Capitulo 14 O INTERVALO SOBRE AS COISAS
— O Intervalo Entre as Coisas
O cotidiano havia assumido uma forma curiosa: tenso, mas possível.
Melinda e Sofia ainda não sabiam exatamente como ser uma para a outra. Não havia intimidade declarada, tampouco distância. Era um território novo, feito de pequenos ajustes — o cuidado com o tom de voz, o respeito pelo silêncio alheio, a escolha consciente de não invadir.
Às vezes, era apenas dividir a mesa do café em silêncio.
Outras, trocar comentários triviais que escondiam observações mais profundas.
Casariam em pouco tempo.
Mas, antes disso, aprendiam algo mais difícil: conviver sem fingimento.
Eiriene observava tudo à distância. Não interferia. Articulava.
Conversas discretas, contenções jurídicas, telefonemas que nunca deixavam rastro. Cada movimento do ex-marido era antecipado com frieza estratégica. Não por vingança — mas por prevenção. Marcos não lidava bem com limites. Nunca lidara.
Na faculdade, Melinda caminhava pelo pátio quando Otávio surgiu ao seu lado como um sopro de energia.
— Então é verdade — disse ele, teatral. — A mulher mais elegante do campus agora anda de mãos dadas com o bom gosto encarnado.
Melinda revirou os olhos, rindo.
— Você nunca perde a chance de ser inconveniente, não é?
— Só quando o assunto não é interessante. E convenhamos… — ele inclinou a cabeça — sua acompanhante tem causado comentários.
— É justamente por isso que preciso de você — respondeu ela, baixando a voz. — O contato da sua irmã. Quero que algumas informações… circulem. Nada demais. Só o suficiente pra confundir.
Otávio arqueou a sobrancelha, divertido.
— Jogar fumaça antes da reunião dos conselhos?
— Exatamente.
— Sempre admirei seu senso de caos organizado — disse ele, já pegando o celular. — Vou dizer a ela que seja… criativa.
Melinda sorriu. A juventude de Otávio trazia algo que ela precisava naquele momento: leveza sem ingenuidade.
Em outro ponto da cidade, Sofia caminhava lentamente pelo corredor da empresa ao lado de Guilherme. Ele ainda tinha aquele jeito atento de quem observa o mundo como se tudo pudesse cair a qualquer instante — mas agora havia firmeza em seus passos.
— É estranho — disse Sofia, depois de um tempo. — Sempre que a vejo, sinto como se o ambiente mudasse. Não é ansiedade. Também não é calma. É… outra coisa.
Guilherme pensou por um instante antes de responder.
— Talvez não seja sobre ela — disse. — Talvez seja sobre quem você se permite ser quando está perto dela.
Sofia parou de andar.
— Como assim?
— Algumas pessoas não provocam sentimentos — explicou ele, simples. — Provocam versões nossas. E isso assusta.
Ela respirou fundo, como se algo tivesse finalmente se encaixado.
— Então não é confusão?
— Não — Guilherme sorriu, suave. — É reconhecimento. O resto vem depois.
Sofia seguiu em frente, o pensamento silencioso, mas menos pesado.
E enquanto isso, em outro cenário, a engrenagem maior se aproximava:
a reunião semestral dos dois conselhos.
Rumores começavam a circular.
Informações desconexas.
Imagens fora de contexto.
Nada sólido. Nada negável.
Exatamente como Melinda queria.
Fim do capítulo
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