Capítulo 10 — Fendas
Capítulo 10 — Fendas
Nos dias seguintes, o clima na Cooperativa parecia ter mudado. O entusiasmo da campanha publicitária ainda ecoava, mas por baixo da superfície havia uma corrente de silêncio e olhares desviados.
Isabela sumira completamente dos encontros coletivos, não aparecendo sequer quando necessário, ela vinha mantendo distância de Fernanda, como era o recomendado, mas isso não tornava as coisas menos dolorosas. Sua ausência era notada, mas ninguém ousava comentar. Fernanda, por sua vez, tentava se concentrar no trabalho, mas a lembrança da noite na estrada a perseguia. O beijo, tão intenso, havia aberto uma porta que agora ela não sabia como fechar.
Anna-Lú, sempre perceptiva, não demorou a notar.
— Fê, o que aconteceu? — perguntou em tom baixo, enquanto revisavam os cartazes da campanha. — Desde aquela noite você mal olha pra mim.
Fernanda hesitou, mordendo o lábio.
— É complicado... — respondeu, desviando o olhar.
Anna-Lú a encarou com firmeza.
— Complicado ou mal resolvido? Qual é Fernanda, a gente se conhece desde antes de toda a loucura que nos aconteceu e mesmo estando casada com a Carolina hoje, eu ainda lembro de cada um dos teus trejeitos e sei bem que ainda lembras dos meus. E eu conheço esse silêncio. É o tipo que só aparece quando alguém está tentando esconder sentimentos.
Fernanda suspirou, mas não respondeu. Anna-Lú então, deu de ombros e resolveu deixar pra lá.
Naquela mesma tarde, Isabela apareceu de surpresa na Agritec. Por incrível que pareça, a nova presidência não cancelou o contrato com Fernanda e nem encerrou o projeto de plantio acelerado, então ela continuava cumprindo com o combinado. O olhar de Isabela encontrou Fernanda e um outro engenheiro lado a lado, rindo de algo banal. A conexão entre ambas voltou como uma onda, lembranças recentes e vívidas.
Provocações, as discussões, os ciúmes que sentiu da tal amiga e principalmente o beijo. As pernas de Isabela fraquejaram, a verdade é que queria correr até Fernanda e provar sua boca novamente. Mudou o peso de uma perna para a outra e praguejou-se em pensamento, tinha tantas coisas que queria que Fernanda soubesse, mas não podia se aproximar e antes que não conseguisse mais se controlar, sem dizer nada, Isabela virou as costas e saiu.
Fernanda tentou correr atrás, mas desta vez alguém a segurou pelo braço.
— Não vá. Se você correr sempre atrás dela, nunca vão se entender — disse uma voz que ela não conhecia.
Fernanda congelou, dividida entre a razão e o impulso do coração. Quando virou-se viu que era Helena, chefe de Logística e amiga de Isabela. Helena lhe sorriu de forma genuína.
Helena não soltou o braço de Fernanda imediatamente. O gesto não era de força, mas de contenção. O olhar dela transmitia calma, como quem já havia testemunhado aquela cena antes.
— Prazer, sou a Helena, acho que ainda não fomos oficialmente apresentadas.
— Fernanda — respondeu apertando a mão que Helena lhe estendia. — Mas acho que você já sabia.
— Você precisa entender, Fernanda — disse em voz baixa, quase confidencial. — Isabela não está fugindo de você. Ela só está tentando se proteger.
Fernanda sentiu o coração acelerar.
— Proteger de quê? De mim? — perguntou, num tom que misturava incredulidade e dor.
Helena suspirou, escolhendo as palavras com cuidado.
— Ela me contou o que aconteceu na estrada. E a verdade é que ela precisa se proteger de tudo, dos escândalos, dos sentimentos que ela não sabe se pode sustentar agora. Garota, você mexeu com algo profundo nela, mas também a deixou vulnerável. E Isabela não lida bem com vulnerabilidade.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Fernanda desviou o olhar, tentando processar. Helena, porém, não recuou.
— Eu sou amiga dela há anos. Conheço suas feridas, suas forças e seus medos. Se você realmente quer estar perto dela, precisa aprender a esperar. Vai por mim, agora não é o melhor momento de correr atrás.
Fernanda mordeu o lábio, lembrando do beijo na estrada, da intensidade que parecia impossível de apagar.
— E se eu não conseguir esperar? — murmurou.
Helena inclinou a cabeça, como quem avalia uma peça rara.
— Então talvez seja apenas desejo. E desejo é momentâneo, a outra coisa não, essa precisa de paciência.
As palavras ficaram ecoando dentro de Fernanda, como se fossem um espelho que ela não queria encarar. Helena, por sua vez, sorriu de forma serena, mas firme.
— Veja bem, senhorita Alencar, eu não estou contra você. Só quero que Isabela não se perca no meio disso. E, quem sabe, que você também não se perca.
Naquele instante, Fernanda percebeu que Helena não era apenas uma amiga de Isabela. Era uma guardiã, alguém que sondava com delicadeza, mas também com firmeza, pronta para proteger.
Enquanto isso, Isabela caminhava sozinha pelos corredores da Agritec, sentindo-se cada vez mais deslocada. A ideia de perder seu patrimônio aliado ao sentimento avassalador que estava sentindo por Fernanda era insuportável. Mas ao mesmo tempo, o medo de se abrir novamente a deixava paralisada. Depois tinha problemas maiores, não podia se dar ao luxo de pensar em romance.
Precisava se concentrar no que era mais urgente, entrou na sala de Carlos e deixou-se jogar no sofá. Sentia-se exausta e Carlos logo se preocupou.
— Bela! Cê tá bem?
Perguntou já com um copo de água em suas mãos.
— Não, mas vou ficar.
Pegou o copo das mãos de Carlos e sorveu metade do conteúdo.
— Que bom, porque tenho novas informações e bom, não são boas.
Isabela suspirou cansada. E Carlos sentou-se ao seu lado lhe entregando uma pasta com documentos.
— Então, com uma simples pesquisa no SINTEGRA descobri que a Agro Norte foi aberta há apenas cinco anos, como eu já tinha te falado, mas com a ajuda de um contato no setor de registros empresariais, consegui mais algumas coisas. Primeiro, o endereço registrado é de um galpão abandonado na periferia de Belém. E segundo, agora vem a bomba. O nome do responsável? Guilherme de Almeida Campos.
Carlos esperou que Isabela assimilasse suas palavras. Sabia que talvez ela não ligasse os pontos imediatamente.
— Esse nome deveria significar alguma coisa para mim?
— O sobrenome dele é exatamente igual ao da nossa diretora de Marketing.
Isabela ficou em silêncio por alguns segundos. A ficha começava a cair.
— Alessandra... a tua namorada?
Carlos empalideceu.
— Bela, eu juro que não sabia. Eu só saí com ela umas 3 ou 4 vezes...
— Tudo bem, Carlos, não estou te acusando de nada. Provavelmente ela estava mesmo é interessada nas informações que tens sobre mim e a minha gestão.
— E tem mais Bela.
— Mais?
— O advogado que intermedeia o aluguel do tal galpão: Heitor Mendes.
Carlos apontava o nome de Heitor em um dos contratos.
— Heitor? — Isabela quase derrubou o café. — Meu primo?
— Sim. E olha isso — Carlos mostrou o extrato bancário da empresa. — A entrada de 300 mil veio de uma conta conjunta com... Alessandra.
— Ela está ajudando a destruir a Agritec. E você, sem saber, abriu a porta pra eles. Ainda bem que meu primo é um idiota, seque se deu o trabalho de apagar os próprios rastros.
***
Enquanto Isabela reunia provas, longe dali, Alessandra estava em um apartamento de luxo no centro da capital, deitada na cama ao lado de Heitor.
— Achas que ela sabe de alguma coisa? — perguntou ele, acariciando o cabelo dela.
— Acredito que está começando a juntar as peças. Ela ameaçou seu pai e Carlos é mais esperto do que parece.
— Não importa. O contrato já foi assinado. O rombo está feito. E o papai já tem os investidores prontos pra assumir o controle da Agritec.
— E se ela conseguir reverter?
Heitor sorriu.
— Aí entra o plano B. E você sabe exatamente o que fazer.
Alessandra se levantou, vestiu a blusa e olhou pela janela.
— Eu só espero que Carlos não se machuque. Ele é um idiota, mas é um bom homem.
— Sentimentos agora? — Heitor zombou. — Você sabia desde o começo que ele era só uma peça.
Alessandra não respondeu. Mas pela primeira vez, hesitou.
Ainda naquela tarde, no apartamento de Heitor, Alessandra observava o celular. A mensagem que ela mesma havia acabado de enviar estava marcada como “visualizada”.
— Está feito — murmurou para si mesma.
Heitor entrou na sala, animado.
— Os investidores estão prontos. Papai vai apresentar a proposta de compra da Agritec essa semana. Com todo escândalo envolvendo o nome de Isabela, ela não terá escolha.
Alessandra se virou, séria.
— E se ela tiver provas contra nós?
— Não tem. E se tiver, a gente queima antes que chegue ao conselho — ele respondeu sério.
— Eu não quero mais fazer parte disso.
Heitor parou, encarando-a.
— Você não tens escolha, Alessandra. Já está envolvida até o pescoço. E se tentar sair, eu te afundo junto com a Isabela.
Ela engoliu em seco. Sabia que ele não estava blefando.
Fim do capítulo
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