CAPÍTULO VI
Os dias se passaram em profusão, com Maia tentando se adaptar aos novos compromissos que tinha como rainha. Nada ligado ao comando e decisões sobre o reino, apenas como a presença feminina representante da coroa.
Depois de meses da partida do pai, finalmente parecia que a vida voltava um pouco à normalidade. Dia após dia, devagar, ia conseguindo deixar para trás a névoa que se instaurou em sua vida.
Caminhou pelos corredores do castelo até encontrar um dos soldados:
— Onde está o rei?
Depois de uma reverência, o homem respondeu:
— Ainda não retornou ao castelo, Majestade.
Maia agradeceu e voltou a andar. Quando o pai faleceu, teve a impressão de finalmente ter de volta o homem carinhoso e atencioso que o marido era, mas não conseguiu corresponder, pois o luto a havia consumido completamente. Agora sentia Estefan distante novamente, como na época em que moraram em Ótice.
Chegou até a sacada e olhou para o jardim, onde Luísa e Martín conversavam. Ficou profundamente grata quando a rainha de Ótice aceitou ficar em Diamantora por um tempo, a pedido da própria Maia. Luísa transmitia uma segurança que ainda precisava, além de ser, juntamente com Chiara, as únicas amigas que tinha.
*****
Luísa acenou de longe ao ver Maia parada na sacada, olhando para eles. Assim que se virou de costas para ela e voltou a caminhar ao lado de Martín, o sorriso forçado sumiu de seu rosto. Quando a rainha de Diamantora pediu que ela ficasse no reino por algum tempo, disfarçou muito bem a satisfação que aquilo lhe causara. Era realmente o que queria e pretendia, e foi ótimo o pedido ter partido da própria Maia, assim não precisaria arrumar uma desculpa para ficar de olho em Oton naqueles primeiros meses. E logo depois, o rei iria nomeá-la como Conselheira e Braço do Rei, o que justificaria sua permanência em Diamantora.
A pergunta de Martín a trouxe de volta para o momento presente:
— Como ele está se saindo?
Estavam conversando sobre o desemprenho de Oton:
— Por enquanto, perfeito. Vive bêbado e rodeado de mulheres. Não fez sequer uma pergunta sobre o reinado. É impressionante como vocês homens se contentam com tão pouco...
Martín riu:
— Acho que ele não faz ideia do poder que poderia ter nas mãos.
Luísa continuou caminhando:
— Também preciso me manter próxima de Maia. Assim que ela engravidar, tenho que estar por perto, sendo a amiga perfeita. Essa criança precisa ser minha pupila.
*****
Conforme os dias foram passando, mais Maia percebeu que o marido definitivamente não voltaria ser o homem por quem um dia se apaixonou. Havia desistido de esperar que ele voltasse a lhe dar atenção. Também não procurou Luísa novamente para se queixar, pois já estava envergonhada. Começou a achar que o problema era com ela própria, pois não sabia o que deveria fazer para cumprir seu papel de esposa. Teria se conformado e continuado a vida daquela forma se, em uma de suas idas ao Templo do reino, não houvesse se assustado com a quantidade de pedintes nas ruas da cidadela. Observou que a quantidade de comerciantes e pessoas comprando havia diminuído visivelmente, o que era diferente há muitos meses atrás, quando Estefan se tornou rei.
Ao chegar no castelo, foi a procura de Milo, e o encontrou escrevendo em alguns papéis:
— Gostaria de falar com o rei.
Milo a olhou e respondeu displicentemente:
— Sua Majestade tem andando bastante ocupado... mas assim que possível transmitirei seu recado.
Há algum tempo já tinha notado a forma como era tratada por Milo, assim como por outros membros do Conselho e da Corte. Pessoas que a viram nascer e crescer, simplesmente a tratavam como uma qualquer. Tomada pela raiva, ela se aproximou dele:
— Não é um recado, Milo... Eu sou a rainha de Diamantora e exijo falar com meu rei.
O homem lentamente parou o que estava fazendo, se levantou e com um sorriso cínico no rosto, que aumentou vertiginosamente a raiva de Maia, foi até um dos soldados e disse algo em tom baixo. Depois voltou-se para ela:
— Um dos soldados vai até Sua Majestade agora. Peço que aguarde.
Maia manteve-se de pé, triturando a raiva que sentia dentro de si por ter sido tão estúpida a ponto de não perceber como tinha sido deixada de lado. Até mesmo Luísa, que tinha se tornado Conselheira há pouco tempo, era mais presente nas decisões do reino.
Quando o soldado retornou e sussurrou algo para Milo, ele disse para Maia:
— Como eu havia lhe adiantado, Majestade... o rei encontra-se bastante ocupado no momento.
A raiva de Maia se transformou em fúria. Sem que os homens pudessem prever seus atos, avançou rapidamente em direção a porta da antessala dos aposentos do rei. Chegou a abri-la, mas foi impedida por um dos homens que a segurou com facilidade. Tentou, inutilmente, se soltar dos braços dele, enquanto gritava e o empurrava. O barulho fez com quem Luísa aparecesse na porta, perguntando:
— O que está acontecendo?
Ao vê-la, Maia disse para ela:
— Eu gostaria de falar com meu marido.
Luísa suspirou, saiu da antessala e fechou a porta atrás de si. Só então ordenou para o soldado:
— Solte-a.
Assim que se viu livre das mãos do homem, Maia ajeitou o vestido e novamente se dirigiu à Luísa:
— Majestade, eu preciso falar com Estefan.
Luísa fez uma cara de pesar antes de dizer:
— Seu marido está muito atarefado... Não quer me adiantar o assunto? Assim eu posso conversar com ele quando houver uma brecha.
Ainda se sentindo excluída do próprio reino, Maia pensou um pouco. Confiava em Luísa, por isso sabia que ela a ajudaria:
— Eu estive hoje na cidadela... e não gostei nada do que vi. O povo de Diamantora está sofrendo...
Luísa a cortou:
— Maia, do que é que está falando?
Passou o braço ao redor dos ombros de Maia e caminhou com ela em direção ao corredor:
— Estive ontem na cidadela, assim como vou quase todos os dias... não há nada de errado. O povo de Diamantora está sendo muito bem cuidado, eles são a maior preocupação do rei.
Maia olhou para ela e tentou se acalmar. Luísa não tinha motivos para mentir. Além disso, ela realmente estava sempre na cidadela, enquanto Maia só tinha passado por lá naquela tarde. Ficou mais calma e conformada:
— Tem razão... Acho que fiquei um pouco impressionada.
Luísa sorriu e encerrou o assunto:
— Não se preocupe, está tudo em ordem.
*****
Enquanto olhava pela enorme janela da sala de reuniões, Luísa disse para Milo e Martín:
— Evitem que ela saia do castelo… Não quero ter que lidar com os ideais românticos de uma menina que não conhece nada da vida real.
Milo disse no tom de voz calmo que lhe era habitual:
— Majestade, não precisa se preocupar com Maia. Ela não apresenta nenhum perigo… Não entende nada de governança, nem de alianças, muito menos de disputas. Seria massacrada pelo Conselho se tentasse alguma coisa.
Luísa virou-se para os dois homens:
— Eu sei… Mas é melhor cortar o mal pela raiz.
*****
— Enfim consegui chegar até você…
Quando Estefan se virou, Maia não conseguiu esconder a surpresa. O rosto dele estava diferente… Um pouco mais inchado, com um aspecto de cansado, como se tivesse envelhecido anos naqueles meses. Os cabelos desalinhados não lembravam em nada os que um dia emolduraram o rosto que Maia julgava perfeito.
— Eu sempre estive aqui… Majestade…
Percebeu a leve ironia impressa na voz dele ao proferir a última palavra, mas não desviou seus pensamentos do que realmente queria:
— Eu tenho alguns pedidos para fazer…
Oton caminhou até a mesa no centro da antessala, encheu o próprio copo, e só depois de esvaziá-lo, o ergueu em direção à Maia, dando permissão para que ela continuasse:
— Gostaria de participar das reuniões do Conselho a partir de agora… e ter mais algumas responsabilidades como rainha de Diamantora.
A risada dele ecoou quebrando o silêncio que se estabeleceu:
— Às vezes você ainda me surpreende.
Quando ele virou-se novamente de costas para ela, Maia foi tomada pela irracionalidade causada pela raiva. Se sentindo mais do que rejeitada… excluída, descartada, usada… avançou sobre ele e puxou seu braço para que se virasse para ela:
— Eu exijo…
O que aconteceu a seguir foi rápido, Maia não teve tempo de prever, muito menos evitar. Oton se soltou facilmente das mãos dela e em seguida a acertou com força no rosto. O impacto do tapa fez Maia cambalear, só não caiu porque se apoiou em uma das cadeiras. Quando conseguiu se recuperar minimamente, ficou paralisada olhando para o marido.
Ele não demostrou nenhum tipo de arrependimento ou remorso quando ordenou:
— Agora saia dos meus aposentos e não volte a me importunar.
Assim que Maia entrou no quarto, Chiara veio ao seu encontro com os olhos arregalados:
— O que aconteceu?
Deixou que Chiara colocasse a mão sobre a mancha vermelha em seu rosto, sem conseguir conter as lágrimas. Chorava principalmente de raiva, por ter sido tão facilmente enganada, manipulada e usada por todas aquelas pessoas.
— Prepare meu banho, por favor.
Chiara ainda continuou a olhando assustada, só cumprindo o pedido segundos depois.
Assim que tirou as roupas com a ajuda dela e sentou-se na banheira, Maia pediu para ficar sozinha no aposento. Chiara se levantou, virou-se em direção à porta, mas voltou e ajoelhou-se em frente a ela:
— O que está acontecendo, Maia? O que foi isso?
O tratamento íntimo fez Maia baixar um pouco a guarda. Era visível no semblante de Chiara o quanto ela estava preocupada. Olhou para ela e, incentivada pela amizade que mantinham desde que eram meninas, falou:
— Foi Estefan…
Chiara arregalou os olhos e sua feição mudou instantaneamente:
— Ele não pode fazer isso com você… quem ele pensa que é? Vamos ao Conselho, todos precisam saber…
Maia colocou a mão sobre a dela, que estava apoiada na beirada da banheira:
— O problema não é tão simples…
Ainda indignada, a criada disse:
— Vamos falar com a rainha Luísa, ela vai saber o que fazer.
O sorriso de Maia foi triste:
— Receio que ela também esteja envolvida na armadilha que caí.
O tom de voz de Chiara ficou mais baixo:
— O que você quer dizer?
Maia respirou profundamente e — querendo e precisando — desabafar, levantou-se da banheira. Chiara rapidamente pegou o tecido e enrolou ao redor de seu corpo. Foi assim, ainda sem se vestir, que começou a falar:
— Acredito que Luísa sabia desde o princípio quem Estefan é de verdade… Ele não é o mesmo homem que veio até aqui e pediu minha mão ao meu pai. Ele é… uma pessoa completamente diferente.
Chiara retirou o tecido enrolado no corpo dela e a secou cuidadosamente, enquanto Maia continuava:
— Estou começando a acreditar que o interesse, tanto dele quanto de Luísa, era de ficar com o poder de Diamantora. E eu fui apenas uma peça que precisaram para chegar até aqui.
Os olhos se encheram de lágrimas quando completou:
— Ele nunca me amou de verdade… ele não se apaixonou por mim, Chiara. Era tudo um jogo de interesses.
Chiara largou o pano e colocou as duas mãos no rosto de Maia. A olhou profundamente nos olhos quando disse:
— Pois quem saiu perdendo foi ele… porque você é a coisa mais valiosa deste reino.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 29/01/2026
Revoltada, mas agora Maia percebeu o quanto foi enganada, e temos que esse seja apenas o início do seu sofrimento..
Mas estou ansiosa pelo momento em que ela vai começar a virada desse jogo
AlphaCancri
Em: 01/02/2026
Autora da história
Mais claro do que isso impossível, não é? Será que ela consegue lutar contra o complô armado contra ela?
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AlphaCancri Em: 08/02/2026 Autora da história
Demorou, mas ela percebeu quem ele realmente é… a verdade dói, mas é sempre necessária, né?