Capítulo 29 - A Verdade
A porta do apartamento de Ana se abriu, e o coração de Hinata, que esteve em uma montanha-russa de medo e desespero, se acalmou ao ver o rosto de sua amada. A luz do final de tarde que entrava pela janela iluminou o rosto de Ana, mas os olhos dela, normalmente cheios de vida, estavam opacos e feridos. Sem hesitar, Hinata avançou, abraçando a jovem como se houvesse se passado meses desde que se despediram.
— Honey, I’ve missed you so much. There’s so much I need to explain. (Amor, eu senti tanto sua falta, preciso te explicar tudo o que aconteceu.) — Hinata disse, segurando o rosto de Ana com as mãos, dando-lhe um beijo nos lábios.
Ana não respondeu. Não retribuiu o abraço ou o beijo. Seu corpo estava rígido, e ela se afastou do toque de Hinata com uma frieza que a fez recuar.
— Ana? — A voz de Hinata se encheu de preocupação, percebendo a seriedade do olhar de Ana.
— Quem é Mizuki? — A pergunta soou como um sussurro afiado, com uma seriedade que Hinata jamais havia ouvido de sua namorada.
— … — Hinata não soube o que dizer. Todas as palavras que ela havia ensaiado em seu caminho até ali desapareceram.
— Conheci seu pai hoje. — Ana disse, e a frieza em sua voz se transformou em uma raiva silenciosa.
— … — Hinata engoliu em seco. A garganta parecia fechada.
Ana desviou de Hinata, fechando a porta atrás de si com um clique silencioso que soou como um baque alto nos ouvidos de Hinata. Ela se virou e encarou a mulher que amava. Seus braços estavam cruzados e seus olhos, apesar de cheios de mágoa, eram firmes.
— … — Ana aguardou em silêncio, a paciência dela se esgotando a cada segundo.
— Eu explico tudo. — Hinata disse, a voz trêmula.
— Ótimo. Vou me sentar para ouvir tudo o que tem a me dizer. — Ana caminhou até o sofá e se sentou, apontando para o lugar ao seu lado. Hinata permaneceu de pé, com os olhos cheios de água. A dor no peito de Hinata era quase tão forte quanto o medo de perder Ana.
— Você sabe que eu amo você, né?
— Por que não começa me explicando por que mentiu para mim?
— Meu nome é Mizuki Kodama, mas eu não menti sobre o que eu sinto.
— Só sobre o restante, certo? — Ana retrucou, o sarcasmo evidente. — Fui apenas uma peça no seu joguinho de faz de conta.
Hinata balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo por seu rosto. — Não é nada disso. It all started when Mr. Kodama asked me to investigate this branch. We were losing money, and it was my chance to finally become the CEO. That’s why we created a disguise; I would be Hinata Matsuzaki so I could join the branch as a director without raising any suspicions about an investigation of this scale. I’ve done this several times in different countries (Tudo começou quando o Senhor Kodama pediu que eu investigasse a filial daqui. Estávamos perdendo dinheiro, e era minha chance de finalmente me tornar CEO da companhia. Foi então que criamos um disfarce, eu seria Hinata Matsuzaki para poder entrar na filial como diretora sem levantar suspeitas sobre uma investigação desse porte. Eu já fiz isso várias vezes em vários países.)
Ana se levantou. Suas mãos tremiam, e seus olhos se encheram de lágrimas. — "I’ve done this several times"? Então eu não fui a primeira? Fui só mais uma que você usou para conseguir o que queria?
— Iie! (Não!) Ana, it’s not like that. Those were simple investigations, and I didn't get this involved with the employees. (Ana não é nada disso. Eram investigações simples, e eu não me envolvia tanto com os funcionários.)
Ana começou a chorar. As lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ela olhava para Hinata, a mulher que ela achava que conhecia. — E por que me envolver nos seus planos? Eu não sou ninguém, Hinata, ou Mizuki, já nem sei mais como te chamar. Abri meu coração pra você, te levei para conhecer minha família, eles te acolheram como uma filha.
— No começo, era só trabalho, mas com o tempo, ser a Hinata… é quem eu quero ser, without my dad, without been a Kodama (sem meu pai, sem ser uma Kodama). Quando ficamos com sua família, I truly realized what it felt like to have a real family. (eu realmente percebi como era ter uma família de verdade.)
— Não contar a verdade para os outros eu até entendo, mas continuar com essa mentira comigo? Por que?
— Eu queria contar quando o Mr. (Sr.) Kodama deixava eu ficar.
— Ficar?
— Hai (Sim), Eu pedi pra fica aqui no Brasil. He questioned my reasons, so I sent reports on the branch’s overall improvement and how my presence here has been making a difference specifically with your management in the C.A.P. department. (Ele me fez questionamentos dos motivos, e eu enviei relatórios da melhora no quadro geral da filial e como a minha presença aqui estava fazendo com que as coisas melhorassem, especificamente com a sua gestão no setor de C.A.P.)
Ana balançou a cabeça, uma risada sem humor escapando por seus lábios. — Você não pretendia contar para ele sobre nós, né? Você iria ficar aqui se ele autorizasse, mas o que iria acontecer se daqui a alguns anos ele te chamasse de volta?
— I hadn’t really thought about those possibilities, but the less Mr. Kodama knows about our life here, the happier we’ll both be. (Não cheguei a pensar nessas possibilidades, mas quanto menos o Senhor Kodama soubesse da nossa vida aqui, mais felizes nós duas seríamos.)
— Como eu pude ser tão ingênua, pensando que alguém como você iria se apaixonar por alguém como eu? Como eu pude me deixar levar dessa forma?
— Amor, respira. — Hinata deu um passo à frente, tentando alcançá-la.
— Não me peça para respirar. — Ana a impediu com um gesto. — Mas olha, tenho uma novidade para você. — Ela estendeu a mão e pegou o pendrive com o relatório. — Aqui estão todos os dados e informações de que precisa para comprovar todo o esquema do Jorge e do desvio de dinheiro na empresa. Então, seu trabalho aqui está terminado.
O olhar de Hinata se fixou no pendrive. A solução para todos os seus problemas profissionais estava ali, na palma da mão de Ana. Mas ela não se importava. Vendo que Hinata não se movimentou, Ana pegou a mão da japonesa e a obrigou a segurar o pendrive.
— Eu quero ficar com você.
— Eu te amei de verdade, Hinata, mas não conheço essa Mizuki Kodama. — A voz de Ana se partiu.
— Não, amor, Please... don't. (por favor… não faz isso.) — Hinata implorou, as lágrimas caindo sem controle.
— Melhor você ir. Não quero que seu pai venha me acusar de mais nada. — Ana abriu a porta do apartamento e esperou.
O corpo de Hinata tremeu. Ela olhou para o rosto ferido de Ana, para a porta aberta, e entendeu que não havia mais nada a dizer. Com os ombros caídos e o coração em pedaços, ela se virou e caminhou em direção à saída, sentindo a porta se fechar atrás de si, o som do clique ecoando a dor de um final.
—xxx—
Ana se arrependeu no mesmo instante em que a porta se fechou atrás de Hinata. O clique da fechadura ecoou no silêncio do apartamento e parecia selar a decisão mais estúpida de sua vida. Ela amava aquela mulher de todo o seu coração, mas ela se sentia traída e ferida demais para ceder ao desejo de perdoá-la. Ela precisava de um tempo para entender.
A noite se arrastou em um tormento de dor e arrependimento. Ana não conseguiu dormir quase nada, apenas ficou deitada, chorando e lembrando de cada momento que viveu ao lado da mulher que amava. Todas as lembranças felizes da primeira viagem juntas, dos beijos apaixonados e das conversas profundas, se transformaram em ainda mais dor em seu peito. Por que sua amada não pôde ser sincera com ela? Ana teria entendido, teria ajudado a carregar o peso daquele segredo. Ou, pelo menos, foi o que pensou no primeiro momento.
A angústia deu lugar a uma introspecção mais fria e lógica, o modo investigativo de Ana agindo como um mecanismo de defesa contra o coração partido.
"Será que eu realmente teria entendido o lado dela?"
Ela se permitiu reavaliar a situação.
"Em qual momento Hinata realmente poderia ter contado pra mim a sua verdadeira identidade? Ela teria contado em nosso primeiro encontro no restaurante?"
A lembrança veio à sua mente.
"Naquela noite, no restaurante nós não éramos tão íntimas assim. Eu era uma funcionária que ela estava pedindo ajuda com o trabalho. Se ela tivesse me contado, talvez eu teria ficado toda tensa e estranha por conhecer a vice-presidente."
Ana se lembrou das várias noites em que elas ficaram no escritório até tarde, pensando em como elas foram se tornando mais próximas, o relacionamento evoluindo de uma parceria profissional para uma amizade, e então para algo mais.
"Certamente ela não poderia ter me contado na noite em que cuidou da minha hipotermia, e…
A mente de Ana saltou para o momento do primeiro beijo, uma noite em que o relacionamento profissional ainda superava os desejos físicos que elas sentiam uma pela outra.
“No dia em que nos beijamos pela primeira vez, estava tudo tão recente que nem sabiamos o que sentíamos direito. Quando fomos para a casa dos meus pais talvez… mas também não teria sido um bom momento, seria um choque para todos.”
Sua mente saltou novamente para a noite em que finalmente ficaram juntas.
"Algo assim com certeza teria colocado uma pedra ainda mais pesada em mim quando eu pedi demissão. Seria provável que eu não aceitasse voltar a trabalhar lá de forma alguma. E sei que ela quis me deixar decidir sem me influenciar."
A cama de solteiro em que Ana estava deitada naquele momento parecia gigantesca devido à ausência de sua companheira, cuja presença já havia preenchido sua vida. A dor em seu peito se tornava sufocantemente maior.
"Em nossa primeira vez… ela foi tão cuidadosa e carinhosa comigo. Ela não estragaria a minha primeira vez com algo do tipo: 'Olha, estamos prestes a dormimos juntas, mas eu não sou quem você pensa que eu sou'."
A lembrança das semanas que se seguiram, repletas de momentos românticos, mesmo na empresa, onde Hinata sempre encontrava uma forma de estar presente na rotina de Ana, inundou sua mente. Aos poucos, as peças do quebra-cabeça da mentira se reorganizaram em uma nova imagem, uma imagem de medo e proteção, e não de traição.
"Entendo que ela deve ter pensado em me contar, e talvez ela tenha sentido medo de estragar o que tínhamos, exatamente como aconteceu no fim das contas. Não foi ela quem estragou tudo, fui eu. Eu e a minha cabeça dura. Preciso consertar isso."
Ana olhou em seu relógio. O Sol havia começado a nascer. Ela não iria esperar nem mais um minuto para falar com Hinata. Depois de se trocar rapidamente, Ana correu pelas ruas de Serra Verde, sentindo o ar frio da manhã em seu rosto, o coração cheio de esperança e a mente cheia de desculpas para dar.
Em pouco tempo, ela chegou à casa de Hinata. Mas a cena que a esperava no portão a fez parar de repente, com o ar preso nos pulmões. Havia um caminhão de mudança e alguns funcionários que carregavam caixas para fora.
— Hey, bom dia, moço. O senhor sabe me dizer se a dona dessa casa está lá dentro?
— Bom dia, moça. Então, uns japoneses contrataram a gente para desocupar e limpar a casa. Saíram vários carros com a equipe dos japas ontem à noite, e eles até passaram na casa do Juca, o dono da empresa, para deixar a chave. Disseram para entregarmos na imobiliária quando terminarmos a mudança.
O mundo de Ana desabou novamente. As pernas de Ana ficaram bambas. O tempo parecia ter congelado e ela não conseguia dizer mais nada.
"A Hinata foi embora?"
Fim do capítulo
Bom dia! Boa Tarde! Boa noite!
Depois desse cap intenso, quero saber como vocês estão?
Sei que é muito pra processar mas... primeiramente quero saber o que acharam da atitude da Ana nesse cap, concordam com a revolta dela?
Segundamente quero que vcs respirem que ainda temos reviravoltas nos aguardando.
Fiquem bem e até semana que vem.
Comentar este capítulo:
HelOliveira
Em: 01/02/2026
Eu esperava essa atitude da Ana, mas não contava que não teria tempo para se arrepender e ajustar as coisas com sua amada.
Agora eu conta com a Hinata para virar e esse jogo e não desistir da Aninha, que entenda que a decisão dela foi em um momento delicado
[Faça o login para poder comentar]
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]