Capitulo 16 O QUE QUASE SE DIZ
— O Que Quase Se Diz
Cada gesto de cuidado de Melinda fazia meu coração reagir antes de mim.
Era desconcertante. Um café deixado sobre a mesa sem aviso. Um “comeu?” dito no meio de uma ligação apressada. Um silêncio atento quando eu falava demais. E eu me perguntava — o tempo todo — se estava confundindo tudo. Talvez Melinda fosse assim com todos. Talvez fosse apenas sua maneira de oferecer alento, de tornar mais suportável esse nosso relacionamento estranho, construído sobre contratos, heranças e silêncios.
Mas havia momentos.
Momentos perigosos.
Olhares que demoravam. Respirações que se encontravam no mesmo ritmo. Lábios tão próximos que pareciam conspirar contra qualquer acordo racional. Convites silenciosos ao pecado — não o pecado religioso, jamais — mas aquele outro, mais antigo e humano: o de amar onde não se deveria.
Quando soube por meu tio que Melinda iria a São Paulo, decidi surpreendê-la. Organizei tudo em silêncio. Estaria no mesmo voo. Chegaria ao hotel com aquele sorriso que sempre a fazia franzir o cenho, fingindo indiferença.
Mas o mundo, mais uma vez, decidiu diferente.
Um problema contratual me obrigou a ir a Brasília no mesmo dia. Deixei Melinda no portão de embarque para São Paulo e segui para o hangar do avião da empresa. Lembro do momento exato em que nos despedimos. Um abraço um segundo mais longo do que o necessário. Um olhar que parecia pedir desculpa por algo que ainda nem tinha acontecido.
Fiquei triste. Muito.
Mas, ao mesmo tempo, aliviada por não ter contado que iria com ela. Eu detestaria quebrar uma promessa feita a Melinda — mesmo as que ela nunca soube que existiram.
Sabia que, em algum momento, precisaríamos conversar sobre nós. Não dava mais para fingir que aquilo não crescia. Ela havia marcado comigo no buffet. Tentei ligar. Caixa postal. Liguei novamente. Nada. Tentei aquele telefone antigo — o “chaveiro que fala”, como eu brincava. Silêncio.
Estacionei em frente ao restaurante combinado.
Lá Mia Gioconda.
Foi então que meu celular tocou.
— Onde você está? — Guilherme perguntou, a voz estranhamente curta.
— Na porta do restaurante — respondi.
— Estou chegando. Me espera.
E desligou.
Às vezes, Guilherme era estranho assim.
Saí do carro, bati a porta com mais força do que pretendia. Dei um passo — apenas um — e o mundo girou. Uma tontura violenta me atravessou. Não era dor. Era outra coisa. Um aperto novo, sufocante, como se o ar tivesse ficado pesado demais.
Um funcionário do restaurante percebeu.
— Senhora? — perguntou, já segurando meu braço.
Com a ajuda dele, atravessei a rua. Entrei. Sentei. Avisei que aguardava duas pessoas. Pedi uma água. Minhas mãos tremiam levemente, embora eu tentasse controlar.
Quando olhei para a porta, a sensação voltou — mais forte.
Levantei devagar.
Guilherme estava ali.
Pálido. Olhos perdidos. O corpo rígido como se estivesse tentando não cair.
Algo estava errado. Profundamente errado.
Abri a boca para perguntar, mas não consegui.
E então ouvi.
Ouvi o nome dela.
— Sofia… a Melinda…
O resto das palavras se perdeu num ruído distante, como se o mundo tivesse decidido me poupar — ou me punir — por mais alguns segundos.
Porque, naquele instante, eu soube:
aquilo que eu não tinha coragem de nomear…
agora exigia ser sentido até o fim.
Fim do capítulo
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