Capitulo 8 QUANDO A FORÇA SE QUEBRA EM SILÊNCIO
— QUANDO A FORÇA SE QUEBRA EM SILÊNCIO
O terreno começou a mudar antes mesmo que qualquer parede existisse.
Havia algo quase ritualístico no som das primeiras estacas sendo cravadas, na poeira fina levantando com passos firmes, nas vozes que se reconheciam como experientes. Laura observava tudo com atenção concentrada, sentindo aquela excitação silenciosa que só o início de uma obra verdadeira provocava.
— Boa equipe — comentou Beatriz, cruzando os braços. — Gente que sabe o que faz.
— Não é só técnica — respondeu Laura. — É postura.
Aos poucos, caminhões chegavam, equipamentos eram posicionados, e o espaço deixava de ser apenas promessa para se tornar processo. Laura sentia-se inteira ali. Pela primeira vez em muito tempo, não precisava justificar cada decisão.
— Precisamos fechar o engenheiro estrutural — disse ela, folheando a prancheta. — Alguém que aguente o porte da obra… e a pressão.
Beatriz assentiu, mas hesitou por um segundo a mais do que o necessário.
— Há um nome — disse. — Tecnicamente bom. Experiente. Já trabalhou com projetos grandes.
— Mas? — Laura ergueu o olhar.
Beatriz suspirou, um sorriso enviesado surgindo.
— Guilherme.
Laura fez uma careta quase imperceptível.
— Ele?
— Ele — confirmou Beatriz. — E antes que você diga: sim, sei que ele tem… uma admiração inconveniente por você.
— Admiração? — ironizou Laura.
— Paixonite mal resolvida — corrigiu Beatriz. — Daquelas que acham que insistência é charme.
Laura soltou uma risada curta.
— Ótimo. Um problema estrutural humano.
— Só estou te avisando — disse Beatriz. — Para você não ser pega de surpresa.
Laura fechou a prancheta.
— Não sou delicada — respondeu. — E sei colocar limites.
Beatriz arqueou a sobrancelha.
— Eu sei. Mas ele não.
Houve um breve silêncio, quebrado pelo humor inevitável.
— Se ele cruzar a linha — continuou Beatriz, fingindo seriedade — você avisa. Porque aí eu aviso ao monumento de mulher que é a dona da obra que temos um homem precisando de realocação emocional.
Laura riu de verdade dessa vez.
— Você acha que Amélia se daria ao trabalho?
— Amélia não — respondeu Beatriz. — Veridiana sim. E isso basta.
Laura assentiu.
E então percebeu algo curioso: Beatriz falava de Veridiana com um cuidado novo, quase atento demais. Um brilho sutil no olhar. Laura captou aquilo com a sensibilidade de quem observa pessoas por profissão.
E, sem saber por quê, pensou em Amélia.
Pensou no jeito como ela ocupava o espaço. Na contenção. Na força que parecia sempre à beira de algo mais frágil.
Sacudiu a cabeça, como se afastasse um pensamento impróprio.
Ainda não.
Algumas horas depois, Laura atravessava o saguão da corporação naval.
Veridiana cumprira a palavra: uma ala inteira fora adaptada como escritório temporário para a equipe de arquitetura. Discreta, funcional, próxima demais da sala principal.
Laura sentiu antes mesmo de entender.
Algo a puxava para aquele corredor.
Como um campo magnético silencioso.
Laura sentiu o chamado antes mesmo de entender o motivo.
O corredor que levava à sala de Amélia parecia mais estreito naquela tarde, o ar ligeiramente mais pesado. Bateu uma única vez, aguardou o silêncio que veio como resposta, e empurrou a porta com cuidado.
O cheiro foi a primeira coisa que a atingiu.
Antisséptico misturado a algo metálico, orgânico.
Amélia estava sentada no sofá baixo, curvada para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. As mangas longas haviam sido arregaçadas às pressas, revelando a pele tomada por erupções irregulares — bolhas avermelhadas, algumas já rompidas, outras tensas, brilhando sob a luz indireta. O pescoço apresentava placas inflamadas que subiam até a linha do maxilar. Pequenos tremores percorriam-lhe o corpo.
Não era fraqueza.
Era uma reação violenta.
— Amélia… — chamou Laura, fechando a porta atrás de si.
Amélia ergueu o rosto, os olhos marejados não de choro, mas de dor contida.
— Pelo — disse, num fio de voz. — O casaco… não percebi.
Laura entendeu imediatamente.
— Crise alérgica severa — murmurou, mais para si do que para ela. — Você tem medicação aqui?
Amélia assentiu, indicando uma gaveta lateral com a cabeça.
Laura já estava em movimento.
Abriu a gaveta, encontrou o necessário com rapidez surpreendente: anti-histamínicos, corticoide tópico, compressas estéreis. Não hesitou. Aquele não era o tipo de cuidado que pedia permissão — era o tipo que se assumia.
— Isso vai arder — avisou, ajoelhando-se à frente dela.
— Já arde — respondeu Amélia, tentando sorrir. — Há horas.
Laura umedeceu a compressa, aplicando com delicadeza firme sobre a pele inflamada do antebraço. O contato fez Amélia inspirar bruscamente, os dedos se fechando no tecido da própria calça.
— Respira comigo — disse Laura, erguendo o olhar. — Não luta contra a dor. Atravessa.
Amélia obedeceu.
As mãos de Laura eram seguras, precisas. Não havia pena nelas. Havia competência. Presença. Cuidado sem condescendência.
À medida que o medicamento era aplicado, a ardência começava a ceder, substituída por uma sensação profunda de exaustão. Amélia apoiou a cabeça no encosto do sofá, os olhos fechados.
— Não é incapacitante — disse, quase como uma defesa. — Só… devastador quando vem assim.
— Eu sei — respondeu Laura. — O corpo lembrando que também tem voz.
Amélia abriu os olhos.
Os olhares se encontraram.
E algo se deslocou.
Não foi desejo imediato. Foi reconhecimento.
Como se, por um segundo suspenso, duas histórias antigas se tocassem. Como se aquelas almas já tivessem se encontrado antes — em outro tempo, outra forma — e agora apenas confirmassem o que sempre souberam.
Laura percebeu primeiro.
E foi avassalador.
O poder de Amélia não diminuía ali. Ele se tornava mais humano. Mais real. Mais impossível de ignorar.
Quando terminou, Laura afastou-se apenas o suficiente para avaliar a reação da pele.
— Vai melhorar — disse. — Mas você precisa descansar.
Amélia assentiu, o corpo finalmente cedendo ao alívio. Sem perceber, inclinou-se levemente para frente, até que a testa tocou o abdômen de Laura. Um gesto pequeno. Íntimo demais para ser ignorado.
Laura não se moveu.
Apenas apoiou a mão, com cuidado extremo, nos cabelos escuros de Amélia.
Foi assim que Veridiana entrou.
Parou à porta.
Viu tudo.
A irmã adormecida, exausta, mas em paz. Laura imóvel, oferecendo o próprio corpo como ancoragem. E entre as duas… algo irreversível.
Os olhares se cruzaram.
Veridiana não interrompeu.
Porque entendeu, com clareza dolorosa, que aquela crise não revelara fraqueza.
Revelara verdade.
E algumas verdades, uma vez vistas, nunca mais podem ser desinventadas.
Fim do capítulo
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