Capítulo antecipado, estou feliz pela interação de vocês. Muito obrigada por isso!
O coração fica quentinho...
Gente, neste capítulo teremos palavras de baixo calão e indícios de uma violência sexual.
Capitulo 2
A água quente do chuveiro aliviava um pouco da tensão acumulada no corpo de Soraia, mas era incapaz de acalmar a tempestade que se formava em sua mente. Com os cabelos ainda úmidos e vestindo apenas uma calça de moletom e uma regata preta, ela se jogou na cama ao lado de Mabel, que já se acomodava preguiçosamente sobre o travesseiro.
— Bom, filha… agora é oficial. Estamos no inferno.
Murmurou enquanto afagava a gata, que respondeu com um ronronar baixo.
Soraia pegou o celular e digitou uma mensagem rápida para Inácio.
“Cheguei. O circo pegou fogo?”
A resposta veio quase imediatamente.
“Pior. O diabo tá solto.”
Ela franziu a testa, um mau pressentimento apertando o peito. Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, um som atravessou as paredes de madeira do casarão, cortando o silêncio da madrugada como uma lâmina.
O estalo violento de uma porta batendo ecoou pelo corredor, seguido por um grito abafado. Soraia congelou por um instante, a respiração suspensa. Um segundo depois, outro grito rasgou a noite, mais agudo, mais desesperado.
— POR FAVOR! PARA COM ISSO!
A voz frágil, embargada e trêmula vinha do quarto de Maxximus.
O coração de Soraia disparou. As palavras de socorro pareciam ganhar força junto ao barulho de objetos sendo derrubados.
— POR FAVOR, PARA! EU NÃO QUERO! ME SOLTA!
Um arrepio percorreu sua espinha.
— ME LARGA! SOCORRO!
Dentro do quarto, Maxximus estava irreconhecível. O cheiro forte de uísque impregnava o ar, misturado ao suor ácido de quem havia bebido demais. Os olhos avermelhados e vidrados encaravam a jovem loira com fúria e descontrole.
Então veio a voz do pai. Ferrenha. Asquerosa. Arrastada pelo álcool e pela crueldade.
— Esse era o meu direito de marido, sua vadiazinha!
O sangue de Soraia gelou.
Sem pensar duas vezes, saiu do quarto às pressas, os pés descalços batendo forte no chão de madeira. O coração martelava no peito, quase ensurdecedor.
Um rosnado antecedeu o próximo ataque. Com um movimento brusco, Maxximus empurrou a moça com força. O corpo frágil foi lançado para trás, as costas batendo violentamente no canto da parede, onde a quina encontrava o armário. O impacto arrancou um gemido abafado, seguido por um soluço de dor.
Alice escorregou para o chão, os joelhos cedendo. Tentava se proteger como podia, arrastando-se para longe dele, os olhos arregalados e molhados pelas lágrimas que agora escorriam sem controle. O som seco da pele contra a alvenaria ecoou alto o suficiente para que Soraia ouvisse do corredor.
Ela não pensou duas vezes. O sangue subiu ao rosto, o instinto falando mais alto.
Chegou à porta do quarto do pai e bateu com força.
— ABRE ESSA PORTA, SEU DESGRAÇADO!
O silêncio foi curto.
— Soraia? Isso não é da sua conta. Desapareça, como fez há cinco anos.
A voz pastosa denunciava o álcool.
— ABRE ESSA PORRA AGORA!
Tentou girar a maçaneta com as mãos trêmulas de raiva, mas estava trancada.
— VAI EMBORA!
O berro foi seguido de outro golpe seco e, logo depois, mais um grito de Alice.
— SOCORRO! ME TIRA DAQUI, POR FAVOR!
O choro baixo, abafado, confirmou que a garota ainda estava consciente.
Soraia correu de volta ao próprio quarto, o coração em disparada. Pegou o papel que Valmir havia lhe dado e digitou rapidamente.
“Valmir, volte agora. Traga algo para arrombar uma porta.”
Não esperou resposta. Correu até o escritório do pai, revirou gavetas à procura da chave mestra. Quando voltou ao corredor, as mãos tremiam, as entranhas ferviam de ódio.
Valmir surgiu logo depois, ofegante, com um pé de cabra nas mãos.
— Patroa, que diabos tá aconte...
— Arromba!
Os olhos de Soraia ardiam em fúria. Valmir não questionou. Com um movimento forte, forçou a fechadura. A porta se abriu violentamente.
— Se prepare para tirar a garota daqui. Eu cuido do resto.
Mesmo sem entender, ele assentiu.
— Sim, senhora.
A cena dentro do quarto fez o estômago de Valmir revirar.
Maxximus estava sem camisa, o cinto aberto, fedendo a álcool e suor. Alice estava encolhida num canto, o vestido de noiva rasgado, o rosto marcado por uma bofetada e um corte na testa. O branco do tecido estava manchado de sangue.
Foi o suficiente para Soraia avançar.
— FILHO DA PUTA!
Empurrou o pai com toda a força. Maxximus cambaleou, surpreso.
— Não se meta, Soraia. Essa vadia agora é minha esposa. Tenho direitos.
O sorriso nojento nos lábios fez algo se romper dentro dela.
— Cala a boca antes que eu quebre a porr* dos seus dentes, seu miserável!
A voz de Soraia era um trovão. Ela se virou para Alice, que estava em choque, e se ajoelhou à sua frente.
— Menina, olha pra mim.
Alice piscou lentamente.
— Eu vou te tirar daqui, tá bem?
A jovem assentiu, trêmula. Valmir já aguardava na porta.
— Leva ela pro meu quarto e tranca a porta.
Maxximus avançou, furioso.
— Eu não autorizei isso!
— E eu não te pedi autorização pra nada.
Soraia se colocou entre ele e Alice.
— Se você encostar um dedo nela de novo, eu acabo com você.
O ódio no olhar de Maxximus encontrou o dela. Soraia não recuou.
Aquele seria o primeiro e último dia em que ele tocaria em Alice.
Quando Valmir tentou pegá-la no colo, Alice gritou, em pânico.
— NÃO ENCOSTA EM MIM!
— Deixa, Valmir. Eu faço isso.
Soraia se aproximou devagar.
— Calma, querida. Ele não vai te tocar. Eu prometo. Posso te levar no colo?
Alice assentiu, os olhos cheios d’água.
— Não se atreva, Soraia!
O grito de Maxximus ecoou. Ele pegou uma garrafa quase vazia de uísque e bebeu um longo gole.
— Você não sabe com quem está falando.
— Sei exatamente quem você é, pai. Um porco nojento. Um monstro.
Com um movimento rápido, Soraia arrancou a garrafa da mão dele e a arremessou contra a parede. O vidro se estilhaçou.
— Se você tocar naquela menina de novo, eu te mato.
O silêncio foi sufocante.
— Acha que pode me enfrentar?
— Você vai pagar pelo crime que cometeu hoje. Existe lei.
Ele riu, sarcástico.
— A lei aqui sou EU!
— Não deixe a soberba te cegar Maxximus. Você vai cair. E eu vou provar.
Sem esperar resposta, Soraia pegou Alice no colo e saiu do quarto.
— Valmir, segura esse monstro.
— Pode deixar, patroa.
A risada de Maxximus ecoou atrás deles.
Soraia levou Alice até seu quarto e a deitou com cuidado na cama. A jovem se encolheu, abraçando os próprios joelhos.
— Tá segura agora. Se você permitir, vou cuidar dos seus machucados.
Alice não respondeu. Seus olhos estavam vazios.
Soraia respirou fundo. Precisava ser forte.
Sentou-se ao lado da cama.
— Você precisa de cuidados. Posso ajudar.
— Alice.
— O quê?
— Meu nome é Alice.
Ao dizer o próprio nome, o choro veio com força.
— Eu nunca pensei que minha primeira vez seria assim.
O peito de Soraia apertou.
— Vamos tirar esse vestido. Um banho quente vai te fazer bem.
As mãos de Alice tremiam.
— Eu não consigo.
— Posso?
Ela assentiu.
Soraia ajudou com cuidado, colocou um roupão sobre seus ombros e a guiou até o banheiro.
— Vou ficar aqui. Se precisar, me chama.
Alice entrou no box.
Minutos depois, o silêncio preocupou Soraia. Bateu na porta.
— Alice?
Nenhuma resposta.
Sem hesitar, abriu a porta.
E o que viu fez seu coração despencar do peito.
Alice estava sentada no chão do box, abraçando as pernas, enquanto a água quente escorria pelo seu corpo frágil. O sangue que manchava suas coxas se diluía e descia pelo ralo, mas ela não se movia.
Chorava baixinho, perdida em sua própria dor.
Soraia se ajoelhou ao lado do box e abriu a porta de vidro.
— Alice, você conseguiu tomar banho?
A menina apenas balançou a cabeça em negativa, o olhar perdido. Soraia hesitou por um segundo. Então, pegou o sabonete líquido e uma esponja macia.
— Posso te ajudar?
Alice assentiu com um gesto quase imperceptível. Soraia entrou no box e se ajoelhou ao lado dela. Colocou um pouco de sabonete na esponja e começou a limpar a pele delicada da garota com todo o cuidado do mundo, como se Alice fosse de vidro e pudesse se quebrar a qualquer momento.
Mas a verdade era que Alice já estava quebrada. Seu corpo estava ali, mas seus olhos… Seus olhos estavam mortos.
E isso quebrou Soraia também.
Ela passou a esponja com delicadeza pelos braços, pelas costas, pelas pernas. Em momento algum olhou Alice de maneira indevida. Só queria limpá-la, tirá-la daquela sujeira, daquele horror.
Quando terminou, desligou o chuveiro e pegou o roupão.
— Vem, vamos levantar.
Alice obedeceu sem questionar, apoiando-se nela.
Soraia a enrolou no roupão e a levou de volta para o quarto. Pegou uma blusa folgada e uma calça de moletom.
— Acho que vai servir em você, disse colocando as roupas ao lado de Alice.
Virou de costas para dar-lhe privacidade, enquanto trocava sua própria roupa molhada. Mas então ouviu a voz fraca de Alice:
— Eu… eu... não tenho forças.
Soraia fechou os olhos por um momento.
— Eu ajudo você.
Pegou uma toalha e começou a secar os cabelos loiros da jovem abatida, com muito cuidado e respeito tirou o roupão que envolvia aquele corpo magro, viu as marcas arroxeadas que se faziam presente nas costas da pele alva.
— Você permite que eu passe uma pomada nas suas costas?
— Hunrumm ....
Alice concordou.
O gelado do creme e calor que emanava da mão quente de Soraia em contato com sua pele fez Alice soltar um gemido baixo.
Soraia por sua vez sentiu sua respiração parar por segundos e apressou-se em encerrar aquele toque. Rapidamente passou a blusa pela cabeça da mais nova, guiando seus braços para dentro das mangas. Depois, ajoelhou-se à sua frente e puxou a calça de moletom para cima de suas pernas emagrecidas.
— Precisamos fazer um curativo nessa testa.
Soraia disse já se levantando para pegar sua maleta.
Quando terminou, ajudou a mais nova a se deitar, fofando os lençóis sobre ela. Mabel, a gata, já estava deitada ao lado de Alice, ronronando baixinho.
— Eu vou buscar algo para você comer.
Soraia falou já indo em direção a porta.
Mas antes que pudesse dar um passo, Alice segurou seu braço com força.
— Não me deixa aqui! Não me deixa sozinha! Por favor...
Alice suplicava já com os olhos rasos d’água cheios de pavor e a voz embargada.
O desespero na voz dela fez Soraia congelar.
Alice começou a chorar de novo, seu corpo tremia.
Soraia voltou imediatamente para perto dela e a abraçou com força.
— Eu não vou a lugar nenhum, prometo.
Alice soluçava contra seu ombro, e Soraia a embalava, murmurando palavras tranquilizadoras.
— Pronto, calma eu tô aqui. Eu vou cuidar de você agora.
Aos poucos, Alice foi se acalmando.
Soraia continuou ali, segurando-a, sentindo sua respiração se tornar mais lenta e compassada. Até que, por fim, a jovem deitou a cabeça contra o peito da morena e a abraçou pela cintura.
Soraia passou os dedos pelos cabelos molhados da garota, um carinho automático, um conforto silencioso.
E assim ficaram abraçadas, até o dia raiar.
Fim do capítulo
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Zanja45
Em: 04/02/2026
Nossa, que situação!
Que homem asqueroso esse Maximus.
Mas é esse cuidado todo de Soraia, resultou em alguma coisa? Aquele gemido emitido por Alice foi de dor ou prazer?
Eu sei que ela estava numa situação deplorante, no entanto o fato de Soraia ter se adiantado para vestir Alice após ouvir a reação dela ao passar a pomada, cabei algumas indagações quanto a isso, pois Soraia sentiu alguma mudança na garota.
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Liladiniz Em: 05/02/2026 Autora da história
Difícil né? O gemido foi de dor, mas causou em Soraia uma sensação que nao cabia ali, naquele momento.