Capitulo 12 O QUE NAO SE NOMEIA
O QUE NÃO SE NOMEIA
O saguão do hotel era amplo, luminoso demais para aquela hora do entardecer. Vidros altos refletiam o movimento do coquetel de inauguração no Nordeste: vozes medidas, taças que se tocavam com precisão social, perfumes caros tentando competir com o sal que vinha do mar.
Sofia atravessou o espaço com passos firmes, o corpo treinado para não hesitar. Ao seu lado, Melinda — não como algo a mais, apenas como acompanhante. Assim constava. Assim era lido.
Foi no meio do saguão que aconteceu.
Sem aviso.
Os olhos de uma encontraram os da outra como se o entorno tivesse sido apagado por um erro de cálculo. Não foi intensidade. Foi suspensão. Um segundo em que o mundo pareceu aguardar autorização para continuar.
Sofia percebeu o contorno do rosto de Melinda com uma atenção involuntária, quase clínica — como quem observa uma obra sem saber por quê. A linha do maxilar, o modo como o cabelo caía distraído demais para aquele ambiente. Melinda, por sua vez, sustentou o olhar sem urgência, como se estivesse apenas confirmando algo que já sabia, mas não pretendia usar contra si.
Nada foi dito.
Nada precisava ser.
O tempo voltou a andar quando Eiriene surgiu ao lado da filha, inclinando-se levemente, próxima demais para os protocolos.
— Sofia — murmurou, com humor contido — o mundo voltou a existir. E ele exige fotos, discursos e sorrisos que não sejam… contemplativos.
Sofia respirou, quase imperceptível.
— Claro, mãe.
Eiriene lançou um olhar rápido para Melinda — desses que veem mais do que comentam — e seguiu à frente, satisfeita por ter devolvido a filha à realidade sem expô-la.
O coquetel transcorreu como devia: discursos sobre progresso, energia, futuro. Sofia cumpriu tudo com exatidão. Melinda permaneceu ao alcance do olhar, nunca próxima demais, nunca distante o suficiente para ser ignorada.
Quando entraram no carro, o silêncio se instalou primeiro — não constrangedor, apenas cheio.
Foi Melinda quem falou, olhando pela janela, como se comentasse algo banal:
— Você foi a mais bela de todas hoje.
Sofia arqueou levemente a sobrancelha, girando o rosto na direção dela.
— No seu quarto não tem espelho?
Melinda sorriu. Não grande. Não aberta. Um desses sorrisos que ficam guardados.
— Tem — respondeu. — Mas hoje ele não estava concorrendo.
O carro seguiu pela avenida iluminada.
E nenhuma das duas sentiu necessidade de dizer mais.
Porque algumas coisas, quando ditas cedo demais, perdem a força.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]