Capitulo 13 A CASA QUE NAO ESQUECE
A CASA QUE NÃO ESQUECE
O escritório da mansão permanecia exatamente como sempre estivera: madeira escura, silêncio caro, o relógio antigo marcando o tempo com uma precisão quase ofensiva. Eiriene estava em pé, próxima à janela, quando ouviu passos no corredor.
Judith entrou primeiro, contida, como sempre fora.
— Senhora… o senhor Marcos—
Ela não terminou.
Marcos surgiu atrás dela e, sem qualquer cerimônia, empurrou-a para o lado como quem afasta um móvel fora do lugar.
— Não preciso de anúncio — disse, seco. — Esta casa ainda é minha.
Judith perdeu o equilíbrio por um segundo. Não caiu. Nunca caía. Apenas abaixou o olhar, como aprendera a fazer muito cedo na vida.
O som do empurrão ecoou mais alto do que deveria.
— Não ouse — a voz de Eiriene cortou o ar — tocar nela novamente.
Marcos riu, curto, sem humor.
— Agora você defende funcionária?
Eiriene se virou devagar. Não havia histeria, nem grito. Apenas aquele tom que antecede decisões irreversíveis.
— Judith não é apenas funcionária. E você sabe disso.
Judith fora quem estivera ali nas noites em que Eiriene tremia sem saber se o silêncio era paz ou prenúncio. Fora quem trouxera água, quem cuidara de feridas que não precisavam de médico — porque médicos fazem perguntas demais. A relação nunca fora dita, mas existia: um acordo silencioso de sobrevivência.
— Pode ir, Judith — disse Eiriene, sem olhar para trás.
Judith hesitou por um instante, depois saiu. O escritório voltou a ser um campo fechado.
— Então é isso? — Marcos avançou alguns passos. — Você acha mesmo que esse teatro de divórcio vai apagar o que fomos?
— Não fomos — corrigiu Eiriene. — Eu sobrevivi. Você se beneficiou.
Ele estalou a língua, irritado.
— Eu não aceito esse divórcio.
Eiriene sorriu de leve. Um sorriso sem calor.
— Aceitar nunca foi o seu forte. Fidelidade também não.
O rosto dele endureceu.
— Não ouse—
— O caso extraconjugal não foi um erro — continuou ela. — Foi escolha. Como todas as outras.
Foi ali que ele explodiu.
— Você sempre foi assim — cuspiu. — Fria. Distante. Depois se pergunta por quê um homem procura fora o que não encontra em casa.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— E agora — ele prosseguiu, a voz descendo para algo mais perigoso — contaminou minha filha com essa… sandice. Casar com uma mulher por causa de um problema seu. Não meu.
Eiriene sentiu o impacto, mas não recuou.
— Sofia não é extensão sua.
— Ela devia ser! — Marcos bateu a mão na mesa. — Devia assumir meus negócios, não brincar de diretora enquanto aquela Melinda se infiltra como se fosse da família.
O nome saiu com desprezo puro.
— Ela vai pagar — completou, mais baixo. — Uma escolha dessas sempre cobra preço.
A porta se abriu antes que Eiriene respondesse.
Damon entrou sem pressa, o olhar avaliando a cena como quem já conhece o final.
— Marcos — disse, tranquilo demais. — Ainda insiste em confundir ameaça com poder?
O corpo de Marcos enrijeceu. Não foi medo visível. Foi cálculo interrompido.
— Isso não é assunto seu.
Damon sorriu de lado.
— Tudo que envolve minha filha e Sofia… sempre será Portanto cuidado!
Por um instante, Marcos pareceu menor dentro do próprio escritório.
Eiriene observou em silêncio, certa de uma coisa:
o ódio de Marcos por Melinda não era novo.
Só havia perdido o disfarce.
E quando isso acontece, não é o amor que corre perigo primeiro.
É quem ousa não se curvar.
Fim do capítulo
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