Capitulo 11 O QUE OS HOMENS ACHAM QUE PODEM FAZER
O Que os Homens Acham Que Podem Fazer
I — O pai que não era abrigo (Sofia)
Ele entrou no quarto como quem entra num território que ainda considera seu.
Não perguntou como eu estava.
Não perguntou se doía.
— Você precisava de atenção? — disse, com a voz baixa, afiada. — Conseguiu.
Aquilo me atravessou mais que o acidente.
— Você sabe por que eu saí daquele apartamento — respondi. — Sabe o que ouvi sobre a mamãe. E ainda assim… você teve coragem de usar aquilo contra ela.
Ele inclinou a cabeça, impaciente.
— Eu me casei para ter uma mulher, Sofia. Não com uma freira.
A frase caiu como algo sujo no chão.
Meu estômago revirou.
— Você está falando da minha mãe.
— Estou falando da minha esposa — corrigiu. — Intimidade não é favor. É obrigação.
Ali, algo em mim se quebrou com som.
— Você a embebedava — disse, a voz tremendo, mas firme. — Você sabia que ela não conseguia… e mesmo assim…
Ele sorriu.
Não um sorriso nervoso.
Um sorriso satisfeito.
— Todo mundo tem suas formas de lidar com resistência — respondeu. — Algumas mulheres precisam esquecer para aceitar.
O quarto pareceu encolher.
Foi nesse instante que senti. Não pensei — senti. Um aperto no peito, como se uma mão invisível me avisasse tarde demais.
— Você sabia da ilha — sussurrei.
Ele não negou.
— Aquilo era… educativo.
Meu corpo inteiro gelou.
No brilho do olhar dele havia algo que eu já tinha visto descrito nos relatos do tio Damon. Não detalhes — intenção. O mesmo prazer frio. A mesma ideia de posse.
— Você esteve lá — eu disse, mais como constatação do que pergunta.
O silêncio dele confirmou.
Eu não gritei.
Não chorei.
— Saia — falei. — E não volte.
Ele me olhou como se eu fosse pequena.
— Um dia você vai entender que o mundo pertence a quem não tem escrúpulos.
Quando a porta se fechou, eu soube:
meu pai não era apenas cruel.
Ele era perigoso.
II — O poder que não governa, mas ameaça
A reunião foi tudo menos formal.
Advogados. Conselheiros. Herdeiros.
O testamento não foi lido como um documento — foi desembainhado.
Quando a cláusula do veto foi anunciada, o ar mudou.
— Antônio Stavros — disse o advogado — detém poder de veto absoluto sobre qualquer decisão relacionada à ilha e seus ativos.
Antônio não sorriu de imediato. Esperou. Degustou o desconforto.
— Não é controle — disse ele, com falsa modéstia. — É… cuidado patrimonial.
Eu vi o olhar dele brilhar.
— Sofia Alencastro — continuou o advogado — é oficialmente empossada como Diretora-Geral da filial Brasil.
Houve aplausos contidos.
— Antônio Stavros assume a direção da matriz na Grécia.
Dois tronos.
Um império dividido.
E uma ilha como faca no meio da mesa.
— Importante esclarecer — acrescentou o advogado —: o veto se restringe exclusivamente à ilha. Seus tesouros. Suas operações. Seus… costumes.
A palavra ficou suspensa.
Antônio sorriu, agora sem disfarce.
III — A proposta que muda tudo
A sala ficou apenas com nós quatro.
Minha mãe.
Damon.
Melinda.
E eu.
Eiriene respirou fundo antes de falar. Não havia tremor — havia decisão.
— Existe uma cláusula silenciosa — disse ela. — Uma corrida contra o tempo.
Ela nos olhou, uma por uma.
— Para assumir o controle acionário do grupo e, assim, esvaziar o poder da ilha, é necessário atingir cinquenta e cinco por cento.
Fez uma pausa.
— Sozinhas, nenhuma de vocês chega lá.
Meu coração acelerou.
— Unidas — continuou —, chegam.
O silêncio foi absoluto.
— Dois anos — concluiu. — Se isso não acontecer, Antônio mantém o veto… até que o irmão mais novo atinja a maioridade. E então, eles assumem tudo.
Melinda desviou o olhar.
Eu senti o peso do que não estava sendo dito.
— Não estou falando apenas de números — minha mãe completou. — Estou falando de estratégia. De sobrevivência. E de colocar um fim definitivo naquele lugar.
Ela nos encarou com firmeza.
— Para destruir a ilha… será preciso unir vocês duas.
Nada foi assinado ali.
Nada foi prometido.
Mas algo começou.
E eu soube, com a clareza que só o horror traz:
o amor talvez não fosse o começo dessa história.
Mas seria — inevitavelmente — o ponto de ruptura.
Fim do capítulo
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