Capitulo 28
Por Luísa:
Bia estava estranha. Mais do que o normal. As respostas curtas, o olhar que evitava cruzar o meu, a forma quase automática como mexia no celular… tudo nela parecia ensaiado. Mas, de certa forma, eu achei que era o melhor para nós. Profissional. Distante. Exatamente como deveria ser. Fingir envolvimento para os outros já seria complicado o suficiente, então não precisávamos complicar ainda mais fora do palco.
Mantive o olhar fixo na estrada e deixei que o silêncio nos envolvesse. Para mim, era reconfortante. Era quase um pacto silencioso para não nos atacarmos mais.
Enquanto dirigia, a paisagem começou a mudar. Nunca havia estado em Vintervile, mas a cada quilômetro o lugar me surpreendia. O interior tinha um charme próprio. Campos extensos, cercas de madeira antigas, flores silvestres nas margens da estrada. As casas tinham telhados inclinados e varandas com balanços, e, de vez em quando, uma placa pintada à mão anunciava uma venda de doces caseiros ou queijos. A simplicidade dali parecia desarmar até a ansiedade que eu tentava esconder.
Mas, conforme nos aproximávamos do centro, essa mesma ansiedade cresceu. O que nos esperava quando chegássemos? O casamento, os olhares curiosos, a atuação que precisaríamos sustentar… e, claro, Bia ao meu lado em cada passo, mesmo quando parecia querer estar a quilômetros de distância de mim.
Quando o carro começou a se aproximar do pequeno centro de Vintervile, Bia finalmente quebrou o silêncio.
— O endereço é esse — disse, estendendo o celular na minha direção, a tela iluminada com o mapa.
Diminuí a velocidade para pegar melhor a referência.
— Você consegue me guiar até lá?
— Consigo sim. — Ela deslizou os dedos pela tela. — Elas indicaram um hotel que fica no interior. Fiz as reservas confiando na indicação delas.
Assenti, dando um sorriso de canto, e segui suas instruções. Logo deixamos o centrinho para trás e voltamos a adentrar uma estrada cercada por vegetação densa. Árvores altas faziam sombra sobre o caminho, e um pequeno rio corria paralelo à pista. Passamos por uma ponte estreita de madeira, e mais adiante, após uma curva, o hotel surgiu diante de nós.
Era um lugar lindo. Uma construção em estilo colonial, pintada em tons de branco com detalhes em madeira escura. Grandes janelas de vidro refletiam a luz da manhã, e floreiras cheias de gerânios vermelhos decoravam as sacadas. À frente, um jardim cuidadosamente aparado exibia caminhos de pedra que levavam até a entrada principal. O estacionamento coberto ficava ao lado, com vagas organizadas e sombreadas por trepadeiras que se enrolavam nas colunas de madeira.
Estacionei, e logo descemos do carro. O ar fresco do interior bateu contra meu rosto, e só então percebi o quanto meu corpo estava rígido depois de três horas seguidas ao volante. Estiquei os braços para cima, alonguei as costas discretamente, sentindo os músculos relaxarem. Ao meu lado, Bia ajeitava o vestido com calma, como se também precisasse se recompor da viagem.
Um rapaz jovem, provavelmente um estagiário, veio apressado até nós. Parecia nervoso e sua voz quase falhou quando falou:
— Se-sejam bem-vindas!
Bia sorriu para ele, aquele sorriso ensaiado e impecável que ela dominava. O rapaz pegou nossas malas e nos indicou o balcão da recepção.
A recepcionista, por outro lado, parecia de outro mundo. Mal ergueu os olhos quando nos viu chegar, a expressão entediada como se estivéssemos atrapalhando seu dia. Pediu nossos documentos e começou a digitar, quase sem olhar para a tela.
Até que algo mudou. Quando pegou o documento de Bia, seus olhos finalmente se iluminaram.
— Beatriz Lemos Albuquerque.
— Sim — respondeu Bia, sorridente.
— É um prazer tê-la novamente na nossa cidade.
— Agradeço! — disse, com um tom caloroso.
— Depois daquilo tudo que aconteceu há dois anos… só quem é daqui sabe como foi.
— Verdade.
As duas ficaram nessa conversa enigmática, e eu ali, completamente por fora, me sentindo como a intrusa que provavelmente era. Ainda assim, não pude deixar de sentir um certo alívio: mesmo sendo reconhecida, Bia não foi hostilizada. Pelo contrário, havia até uma ponta de simpatia na voz da recepcionista.
A recepcionista sorridente então nos entregou as chaves.
— Aqui está o quarto.
Bia agradeceu e seguimos até o elevador. O silêncio voltou a nos acompanhar, dessa vez mais constrangedor do que antes.
Quando entramos no quarto, percebi que o hotel realmente tinha caprichado nos detalhes. Um espaço amplo, com piso de madeira clara e janelas que ocupavam quase toda a parede, permitindo uma vista privilegiada das colinas ao redor. As cortinas de linho branco filtravam a luz suave da manhã. A cama de casal era grande, com roupa de cama impecável em tons de creme e verde musgo, combinando com o estilo rústico do restante da decoração. No canto, havia uma pequena mesa com duas poltronas de veludo, e na varanda, uma rede convidativa.
Bonito. Aconchegante. E, de certo modo, intimidante. Porque tudo ali parecia exigir proximidade.
Olhei para Bia, que observava o quarto com a mesma atenção que eu. O silêncio entre nós se instalou outra vez, pesado, como se fosse impossível escapar dele.
Bia largou a bolsa em cima da cama e foi até a varanda. Empurrou a porta de vidro com calma e deixou o vento entrar, trazendo o perfume leve das flores do jardim. Seus cabelos se moveram com a brisa, e, por um instante, a imagem dela ali, emoldurada pela paisagem, me deixou paralisada.
Balancei a cabeça, tentando recuperar o foco. “Profissional”, repeti para mim mesma. Esse era o plano.
— Belo quarto — ela disse, finalmente, a voz baixa, quase aveludada. — Parece feito sob medida para... casais.
O modo como deixou a frase suspensa foi intencional. Eu sabia. E, contra a minha vontade, senti meu corpo responder antes mesmo da minha mente processar.
— É — murmurei, aproximando-me da cama, tentando soar indiferente. — Mas não deixa de ser só um quarto.
Ela se virou para mim, apoiando o ombro no batente da porta, os braços cruzados. O olhar demorou um pouco mais do que deveria, descendo até minhas mãos, depois subindo novamente para meu rosto. Um olhar que queimava.
— Só um quarto — repetiu, como se saboreasse as palavras. — Acho que tudo depende de quem está nele.
Engoli em seco. A distância entre nós parecia encolher, mesmo que eu não tivesse dado um passo. O silêncio novamente.
Respirei fundo, tentando me convencer de que era melhor ignorar, de que o “profissionalismo” ainda era minha armadura. Mas o jeito como ela me olhava, a proximidade inevitável daquela cama de casal, o maldito perfume dela que parecia impregnar o ar… tudo conspirava contra minha racionalidade.
— Helena nos convidou para almoçar. Pensei em nos instalarmos e depois seguirmos para o local do almoço — Bia disse, e eu olhei para ela, sem conseguir responder nada.
— Se você estiver cansada por ter dirigido até aqui, posso dirigir até o restaurante — ela continuou, com o tom de voz firme, mas o olhar demorando um segundo a mais sobre meu rosto.
— Se você não se importar... — murmurei, deixando escapar mais do que eu gostaria.
O jeito como ela sorriu de leve, quase imperceptível, me fez sentir como se tivesse acabado de lhe entregar uma vitória.
— Não me importo nem um pouco. — O tom saiu mais baixo, quase íntimo.
Senti o calor subir pelo meu pescoço. Desviei o olhar, tentando me ocupar com a mala, mas a sensação da presença dela era insistente, como se ocupasse cada espaço dentro do quarto e dentro de mim.
— Ótimo — acrescentei, forçando uma neutralidade que não convencia nem a mim mesma.
***
Bia assumiu o volante. Entrei no carro e respirei fundo, finalmente me permitindo relaxar um pouco. Agora eu podia observar a paisagem sem me preocupar em manter os olhos fixos na estrada.
A cada quilômetro, Vintervile me surpreendia mais. O carro cruzou outra ponte de madeira, rangendo sob os pneus, e logo depois começamos a subir por um trecho íngreme da estrada. Lá de cima, a vista se abria para colinas verdes que pareciam não ter fim.
Depois da curva, o restaurante surgiu. Pequeno, rústico, mas de uma beleza acolhedora. A madeira envelhecida das paredes contrastava com as cortinas floridas nas janelas, e vasos de cerâmica com flores vermelhas e amarelas davam um ar vivo ao lugar. Assim que estacionamos e descemos, o aroma de comida caseira já parecia nos chamar.
Entramos, e o cheiro da cozinha tomou conta dos meus sentidos: temperos, pão fresco, algo assando lentamente. Era impossível não se sentir em casa.
Logo, uma mulher alta, de cabelos pretos e ondulados, veio até nós com um sorriso caloroso.
— Helena! — Bia exclamou, entusiasmada, indo abraçá-la.
— Bia, que ótimo que vieram! Estou tão feliz. — Os olhos verdes de Helena então pousaram em mim, demorados, quase como se me analisassem.
— O lugar é muito lindo — comentei, tentando disfarçar minha ansiedade diante da intensidade daquele olhar.
— É sim. — A resposta veio de outra mulher, loira, que se aproximava. Eu presumi imediatamente quem era.
— Luísa, esta é Isabela. Minha noiva e futura esposa.
— Oi! É um prazer. — ela disse, me cumprimentando com um abraço afetuoso, antes de se voltar para Bia.
Nos dirigimos até uma mesa, e Helena puxou o assunto:
— Bom, vamos sentar e comer. Bia, lembra deste restaurante, né? É aquele do mirante.
— Lembro sim. — respondeu Bia, com um sorriso.
— Agora este restaurante é da Geralda. O Marcos e a Geany compraram para ela. Inclusive, em algumas noites, Geany canta aqui. E, claro, vai cantar no nosso casamento amanhã.
— Que maravilha! A comida deve estar dos deuses, então, né? — Bia comentou.
— Ah, com certeza. E valerá cada story postado — completou Isabela, arrancando um sorriso de todas nós.
E realmente era. Os elogios à comida de Geralda não eram exagero. Os pratos chegavam em porções generosas que enchiam a mesa e tinham aquele sabor de casa, de algo feito com tempo e carinho.
A conversa entre elas fluía leve, cheia de lembranças de trabalho e histórias compartilhadas. As três eram médicas, e mesmo que Bia não atuasse mais na área, Helena lembrava episódios de quando haviam trabalhado juntas. Eu me pegava em silêncio, observando, percebendo o quanto ainda havia tantas partes da vida de Bia que eu desconhecia.
Até que Bia perguntou:
— Mas e por que o Marcos e a Geany não estão aqui?
Helena sorriu de um jeito enigmático:
— Você vai saber à noite.
— Nossa… quanto suspense — retrucou Bia, erguendo uma sobrancelha.
De repente, uma senhora simpática apareceu ao nosso lado, o sorriso largo e os olhos brilhando.
— Gostaram da comida?
Respondemos quase em coro:
— Sim!
— Luísa, essa é a Geralda — Helena apresentou.
— É um prazer. Sua comida é maravilhosa.
— Agradeço, menina. Fico feliz de estarem aqui. — Ela ajeitou o avental, ainda sorridente. — Tem que levar elas para dar uma volta no mirante, Helena.
— Vamos sim, Geralda. — Helena confirmou, divertida. — A caminhada será nosso digestivo.
A caminhada até o mirante foi leve, ladeada por árvores que atenuavam a luz do sol em feixes dourados e mais leves. O ar cheirava a terra úmida e flores silvestres, e a cada passo eu sentia a proximidade de Bia ao meu lado. Não nos tocávamos, mas o roçar ocasional dos braços, a respiração dela próxima, o silêncio carregado… tudo parecia intencional.
Quando chegamos ao topo, a vista me roubou o fôlego. As casas de Vintervile se espalhavam lá embaixo, pequenas e coloridas, cercadas pelas colinas verdejantes que se estendiam até onde a vista alcançava. O vento batia suave, trazendo o frescor da tarde.
— Cada vez eu acho mais bonito — Helena comentou, abraçando Isabela pela cintura.
Meus olhos ficaram presos nelas por tempo demais. O modo como Helena a olhava, como se fosse impossível não se orgulhar daquela mulher ao seu lado. Isabela retribuía o olhar com um sorriso doce, e logo se encostou mais, deixando-se amparar pelo corpo dela. Era uma cena tão natural, tão íntima, que me atravessou como um golpe. Insegurança. Desejo. Vontade. Tudo misturado.
Foi quando senti o calor de Bia se aproximando. Ela se moveu para mais perto, e antes que eu entendesse, seus dedos deslizaram sobre os meus, entrelaçando-os com firmeza. Um arrepio percorreu meu braço até o peito. O gesto parecia tão natural, mas, ao mesmo tempo, tinha uma intensidade silenciosa.
— A vista é tão linda quanto eu lembrava — ela murmurou, com a voz baixa, quase só para mim.
Virei o rosto, e o sorriso dela me atingiu em cheio.
— É mesmo — concordei, incapaz de disfarçar o sorriso que brotou nos meus lábios.
Quando nossos olhares se encontraram, senti um frio descer para minha barriga. Por que meu corpo insistia em responder a cada olhar, cada toque, cada palavra dela? Eu queria manter o controle, me convencer de que aquilo era apenas fachada. Mas o brilho nos olhos de Bia, misturado com aquela proximidade indecente, quase me desmontava.
— Gente, vocês estão lindas juntas. Deixa eu tirar uma foto! — Helena disse, afastando-se um pouco para enquadrar a paisagem ao fundo.
Meu coração disparou. Antes que eu pudesse reagir, Bia apertou meus dedos entre os dela, erguendo nossa mão entrelaçada como se fosse parte da cena.
— Estão lindas mesmo… — Isabela completou, se aproximando de Helena, encostando-se ao lado dela para olhar a imagem no celular. — Se olhando desse jeito, tão apaixonadas.
As palavras dela. Apaixonadas. Era isso o que parecia, não era? Talvez eu realmente fosse uma ótima atriz, não é?
Bia virou o rosto levemente para mim, e os olhos dela diziam tudo o que nossas bocas não podiam dizer.
Fim do capítulo
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