Capitulo 7 AQUILO QUE SE ESCOLHE FICAR
— AQUILO QUE SE ESCOLHE FICAR
Veridiana sempre soubera que havia pessoas que entram na nossa vida para somar
e outras que entram para nos definir.
Amélia fora as duas coisas.
Naquela manhã, enquanto organizava relatórios, ligações e rotas de segurança com a precisão de quem precisava manter o mundo funcionando, Veridiana sentiu o peso de tudo o que estava acontecendo descer de uma vez. Não como desespero — ela não se permitia isso —, mas como uma consciência densa de responsabilidade.
A família não estava apenas se reorganizando. Estava se refazendo.
E ela estava no centro disso sem nunca ter pedido.
Observou Amélia do outro lado da sala de reuniões, parcialmente protegida da luz. Conhecia aquele corpo o suficiente para saber quando algo não ia bem. Os ombros tensos demais. A respiração controlada além do necessário. O esforço constante para parecer inteira.
O que mais assustava Veridiana não era a doença de Amélia.
Era o medo silencioso que surgia nos olhos dela quando falhava em controlar o próprio corpo.
Ela se lembrava bem da primeira vez em que aquilo acontecera.
Conhecera Amélia anos antes da tragédia.
Duas jovens mulheres em um ambiente onde nenhuma delas deveria, teoricamente, prosperar. Amélia, herdeira de um império que ainda não lhe fora entregue. Veridiana, filha de um advogado renomado, constantemente lembrada de que seu lugar “natural” era auxiliar, nunca liderar.
Uniram-se não por afinidade óbvia, mas por resistência.
Amélia era silenciosa, observadora, estrategista. Veridiana, incisiva, direta, incapaz de tolerar injustiça sem reagir. Aprenderam cedo a cobrir as falhas uma da outra.
Rafael entrara depois.
Não como intruso, mas como extensão.
Rafael era riso fácil, palavra aberta, inteligência sem arrogância. E foi com ele que Veridiana aprendeu a amar aquela família inteira. Os três cresceram juntos — em decisões difíceis, em negócios, em lealdade.
A promessa que Rafael arrancara de Amélia dias antes do acidente ecoava na mente de Veridiana até hoje.
Cuida deles. Mesmo quando eu não puder.
Amélia não pedira ajuda.
Mas Veridiana soubera que, se não ficasse, Amélia cairia tentando sustentar tudo sozinha.
E ela jamais permitiria isso.
Largara o escritório do pai sem olhar para trás. O cargo de sócia, os elogios vazios, as expectativas familiares — tudo pareceu pequeno diante da urgência real: manter aquela mulher de pé e aquelas crianças vivas, seguras, inteiras.
Nunca se arrependera.
Mas também nunca romantizara.
Agora, anos depois, observava os sobrinhos circularem pelo espaço como se aquele caos organizado fosse o novo normal.
Samantha já não era menina. Havia nela uma gravidade que Veridiana reconhecia com desconforto. Era o tipo de maturidade que não vinha da escolha, mas da perda.
John tentava parecer distraído demais. Megan, falava demais.
Cada um lidava como podia.
E Amélia… Amélia tentava ser todas as coisas ao mesmo tempo.
— Ela vai quebrar se não aprender a dividir — pensou Veridiana, enquanto ajustava mais uma planilha.
O problema era que Amélia não sabia dividir medo.
Sabia dividir poder, dinheiro, decisões.
Mas o medo… guardava só para si.
E isso era o que mais assustava Veridiana.
Foi nesse estado que Beatriz lhe veio à mente.
Não como distração, mas como incômodo novo.
Não era do feitio de Veridiana permitir-se distrações. Ainda assim, lembrava-se do olhar firme, da fala segura, da forma como Beatriz se colocava no espaço sem pedir licença. Havia ali algo que não exigia vigilância constante.
Algo raro.
Mais tarde, quando Beatriz recebeu a notícia de que Laura deixaria definitivamente a empresa de César, sentiu uma mistura estranha de alívio e indignação.
— Ele nunca mereceu vocês — disse Beatriz, ao telefone, com firmeza.
— Nem nós mesmas percebemos isso por muito tempo — respondeu Laura.
— Assina a obra comigo.- Laura continuou
Houve um silêncio do outro lado.
— É grande — disse Beatriz
— É justa e é nossa. Temos formação necessária pontuou Laura
Naquele instante, algo se consolidou entre elas. Não era apenas trabalho. Era aliança.
Veridiana soube disso por uma mensagem curta.
E sorriu.
Não por romance — ainda não.
Mas por reconhecimento.
Ela conhecia alianças verdadeiras quando as via nascer.
Ao fim do dia, encontrou Amélia no corredor, sentada, respirando com cuidado excessivo.
— Está doendo — disse Amélia, sem dramatizar.
— Eu sei — respondeu Veridiana, ajoelhando-se à sua frente, no mesmo nível. — Mas você não falhou.
Amélia fechou os olhos por um instante.
— Tenho medo de falhar com eles — disse. — Não com o dinheiro. Com o resto.
Veridiana segurou-lhe a mão.
— Você já está cuidando — afirmou. — O erro seria fingir que não sente medo.
Amélia abriu os olhos. Havia ali pavor. Não de perder controle financeiro. Mas de perder pessoas.
— Se eu cair…
— Você não cai sozinha — disse Veridiana, sem hesitar. — Nunca caiu.
O silêncio que se seguiu não foi pesado.
Foi ancoragem.
Mais tarde, já sozinha, Veridiana se permitiu pensar novamente em Beatriz.
Não como fuga.
Mas como possibilidade.
Talvez, pela primeira vez em muito tempo, houvesse espaço para algo que não fosse apenas sobrevivência.
E isso, curiosamente, não a enfraquecia.
A fortalecia.
Porque cuidar sempre fora sua escolha.
Mas ficar… ficar, talvez, pudesse ser partilhado.
E Veridiana, enfim, considerou que talvez não precisasse enfrentar tudo sozinha.
Fim do capítulo
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