Minha familia louca
Minha manhã havia sido estranhamente tranquila. Eu tinha conseguido finalizar a proposta para a diretoria, organizei boa parte da papelada burocrática acumulada e cogitava até assistir a um filme. Aquela sensação confortável deveria ter me alertado. Era calmaria demais para a minha vida.
Pouco antes do meio-dia, meu quarto foi invadido por uma Joyce furiosa. Ela entrou tão irritada que por um segundo achei que fosse me sacudir e me arremessar pela janela.
- Eu não estou acreditando nisso! - disparou, sem sequer fechar a porta. - Você fugiu de novo do hospital pra arrumar briga com o prefeito! E ainda teve coragem de quebrar o nariz dele!
Fiquei olhando para ela, completamente confusa.
- Você andou sonhando comigo? - perguntei. - Não saí desse quarto a manhã inteira.
- Minha mãe me ligou desesperada - continuou, andando de um lado para o outro. - Disse que viu você sendo presa!
- Está louca? - respondi, apontando para mim mesma e para o quarto. - Como pode ver, eu estou aqui. É impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo...
Parei no meio da frase. Um frio percorreu minha espinha.
- ...espera. Não pode ser.
Joyce franziu a testa.
- Não pode ser o quê?
Antes que eu respondesse, batidas apressadas ecoaram na porta. Ela se abriu com força, do tamanho da urgência dos meus pais.
Meu pai foi o primeiro a entrar. Veio direto até mim, os olhos marejados, como se eu estivesse à beira da morte. Minha mãe ficou logo atrás. Pelo jeito do olhar, eu já sabia a ordem: bronca primeiro, carinho depois.
- Filha... - ele disse, segurando minha mão. - Como você está se sentindo?
- Estou bem melhor - respondi, tentando tranquilizá-lo.
- Não minta para o seu pai - minha mãe interrompeu. - Estou vendo sua palidez. Por que não nos contou que estava hospitalizada?
Suspirei.
- Antes de responder isso... - falei devagar -, alguém pode me explicar por que todo mundo acha que eu fui presa?
- Isso eu posso responder.
A voz veio da porta.
Meu coração deu um pequeno sobressalto quando a vi entrar.
Luiza estava ali, parada, com a mesma postura segura de sempre. O mesmo rosto. A mesma presença que eu conhecia melhor do que gostaria de admitir.
- Oi, Lala.
Engoli em seco.
- Luiza...
- Em minha defesa - começou Luiza, cruzando os braços -, eu estava apenas tomando um café quando aquele escroto apareceu.
Joyce soltou um suspiro impaciente. Meu pai ficou imediatamente tenso.
- Ele veio pra cima de mim me chamando de vadia interesseira - continuou Luiza, sem suavizar nada. - Disse que você nunca ia conseguir arrancar um real dele com o processo . Que era melhor "se colocar no seu lugar" antes que alguém fizesse isso por você.
Meu estômago se fechou.
- Na hora eu percebi que ele estava falando "com você "- ela disse, agora mais contida. - Fiquei com raiva, mas respirei fundo. Pedi pra ele se afastar.
- E ele não se afastou - falei, já sabendo a resposta.
Luiza negou com a cabeça.
- Não. Ficou ainda mais agressivo. Disse uma coisa que... - ela fez uma pausa breve - ...que eu não pude deixar passar.
Joyce me olhou de lado, alerta.
- Quando vi, já tinha socado o nariz dele - Luiza concluiu, dando de ombros. - Foi rápido. Automático.
Meu pai levou a mão ao rosto, dividido entre preocupação e um orgulho que ele não sabia esconder.
- Aí, claro, ele chamou a polícia - continuou Luiza. - E foi exatamente quando eu estava sendo algemada que a Sara chegou.
O nome caiu pesado no quarto.
- As pessoas que estavam no café testemunharam - ela seguiu. - Disseram que foi ele quem se aproximou de forma grosseira, que me ameaçou.
Respirei sem perceber que estava prendendo o ar.
- A Sara ouviu tudo - Luiza acrescentou. - E deixou bem claro pra ele que, se insistisse nessa versão, ela acrescentaria coerção e abuso de autoridade ao processo.
Joyce arqueou a sobrancelha, impressionada apesar de si mesma.
- Depois disso - Luiza concluiu -, o tom dele mudou bem rápido.
O silêncio se instalou por alguns segundos.
Então - Joyce disse por fim, cruzando os braços -, oficialmente temos um prefeito de nariz quebrado, uma advogada que acabou de cavar a própria cova e dois problemas exatamente iguais pra todo mundo se preocupar.
- Vou fingir que não ouvi isso - respondi, fechando os olhos por um segundo.
- Preciso ir - disse Joyce, já se virando para a porta. - Quero ouvir os detalhes pela Santi.
- Diga à Sara para me ligar.
Antes que Joyce saísse, minha mãe pigarreou, num tom doce demais para ser inocente.
- Mamãe... - avisei. - Sei exatamente o que a senhora está pensando.
Ela abriu o sorriso mais sereno do mundo.
- Não estou pensando em nada.
Aquele tumulto acabou sendo ouvido no corredor e, em poucos segundos, uma senhora baixinha, de postura rígida e expressão nada paciente, surgiu à porta.
- Minha nossa! Isso aqui é uma festa? - disparou, olhando um por um. - Escolham um acompanhante. O resto... fora!
Ficou decidido, para meu total desgosto, que minha irmã passaria a noite comigo. Eu sabia exatamente o motivo: meus pais queriam que conversássemos, que fizéssemos as pazes. O que eles não sabiam era que minha raiva dela já tinha passado havia algum tempo. O problema era outro. Eu era orgulhosa demais para admitir o quanto sentia sua falta - e que já a tinha perdoado.
Depois da segunda bronca da enfermeira, meus "autoconvidados" começaram a se retirar. Inclusive Luiza, que ainda passaria a noite comigo, mas antes foi deixar nossos pais e as malas na minha casa. Disse que voltaria mais tarde.
Toda aquela agitação me deixou completamente exausta. Fechei os olhos apenas para tirar um cochilo... e acabei dormindo de verdade.
Horas depois, quando os corredores já estavam silenciosos e o hospital parecia finalmente descansar, Joyce usou seu privilégio eterno de "filha do doutor Jaime" para me fazer uma visita.
Ela entrou sem fazer barulho. Eu ainda dormia. Joyce se aproximou da cama e passou a mão de leve pelo meu rosto, afastando as mechas de cabelo que insistiam em cair sobre meus olhos. Depois se sentou na cadeira ao lado, observando-me em silêncio.
Foi então que percebeu. Meu corpo tremia.
Ela se levantou depressa, foi até a enfermaria e voltou acompanhada da enfermeira da noite, que agiu com rapidez e eficiência. Fui medicada ainda meio perdida entre o sono e a febre.
Acordei sentindo a mão de Joyce apertar a minha com cuidado, firme o bastante para me ancorar ali.
Joyce?
Ela soltou minha mão quase no mesmo instante e se afastou um pouco da cama, como se tivesse sido pega fazendo algo proibido.
- O que faz aqui?
- Eu... vim pegar uma coisa que meu pai esqueceu - respondeu, rápida demais. - Aproveitei pra verificar se você estava bem. E se estava se comportando.
- Quero melhorar logo. Não vou fazer mais nenhuma loucura.
- Espero mesmo que não. - Ela respirou fundo. - Já fiz o que precisava fazer. Agora vou voltar pra casa. Boa noite.
- Boa noite. Obrigada... por se preocupar. E por ser gentil.
- De nada...
Joyce foi até a porta, girou a maçaneta... mas não saiu. Ficou ali, parada, como se algo a puxasse de volta.
Quando falou de novo, a voz saiu diferente. Mais baixa. Quase um desabafo.
- Sua família parece conhecer bem a Sara... - disse, sem me olhar. - Como vocês se conheceram?
- Ela não te contou?
Joyce negou com a cabeça.
- Ela nunca fala do tempo em que esteve fora. Quando voltou... estava triste. Mas não quis explicar o motivo.
O silêncio que se seguiu disse tudo o que nenhuma de nós teve coragem de colocar em palavras.
Somos amigas - respondi. - O resto... acho que não sou eu quem deve contar.
Joyce suspirou, como quem aceita uma resposta que não queria. Voltou a girar a maçaneta. Mas, dessa vez, antes que pudesse abrir, a porta se abriu sozinha.
Luiza apareceu no vão, ainda com a bolsa no ombro, o cabelo preso de qualquer jeito. O olhar dela passou rápido por mim... e parou em Joyce. Curioso. Avaliador. Levemente surpreso.
- Tentei vir o mais rápido que pude pra não te deixar sozinha - disse, entrando no quarto. - Mas, pelo que estou vendo, você já estava sendo muito bem cuidada.
Joyce endireitou o corpo de imediato, como se tivesse sido chamada à atenção.
- Eu já estava de saída - respondeu, seca, sem explicar nada.
- Claro - Luiza sorriu de canto, aquele sorriso que eu conhecia bem demais. - Mesmo assim, obrigada por ficar com ela.
Joyce assentiu, desconfortável.
- Boa noite - disse, por fim, olhando pra mim. - Se cuida.
Ela saiu sem esperar resposta.
Luiza fechou a porta devagar e caminhou até a cama.
- Então... - começou, puxando a cadeira e se sentando ao meu lado. - Essa é a Joyce.
- É.
- Interessante - comentou, casual demais pra ser verdade.
- Não começa.
Luiza riu baixo.
- Fica tranquila. Só achei... curioso.
Ela hesitou por um instante antes de completar:
- Faz tempo que não vejo alguém te olhar daquele jeito.
O quarto ficou quieto de novo. E, dessa vez, o silêncio não era confortável.Luiza sorriu de canto. Se vai ficar inventando coisas, pode ir embora.
- Não vou - Luiza respondeu, firme. - Precisamos conversar.
- Não. Não precisamos.
Ela respirou fundo, como quem se prepara para atravessar algo espinhoso.
- Pode fingir que não, mas eu te conheço como conheço a mim mesma. E isso não é só porque somos gêmeas. Sempre estivemos juntas. Na família, nas saídas com os amigos... até em grande parte das nossas primeiras vezes.
- Juntas... - repeti, sentindo o peso da palavra. - Não acha irônico dizer isso? Já se esqueceu que me abandonou quando eu mais precisei? E depois ainda destruiu meu relacionamento.
Luiza desviou o olhar por um segundo. Quando voltou a me encarar, a voz estava mais baixa.
- Do primeiro eu me arrependo. Demorei a entender o que eu sentia... e o quanto aquilo tudo estava me afetando.
- Isso não muda o que aconteceu.
- Eu sei - respondeu rápido, sem tentar se defender. - E não vim pedir que você esqueça. Só... não quero mais fingir que não existo na sua vida.
Ficamos em silêncio. O monitor ao lado da cama marcava um ritmo lento, constante, quase irritante.
- Você sabe qual foi a parte mais difícil? - continuei. - Não foi a briga. Foi perceber que, quando eu precisei, você não estava lá. Eu procurei você... e você escolheu ir embora.
- Eu achei que estava fazendo o melhor pra nós duas - disse, com um sorriso triste. - Estava errada. Muito errada.
- Estava.
Ela assentiu, aceitando o golpe sem reagir.
- Não vim consertar o passado, Lala. Só... quero fazer diferente agora. Provar que nunca mais estaremos separadas. E que continuo, e sempre serei, o pior pesadelo de quem ousar te fazer mal.
Olhei para ela. Seu olhar ainda era o mesmo que tantas vezes procurei como refúgio e cuidado - meio torto, meio atrasado, mas sempre sincero.
- Não prometa nada que não possa cumprir.
Ela se levantou devagar, ajeitou o cobertor, apagou a luz do abajur e se deitou ao meu lado.
- Você continua espaçosa. Não disse que podia se deitar.
- Também não disse que não - respondeu, já fechando os olhos. - Vamos dormir.
Fechei os meus sem responder.
Não porque tivesse perdoado tudo - mas porque, com ela ali, todo o meu mundo pareceu um pouco mais leve.
Logo ela se virou e se aconchegou em mim. Segundo minha mãe, dormíamos assim desde quando ainda éramos apenas promessa em sua barriga - ela sempre me envolvendo, sempre me protegendo. Talvez por isso tenha sido tão difícil quando se afastou depois que me assumi lésbica. Foi um momento confuso, duro, e ela escolheu ir embora. Como se não bastasse, ainda convenceu nossos pais de que minha primeira namorada não prestava.
Mais tarde, descobri da pior maneira que ela estava certa. Isso me feriu ainda mais, porque ela poderia simplesmente ter conversado comigo, em vez de virar as costas. Naquela época, decidi esquecê-la também. Deixei que a raiva ocupasse o espaço onde antes existia apenas amor fraterno.
Agora, enquanto ela me protegia até mesmo durante o sono, comecei a enxergar tudo com outros olhos. Éramos jovens. Não sabíamos o que estávamos fazendo. Erramos tentando acertar.
Talvez tivesse chegado a hora de deixar o passado onde ele pertencia - atrás de nós - e valorizar o tesouro que eu ainda tinha o privilégio de possuir: minha família.
Fim do capítulo
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Luciane Ribeiro Em: 15/02/2026 Autora da história
Sim ,Laura na verdade tem uma grande família,por isso entende bem os sentimentos das pessoas da cidade.Ela sabe como é difícil ficar distante ,então não deixará que os jovens tenham que partir em busca de trabalho novamente.