Capitulo 15 O QUE CRESCE EM SILÊNCIO
O Que Cresce em Silêncio
Mesmo sem nomear, algo havia mudado.
Os dias passaram a ter pequenos fios invisíveis ligando Melinda e Sofia. Nada anunciado. Nada prometido. Mas havia ligações no meio da tarde — rápidas, às vezes só para perguntar se o dia estava pesado demais. Quando Sofia mal conseguia sair da sala de reuniões, um almoço fresco chegava à empresa, escolhido por Melinda com uma atenção que dizia mais do que qualquer frase direta. Em dias ainda mais longos, lanches simples, quase domésticos, como quem cuida sem querer ser visto cuidando.
Melinda fora convidada para uma palestra na USP, sobre suas publicações. Um reconhecimento importante. Sofia ligou assim que soube.
— Vou te levar ao aeroporto — disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Damon e Eiriene percebiam. No jeito como uma esperava a outra terminar de falar. Nos silêncios confortáveis. Nos olhares que demoravam meio segundo a mais do que o necessário. Eles viam o que as duas ainda não ousavam encarar — talvez por medo de machucar, talvez por receio de não serem correspondidas.
Mas quem olhava de fora já via: havia sentimento.
E onde há sentimento, há perigo.
Uma semana depois da palestra, Melinda confirmou os últimos detalhes com o buffet do casamento. Conversaram por telefone, combinaram de se encontrar pessoalmente para ajustes finais. Sofia avisou que iria direto de outro compromisso.
Melinda entrou no carro já organizada mentalmente, quando Otávio apareceu, abrindo a porta do passageiro com um sorriso largo.
— Não ia perder a chance de ver o monumento de perto — disse ele, rindo. — Casamento estratégico é melhor que série.
— Você não tem medo de morrer, não? — respondeu Melinda, ligando o carro.
— Tenho. Mas a curiosidade sempre ganha.
No início, Sofia se irritava com as brincadeiras do jovem. A informalidade, os comentários atravessados. Mas, com o tempo, foi se acostumando. Havia algo genuíno nele — uma alegria que não parecia ensaiada.
O trânsito estava pesado. Um sinal fechou antes que Melinda pudesse ultrapassar. O carro atrás deles se aproximou demais. Otávio, atento demais para a idade que tinha, franziu o cenho.
— Mel… — começou, baixo. — Aquele carro não tá normal.
Ela tentou avançar quando o sinal abriu, mas não conseguiu. O som veio seco, rápido, impossível de confundir.
Disparos.
Num impulso desesperado, Melinda puxou o mecanismo do banco para trás, tentando deitar-se e puxar Otávio junto. Mas o medo foi mais rápido que o corpo. Ele se ergueu num reflexo inútil — e o impacto veio quase ao mesmo tempo.
Dois tiros.
Melinda sentiu a força do amigo ceder quando o puxou. Uma dor quente atravessou seu ombro, violenta, desorientadora. O mundo perdeu contorno. Sons viraram ecos distantes. Luzes se embaralharam.
Ela caiu sobre Otávio, tentando protegê-lo sem saber mais de quê.
Em segundos, tudo ficou escuro.
Quando os transeuntes se aproximaram, havia gritos, mãos trêmulas, pessoas tentando estancar o inevitável pânico. Alguns choravam sem conhecer nenhum dos dois. Outros apenas olhavam, imóveis, como se a cena fosse grande demais para caber no entendimento.
Melinda estava por cima de Otávio.
Como se, mesmo inconsciente, ainda tentasse cumprir o gesto que não conseguiu terminar.
E, em algum lugar distante, Sofia sentiu — sem saber como — que algo havia se quebrado.
Fim do capítulo
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