Capítulo 6

Capitulo 6 HERANÇAS QUE NÃO SE ASSINAM

de A SOMBRA DO QUE JURAMOS , por Alkssa45

Tamanho do texto
814 palavras225 leituras0 comentários

 — HERANÇAS QUE NÃO SE ASSINAM

Laura demorou mais do que gostaria para atravessar a porta do escritório de César naquela manhã.

Não por medo.

Mas porque decisões definitivas sempre exigiam um último fôlego — aquele instante em que se aceita que não haverá retorno confortável.

O escritório estava tomado por vozes masculinas, risos altos demais, gráficos espalhados como troféus. César falava em pé, confiante, enquanto dois engenheiros assentiam sem realmente escutar. Parou ao vê-la.

— Espero que não seja urgente — disse, com um meio sorriso. — Estou tratando de coisas grandes.

Laura pousou a pasta sobre a mesa. O gesto foi firme, calculado.

— É grande para mim.

César indicou a cadeira diante dele.

— Então sente-se.

Ela permaneceu de pé.

— Fui convidada para assumir um projeto fora da construtora.

O ar mudou.

César arqueou a sobrancelha, avaliando-a como quem mede risco.

— Convite informal não é proposta.

— É contrato — corrigiu Laura. — Autonomia total. Confidencialidade. E algo que aqui nunca tive.

— Liberdade? — ironizou ele. — Ou a ilusão vendida por outra mulher idealista?

Laura respirou fundo. Sentiu o corpo responder — não com raiva, mas com clareza.

— Reconhecimento — disse. — Algo que o senhor sempre prometeu adiar.

César levantou-se abruptamente.

— Você está desperdiçando carreira.

— Estou salvando — respondeu ela, sem elevar a voz.

— Você não cresce fora de uma estrutura como esta.

— Crescer não é só subir — disse Laura. — Às vezes é sair.

Virou-se antes que ele dissesse mais alguma coisa.

E, ao cruzar a porta, percebeu: pela primeira vez, não sentia culpa. Apenas um silêncio novo — assustador e libertador.

No terreno, o vento movia as copas das árvores enquanto equipes marcavam o solo.

Samantha caminhava entre plantas e estacas com atenção concentrada, como quem absorvia tudo em excesso. Não era mais criança, mas ainda não se sentia adulta — estava naquele espaço instável onde as perguntas crescem mais rápido que as respostas.

Laura percebeu antes de qualquer outro.

— Você entende desses desenhos? — perguntou, mostrando as plantas abertas sobre a mesa improvisada.

Samantha se aproximou, os olhos atentos.

— Entendo do que eles prometem — disse, após um instante. — Mas minha mãe dizia que casas precisam ter lugares onde a gente possa desaparecer um pouco. Sem ser esquecida.

Laura ergueu o olhar, sentindo algo se alinhar por dentro.

— Sua mãe era arquiteta.

Não foi uma pergunta.

— Era — confirmou Samantha. — Bruna Brandão. Ela dizia que arquitetura também é cuidado.

Laura engoliu em seco.

— Ela estava certa.

Amélia observava à distância.

Não apenas a conversa, mas o modo como Samantha se colocava — segura demais para a idade, atenta demais ao mundo. Bruna surgia ali não como ausência, mas como herança viva. E isso doía de um jeito novo.

Veridiana aproximou-se.

— Você viu — disse, baixo.

— Vi — respondeu Amélia. — E não sei se estou pronta.

— Para quê?

— Para admitir que ela está crescendo mais rápido do que eu consigo proteger.

Veridiana manteve o olhar firme.

— Ela cresceu em meio à perda — disse. — Isso acelera tudo.

— Ou endurece — murmurou Amélia.

— Ou fortalece — corrigiu Veridiana. — E talvez seja isso que mais te assuste.

Amélia não respondeu de imediato.

— Ela se parece com Bruna — disse, por fim. — Não no rosto. Na lucidez.

— E com você — completou Veridiana. — No silêncio.

As duas ficaram ali, observando Samantha conversar com Laura, como se enxergassem o futuro se movendo diante delas.

No fim da tarde, Laura apresentou os primeiros ajustes.

— Precisamos de espaços de transição — explicou. — Lugares que não sejam nem dentro, nem fora. Para quem vive sob vigilância, isso não é luxo. É equilíbrio.

Samantha se aproximou.

— Posso ajudar? — perguntou, com cuidado.

Laura sorriu — não como adulta condescendente, mas como igual em formação.

— Pode observar — disse. — E dizer quando algo não fizer sentido.

Samantha assentiu, séria demais para os dezessete anos.

Amélia sentiu o peito apertar.

Ali não havia apenas um projeto em andamento.

Havia continuidade. Havia escolha. Havia vida insistindo em seguir.

Naquela noite, o celular de Amélia vibrou.

Arminda Brandão solicitou reunião urgente.

Amélia fechou os olhos por um instante, sentindo o cansaço se misturar à vigilância constante.

— Ela não desiste — comentou Veridiana.

— Não precisa — respondeu Amélia. — Só precisa esperar a hora errada.

Laura observou as duas, percebendo que aquele mundo funcionava sob outra lógica — menos visível, mais feroz.

— Vocês vivem prontas para a próxima batalha — disse.

Amélia a encarou.

— Não — respondeu. — Vivemos prontas para proteger.

Laura sentiu o peso daquela frase.

Proteção não era apenas função. Era escolha. E, às vezes, era amor — mesmo quando ainda não se tinha coragem de chamá-lo assim.

Fim do capítulo

Publicidade
Conversa

Comentários

0
Este capítulo ainda não recebeu comentários.
Informar violação das regras