Capítulo 9 — Verdades Enterradas
Capítulo 9 — Verdades Enterradas
Isabela caminhava de um lado para o outro, agora em seu próprio escritório, a pasta com documentos pesando em suas mãos como se fosse feita de chumbo. Cada folha que carregava não era apenas prova de corrupção, mas também um fragmento da história de sua família, de seu pai — um homem respeitado na comunidade, mas que agora se revelava como peça central em um esquema envolvendo desvios de recursos governamentais e contratos fraudulentos de transporte e logística e não só, havia ainda uma última coisa, algo que Isabela sequer conseguia pronunciar em voz alta.
“O que senhor fez pai?! Quem é você?!
Isabela pensou em voz alta e angustiada.
A percepção de que Vicente de Alcântara Mendes havia deixado de ser o pai e esposo, amoroso e protetor que Isabela construíra em sua mente e se tornado o vilão dessa história não foi instantânea, desde que lera os documentos seu coração entrou em colapso, um abismo se formara entre sua moralidade e a falta de caráter de Vicente Mendes. Já não havia mais orgulho em ser sua filha. Era tudo uma mentira. Isabela tinha um dilema em suas mãos.
“Ao expor a verdade: Me tornaria alvo de políticos poderosos da região, pessoas que não hesitariam em destruir minha reputação ou até ameaçar minha vida ou das pessoas próximas a mim.” Pensou consigo mesma. “ Mas proteger o legado do meu pai mantendo o silêncio significava compactuar com a corrupção e perpetuar esse sistema que explora inocentes e desvia dinheiro de agricultores pobres e projetos comunitários.” Isabela sentiu-se enjoada com esse último pensamento, o peso da escolha pairava sobre sua mente, a justiça contra a memória de seu pai, a verdade contra a sobrevivência.
Jogou a pasta sobre a poltrona de couro e pegou um copo de seu pequeno bar, encheu e entornou o whisky de uma vez. Sentiu a queimação descendo pela garganta, nada comparado ao que fazia seu peito arder, pôs mais uma dose. Estava cheia de raiva e frustração e num acesso de irritação atirou o copo a parede num movimento brusco. Mirou o vidro espatifado, um reflexo de como se encontrava por dentro.
Sentia-se vazia e ainda mais sozinha. Apertou os lábios e pegou o celular, pensou em entrar em contato com Fernanda, chegou a selecionar o nome da engenheira em sua agenda, mas um vislumbre de razão a impediu, sabia que não poderia trocar qualquer mensagem que pudesse ficar gravada enquanto estivessem sob investigação. Jogou o celular de lado, sentou-se ao chão e abraçando as próprias pernas chorou. Chorou como a muito tempo não fazia. Chorou pela solidão, pela frustração, pelo medo. Medo de perder seu legado, medo de perder sua empresa, mas principalmente, medo de nunca merecer ser amada.
No fim, dentro de todo esse turbilhão, ela sabia, a única coisa boa que lhe acontecera foi Fernanda. Acabou não se controlando, levantou-se enxugando as lágrimas e decidiu procurá-la pessoalmente, precisava vê-la. Seu coração ansiava por algum conforto e desconfiava que só a engenheira conseguiria entendê-la naquele momento. Já não se importava em parecer forte e imbatível, só queria vê-la, ouvi-la. Pegou as chaves do corro e saiu.
***
Naquela noite Fernanda ainda estava no escritório da Cooperativa, a colheita estava próxima e há alguns dias Rafael teve a ideia de realizar um evento para promover o projeto. Mas para isso era necessário criar uma divulgação. Foi então que Fernanda lembrou que Anna-Lú poderia ajudá-la com isso. Ligou para ela e no dia seguinte ela já estava em San Juan Diego para se reunir com Fernanda e os outros.
Elas haviam passado o dia andando pelos espaços da Cooperativa, montaram um plano de divulgação e Anna-Lú fez o que sabia fazer de melhor montando uma campanha publicitária incrível, deixando todos com um fôlego a mais, um afago de animação em meio a dias bem complicados. Depois que todos se foram, restou apenas as duas naquele galpão. O cansaço de Fernanda era visível e Anna-Lú não podia deixar de notar que havia algo mais profundo ali.
— Agora me diz: além de toda a preocupação com o trabalho, o que mais está acontecendo, Nanda?
Fernanda levantou os olhos. E pela primeira vez naquele dia, encarou Anna-Lú diretamente.
— Estou tão ruim assim? — perguntou Fernanda.
— Você parece melhor... mas seus olhos ainda fogem, Fê — disse Anna-Lu, entregando uma xícara com chá de camomila.
Fernanda sorriu com a boca, não com os olhos. Pousou a xícara sobre a mesa antes de responder com um suspiro de exaustão.
— Ah, Na-Lú, têm tantas coisas acontecendo agora. E quando penso por muito tempo, começo a imaginar o que não posso ter.
— Tipo?
— Tipo aquela coisa que vocês têm... leveza, troca... amor.
Anna-Lú aproximou-se ficando entre ela e a mesa e segurou sua mão com firmeza.
— Não seja boba, Fê. Você merece tudo. E depois, o amor não é um prêmio pra quem nunca errou nessa vida. Acontece quando menos esperamos. E tenho a leve desconfiança que é exatamente o que está acontecendo aí dentro.
Disse Anna-Lú espalmando a mão direita sobre o peito de Fernanda, com aquela intimidade e reconhecimento dos anos de amizade na infância.
— Eu só não... Não sei se consigo aguentar o inverno que vem junto. Não deu muito certo com a gente.
Fernanda sorriu com tristeza baixando a cabeça novamente.
Anna-Lú a segurou pelos ombros fazendo Fernanda olhá-la nos olhos antes de responder.
— Primeiro, nós éramos imaturas e seu pai era um escroto viciado em jogos, sem ofensas. — Fernanda sorriu concordando. — Mas aprendemos com isso, lições duras, é verdade, mas estamos aqui. E segundo, e se não for um inverno? Se for um outono, em vez disso? Mais que ninguém, sabes que assim como as plantas o amor só precisa do espaço suficiente pra florescer de novo, não achas?
Os olhos de Fernanda brilharam com a formação de lágrimas que ela não derramou, mas que claramente entregavam o quanto ela estava emocionada. Pigarreou antes de conseguir responder.
— Uau! Vivi para ver Anna Lúiza Garcia usar analogias com termos da natureza.
— Não enche! — Anna-Lú a empurrou de leve.
As duas riram juntas como a muito tempo não faziam, e depois abraçaram-se como se finalmente fechassem uma ferida antiga. O momento era fraterno e alheias ao mundo exterior não notaram a figura que, pela porta entreaberta do escritório, observava a cena, mas não perto o suficiente para ouvir o conteúdo da conversa.
Os olhos de Isabela escureceram ao ver a intimidade compartilhada entre Fernanda e aquela mulher desconhecida. Foi até ali em busca de abrigo, mas o que encontrou aliado a toda avalanche de sentimentos ruins que estava a sentir, fez um ciúmes descomunal implodir dentro de si.
Como se finalmente sentisse a presença de Isabela, Fernanda olhou na direção da porta por instinto. Ainda com os braços sobre os ombros de Anna-Lú, pensou que sua mente a estivesse pregando uma peça.
— Isabela?! - Sibilou soltando-se de Anna-Lú.
Isabela não respondeu. Apenas virou-se e saiu apressada, o som de seus passos ecoando pelo galpão vazio. Fernanda, tomada por um impulso, correu atrás dela.
— Isabela, espera! — gritou, mas ela já abria a porta da caminhonete com força.
Sem pensar duas vezes, Fernanda entrou no veículo antes que Isabela pudesse impedir.
— Eu não vou deixar você sair assim — disse, ofegante, enquanto fechava a porta.
Isabela lançou-lhe um olhar carregado de mágoa e raiva, mas não disse nada. Girou a chave e arrancou, fazendo o motor rugir contra o silêncio da noite. E deixando uma Anna-Lú para trás sem entender nada..
“Mas que porr* foi essa?!”
Dissera para si mesma enquanto via a caminhonete se distanciar em velocidade.
O caminho de terra se estendia diante delas, iluminado apenas pelos faróis.
Dentro da caminhonete, o ar era pesado.
— Você não devia estar aqui! — disparou Isabela, finalmente quebrando o silêncio.
— E você não devia ter ido até o galpão, mas estamos nós aqui, duas pessoas que não deveriam estar no mesmo ambiente, muito menos a se comunicar. Então, eu quero saber, o que você foi fazer na Cooperativa?
Fernanda tentava ser razoável e controlada.
— Você não entende, né? — Isabela dissera angústiada.
— Pois então me explique, quero entender.
— Eu pensei que... pensei que... nós...arg!
Isabela bateu no volante de forma nervosa, não conseguiu concluir.
— Ok, só se acalma, por favor. E me diz... O que você pensou?
Isabela soltou uma grande lufada de ar e parecia lutar contra si mesma. Olhou rapidamente para Fernanda antes de voltar a falar.
— Pensei que... estivesse acontecendo algo entre nós.
Isabela falou tão baixo que Fernanda quase não a entendeu. Mas entendeu sim, completamente e achou fofa a vulnerabilidade que Isabela demonstrou. Sorriu de canto.
— Acho fofo que a dama de ferro da Mendes Agritec esteja envergonhada.
— Não ria de mim! — Isabela falou brava.
— Tudo bem, desculpe, mas se queria tanto me ver, porque saiu daquele jeito? — perguntou séria.
— Tá de sacanagem? Eu cheguei ali procurando você, e o que encontro? Você nos braços de outra!
Fernanda respirou fundo, tentando manter a calma.
— Nos braços de outra? As coisas não são bem assim. Não foi o que parece. A Anna-Lú é uma amiga de longa data, Isabela. Ela me conhece desde criança.
— Amiga? — Isabela riu com ironia, os olhos fixos na estrada. — Então é assim que você chama quando alguém toca você daquele jeito?
Fernanda se inclinou para frente, a voz firme.
— Você não tem o direito de me julgar sem ouvir. Eu estava desabafando, só isso.
Isabela apertou o volante com força, como se quisesse esmagá-lo.
— Eu só sei que doeu. Doeu ver você ali, sorrindo com ela, como se eu fosse... invisível.
O silêncio voltou por alguns instantes, até que Isabela freou bruscamente. A caminhonete parou no meio da estrada de terra, levantando poeira ao redor. E, abrindo a porta com violência, ela saiu.
Fernanda hesitou, mas saiu também. O vento frio da noite cortava a pele, e a tensão entre as duas parecia palpável.
— Você acha que eu não sinto? — Fernanda explodiu. — Eu também tenho medo, Isabela. Medo de me entregar e perder tudo de novo. Mas você não pode simplesmente virar as costas cada vez que algo te incomoda!
Isabela se aproximou, os olhos marejados.
— E você não pode brincar com o que eu sinto, Fernanda. Eu não sou ingênua, sei o que quero e mesmo que muitos pensem assim, não sou feita de ferro. E odeio me sentir fraca. E odeio mais ainda quem me faz sentir vulnerável.
As duas ficaram frente a frente, respirações aceleradas, acusações pairando no ar. Até que, num instante de pura vulnerabilidade, Isabela segurou o rosto de Fernanda com as mãos trêmulas.
— Eu te odeio, Fernanda, odeio por me fazer sentir assim... — murmurou, antes de puxá-la para si e aproximar os lábios.
Fernanda não resistiu. O beijo aconteceu como um choque, intenso, urgente, carregado de tudo que não havia sido dito. A poeira ainda pairava ao redor, mas naquele momento nada mais existia além delas duas, no meio da estrada, finalmente despindo-se das barreiras que elas mesmas ergueram.
O beijo terminou com ambas ofegantes, ainda próximas, como se o mundo tivesse parado por alguns segundos. Mas logo o silêncio pesado voltou, e com ele a consciência do que acabara de acontecer.
Isabela afastou-se primeiro, passando a mão pelos lábios como se tentasse apagar o gesto.
— Temos que ir!
Fernanda deu um passo à frente, tentando segurar o braço dela.
— Não fala assim. Você sentiu, Isabela. Eu sei que sentiu. Temos que conversar sobre isso.
— Não importa, não podemos ser vistas juntas. Foi um erro ter ido te procurar.
O vento soprou forte, levantando poeira e trazendo um frio que parecia refletir o estado das duas. Isabela virou-se sem dar chance de Fernanda revidar. O beijo havia revelado o desejo, mas também escancarado as inseguranças e feridas mal cicatrizadas.
Elas voltaram para a caminhonete em silêncio, cada uma mergulhada em seus próprios pensamentos. O caminho de volta prometia não apenas distância física, mas também um terreno emocional cheio de conflitos ainda por vir.
Fim do capítulo
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EriOli Em: 21/02/2026 Autora da história
Eita, eita! Já saiu o novo hahaha