperar a tarde.
Resolvi deitar e fingir que ia dormir. O som das teclas digitando voltou, criando um ritmo quase hipnótico. Quem diria que a dedicação dela ao trabalho teria esse efeito? Acabei cochilando.
***
Às sete da noite, já estávamos no carro, a caminho do endereço que Helena havia passado. Luísa dirigia em silêncio, concentrada na estrada, e eu observava a paisagem, tentando ignorar a tensão que ainda pairava no ar desde a tarde.
O apartamento de Helena e Isabela era exatamente o que eu esperaria delas: aconchegante e sofisticado ao mesmo tempo. Paredes claras decoradas com fotografias em preto e branco, plantas em cada canto, uma estante cheia de livros médicos misturados a romances. Velas acesas criavam uma atmosfera íntima, e o cheiro de algo delicioso escapava da cozinha.
— Que lugar lindo — comentei, observando os detalhes. — Combina tanto com vocês.
— Obrigada. A gente queria que fosse um lar de verdade, sabe? — Helena respondeu, sorridente.
Isabela apareceu com uma travessa nas mãos, e logo atrás vieram Marcos e Geany.
— Bia! — Marcos me abraçou. — Que bom te ver aqui.
— Marcos! — retribuí, antes de me voltar para Geany. — E você, Geany, quanto tempo!
— Bia, querida — ela me abraçou calorosamente, e logo se voltou para Luísa com um sorriso. — Você deve ser a Luísa! Finalmente! É ótimo te conhecer pessoalmente e não só pelas redes da nossa influencer preferida.
Marcos riu.
— É verdade! Já te conhecíamos pelos stories da Bia.
Antes que continuássemos, uma pequena explosão de energia atravessou a sala. Um menino de uns cinco anos correu até nós com um sorriso que iluminava tudo.
— Tia Bia! — ele gritou, me abraçando pelas pernas.
Meu coração derreteu instantaneamente.
— Oi, mocinho! E você é...?
— Heitor! — disse orgulhoso, correndo até Luísa para repetir o abraço. — E você é a tia Luísa!
Olhei para ela. Os olhos brilhavam de um jeito raro, completamente desarmados pelo carinho espontâneo.
— É um prazer te conhecer, Heitor — disse ela, e o menino sorriu satisfeito.
Helena suspirou, visivelmente emocionada.
— É tão bom ter vocês todos aqui. E perceber que todos estão em relacionamentos tão felizes…
Foi nesse momento que meu olhar cruzou com o de Luísa. Um olhar cheio de tudo que não podíamos falar.
À mesa, o vinho circulava com a mesma velocidade que as histórias. Helena mantinha o ritmo da conversa, e Isabela complementava com comentários certeiros. O casal parecia ter saído de uma propaganda.
Marcos contava uma anedota da clínica, Geany o interrompia para corrigir os detalhes, e no meio disso tudo Heitor fazia questão de ser o centro gravitacional, perguntando coisas, rindo alto e distribuindo abraços. Criança sabe roubar cena sem nem tentar.
— É engraçado como a vida nos juntou de novo — Helena disse, erguendo a taça, olhos brilhando. — Aqui estamos nós: médicos, artistas... — ela lançou um sorriso para Luísa. — E uma empresária de sucesso, coroando a mesa.
Minha empresária de sucesso, pensei, mas balancei a cabeça, afastando o pensamento intrusivo.
— Deve ser uma responsabilidade enorme — Marcos comentou, servindo-se de mais salada.
— Tia Luísa trabalha muito! — Heitor se adiantou, apontando o garfo para ela com a autoridade de um juiz. — A tia Bia disse que ela fica no computador até tarde!
Senti meu rosto esquentar, e não foi pelo vinho. Riso geral. Luísa me lançou um olhar estreito. Eu ergui a taça como escudo, sorrindo inocente.
— É… exige dedicação — ela respondeu. — Mas é gratificante. Às vezes só falta tempo para equilibrar tudo.
— E aí que entra a Bia, né? — Geany disparou, com um sorriso maroto. — Para te lembrar de viver também.
— Ela tenta — Luísa disse. Só isso. Mas o jeito como os olhos dela se demoraram nos meus, ah, aquilo era um parágrafo inteiro escrito sem palavras.
— Mamãe, a tia Bia é famosa, né? — Heitor puxou de novo o fio.
— É sim, meu amor. Faz muita gente sorrir e ficar feliz.
Sorri com o coração aquecido.
— Você pode fazer um vídeo comigo, tia? — ele pediu, empolgado.
— Claro que sim — respondi, já imaginando quantos seguidores ele arrancaria de mim com um único “oi, pessoal”.
As risadas continuaram, embaladas pelo vinho. Geany contou como Heitor havia chegado, ainda desconfiado e cheio de perguntas. Marcos falou da adaptação na clínica. Helena descreveu o jardim da pousada onde seria a cerimônia, e Isabela, com aquela calma apaixonada, falou sobre a ilha paradisíaca da lua de mel. Tudo lindo, digno de novela das nove, mas eu sentia o peso silencioso do olhar de Luísa em mim.
E então, como se alguém tivesse resolvido mudar o tom da trilha sonora, Geany virou-se para mim:
— Bia, é tão bom te ver bem depois de tudo aquilo que aconteceu. Em circunstâncias tão melhores, não é?
O vinho perdeu um pouco do sabor na boca. Forcei um sorriso.
— Muito melhores.
— Quem diria que aquela confusão da enchente ia acabar sendo uma bênção disfarçada? — ela insistiu, leve no tom, pesada no subtexto. — Até hoje lembro dos stories com o Lucas…
O nome dele caiu na mesa. Senti Luísa ao meu lado ficar rígida, mesmo sem mudar a expressão. A mulher é uma fortaleza.
— Pois é — soltei, com a calma que só anos de prática em frente a câmeras dão. — Às vezes é preciso uma enchente para limpar certas sujeiras, né?
— Ainda bem que você e o Pietro desmentiram tudo — Helena entrou no assunto. — Ele era um traste.
— Traste com plateia fiel — comentei, bebendo mais um gole. — Quanto mais eu negava, mais parecia novela. No fundo, acho que ele adorava os holofotes.
— Foi uma injustiça — Isabela disse, direta. — Você foi vítima de um sensacionalismo barato e de uma família sem caráter.
Silêncio. Tensão. A sombra do passado se estendeu pela mesa, até Heitor me puxar pela manga:
— Tia Bia, você vai jantar sempre com a gente?
O coração voltou ao lugar. A mesa riu, e o peso se dissipou como vapor.
— Vou sim, meu amor. E ainda quero provar a comida da sua mãe, que teu papai Marcos disse ser maravilhosa.
— A melhor do mundo depois da vovó Geralda! — ele declarou, inflando o peito.
E todos rimos de novo. Mas por baixo do riso, o fio invisível entre mim e Luísa continuava esticado, vibrando.
A noite avançava divertida pelas pelas histórias e pelo charme irresistível de Heitor, que já tinha Luísa na palma da mão. Eu só observava, entre goles e sorrisos treinados, como aquela criança conseguia arrancar dela reações que eu, com todo meu arsenal de ironia e charme, custava a provocar.
Em determinado momento, ele reparou na prótese de Luísa. Crianças não têm filtros, ainda bem.
— Tia Luísa, sua perna é diferente.
Um silêncio pairou sobre a mesa, mas ela lidou com a leveza de quem já se acostumou com perguntas diretas:
— É sim. Essa aqui é minha perna especial.
— É tipo a do Homem de Ferro? — os olhos dele brilharam de empolgação.
Ela riu, genuína, e aquele riso me atravessou como uma flecha.
— Mais ou menos isso.
— E como ficou assim? — ele insistiu.
Vi os olhos dela escurecerem um pouco antes da resposta, mas a voz saiu calma:
— Foi um acidente, quando eu era um pouco maior que você. Meu papai… não conseguiu sair comigo dele e acabou falecendo.
Um silêncio delicado caiu sobre a mesa. Heitor, sem saber o peso daquilo, respondeu com a sabedoria dos cinco anos:
— Mas você saiu forte como um super-herói.
Luísa piscou para ele, cúmplice. E foi nesse detalhe, nesse piscar, que percebi o quanto eu estava perdida.
***
Voltamos para o hotel por volta das onze. O caminho foi silencioso, mas não confortável. Cada quilômetro parecia aumentar a espessura daquilo que não estávamos dizendo. Luísa dirigia com os olhos fixos na estrada, mas eu via o maxilar travado, os dedos tensos no volante.
No quarto, a intimidade forçada voltou. Escovamos os dentes juntas, maquiagens indo embora pelo ralo, mas a tensão entre nós só se acumulava. Eu podia sentir o cheiro do perfume dela misturado ao sabonete, e isso já era tortura suficiente.
Saí primeiro, envolta no meu pijama de seda azul-marinho, shorts curtos e uma blusa de alças finas que deixava os ombros à mostra. Deitei, fingindo distração, embora cada músculo gritasse atenção. Quando ela saiu do banheiro, quase perdi a compostura: pijama de algodão cinza, justo demais para ser inocente, colado ao corpo como uma provocação despretenciosa… ou nem tanto
— Que dia — ela murmurou, mexendo na mala.
— Foi cansativo, mas bom — respondi, com a voz em uma intensidade mais baixa do que deveria. — Você se deu bem com o Heitor.
— Ele é doce. Crianças são desarmadas.
Ela hesitou antes de se aproximar da cama.
— Que lado você prefere?
— Tanto faz. — Minha resposta saiu rouca.
Ela deitou no lado direito. O colchão cedeu e, involuntariamente, eu deslizei alguns centímetros em direção a ela. O vinho não ajudava na contenção de danos.
— Desculpa — tentei me afastar, mas a mão dela pousou no meu braço.
— Não precisa se desculpar.
A voz saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de intenção. O toque era leve, mas firme. Os dedos dela começaram a desenhar círculos lentos na minha pele.
— Boa noite, Bia.
Fechei os olhos, mas o corpo inteiro estava respondendo àquela aproximação.
— Boa noite.
A respiração dela perto demais, o calor do quarto, o vinho circulando nas veias… tudo misturado. Entre pensamentos caóticos e desejos proibidos, o sono venceu.
Fim do capítulo
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Letícia ASI
Em: 30/01/2026
já comprei o ebook pra ler, pois minha ansiedade pra saber o desenrolar de historia ta demais
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MalluBlues Em: 06/02/2026 Autora da história
Aaah espero que tenha gostado, Leti!