CAPÍTULO V
— Não posso acreditar!
Luísa soltou a exclamação enquanto seu corpo escorregava até a cadeira. Era a notícia que esperava e comemoraria, se não fosse uma única questão: o casamento entre Maia e Oton não estava consumado.
— Onde está a princesa?
Martín respondeu rapidamente:
— No aposento...
A mente de Luísa trabalhou fervorosamente:
— Ela já sabe?
— Ainda não, Majestade. Vim falar-lhe primeiro.
Luísa suspirou pesadamente:
— Ótimo... Fez muito bem, Martín.
Depois virou-se para Oton:
— Preste muita atenção no que eu vou te dizer. A partir de agora, nos próximos dias você será um marido exemplar, está me ouvindo? Ficará ao lado de sua esposa e a consolará dia e noite. Não saia de perto dela. Seja carinhoso e prestativo... ou então colocará tudo a perder.
*****
Maia estava lendo, sentada em frente à penteadeira, enquanto Chiara escovava seus cabelos, quando a porta se abriu. Ao olhar para Luísa, percebeu, antes que ela dissesse qualquer coisa, que algo estava errado. Fechou o livro e se levantou.
— Princesa...
O tom de voz de Luísa a assustou ainda mais. A rainha se aproximou e segurou suas mãos:
— Infelizmente acaba de chegar uma terrível notícia...
O estômago de Maia se embrulhou instantaneamente. Continuou olhando para Luísa, como alguém que espera com aflição o golpe derradeiro.
— Seu pai... teve um mal súbito e... não resistiu.
Maia sentiu os joelhos fraquejarem. Teria caído se as mãos de Luísa e Chiara não a segurassem rapidamente. Entrou em um estado de negação, tomada pelo mais profundo desespero:
— Não... Não! Não é verdade...
Luísa tentava acalmá-la, mas Maia estava completamente tomada pelo sentimento de irrealidade e continuava repetindo:
— É uma mentira... você está mentindo pra mim... Onde ele está? Onde meu pai está?
Realmente comovida pelo desespero dela, Luísa a abraçou, tentando consolá-la, enquanto Maia continuava repetindo mecanicamente que era tudo uma mentira.
Depois de algum tempo, as palavras deram lugar a um choro sofrido, desesperado, que molhou a camisa de Luísa na altura do ombro, até ela ser tomada por um completo silêncio, paralisada nos braços da rainha. Quando enfim se desvencilhou e levantou o corpo, parecia outra pessoa:
— Vamos para Diamantora. Preciso preparar tudo.
Luísa a olhou com total espanto, pois depois de tudo aquilo, era o que menos esperava:
— As carruagens já estão sendo preparadas. Estefan irá com você. Eu seguirei logo atrás.
Muitas horas depois, ao chegarem ao lugar que Maia sempre chamou de lar, era nítido o luto por onde passavam. As pessoas nas ruas falavam baixo, as bandeiras estavam hasteadas a meio-mastro, até mesmo as crianças estavam em silêncio. Estefan segurava sua mão dentro da carruagem, enquanto perguntava de tempos em tempos se ela estava bem.
Quando a carruagem parou frente ao castelo e ele a ajudou a descer, uma fila de súditos que trabalhavam ali, a esperava. Maia parou com todos, um a um, enquanto recebia as condolências. Quando entrou no seu antigo aposento, com o marido ao seu lado, Chiara já estava lá, com a roupa preta estendida em cima da cama.
— Vou deixá-la com sua criada para que se apronte com calma. Se precisar de alguma coisa, estarei aqui, é só mandar que me chamem.
Maia olhou para Estefan, mas não foi capaz de dizer nada, apenas acenou com a cabeça. Depois que ele saiu, Chiara se aproximou dela e disse tristemente, já que na confusão da notícia — ainda em Ótice — não tinha conseguido:
— Eu sinto muito, Maia. Sinto mesmo.
Maia percebeu os olhos marejados dela, estendeu as mãos, agradecendo, e Chiara as segurou com força entre as suas, antes de se abraçarem.
*****
A cerimônia de despedida durou sete dias. Realezas de diversos lugares foram prestar as últimas homenagens. Súditos formaram enormes filas para ver o rosto do rei pela última vez.
Durante todo tempo, desde que entrou na carruagem ainda em Ótice, Estefan não saiu do seu lado. Ele foi absolutamente solicito, carinhoso e cuidadoso com ela. Era o que ansiou e esperou por dias a fio. Seria perfeito se, a sensação anestesiante de não ver sentido em nada, não a tivesse preenchido completamente. Pessoas falavam com ela, a abraçavam, beijavam sua mão, mas Maia parecia transportada para uma outra dimensão. Apenas o corpo físico estava ali. Fazia suas tarefas inconscientemente, comia não mais que quatro ou cinco garfadas de comida. Chiara precisava insistir para banhá-la. Só tinha forças para entrar na banheira, depois era tomada por uma imobilidade doentia e assim permanecia até a criada a levantar e a enrolar no tecido para que se secasse.
Nem depois de muitos anos seria capaz de dizer quanto tempo se passou assim, sem que se desse conta de que a vida ao seu redor continuava. Só foi trazida de volta para a realidade esmagadora e sem cor que a ausência do pai havia deixado, quando sua presença foi solicitada em uma reunião do Conselho. A princípio, tinha dito a Milo, o Braço do Rei e conselheiro mais antigo de seu pai, que não queria ver ninguém. Mas aceitou quando ele insistiu:
— Alteza, o assunto requer uma certa urgência.
Quando adentrou a sala de reuniões — vestida de preto da cabeça aos pés — Estefan, Luísa, Milo e todos os conselheiros do reino já a esperavam.
O marido se aproximou, beijou-lhe a mão e depois puxou a cadeira para que se sentasse.
Foi Milo quem começou:
— Primeiramente, em nome de todos que honrosamente servem este reino, gostaria de expressar nossos mais profundos lamentos à Vossa Alteza...
Maia apenas meneou a cabeça em forma de agradecimento, então ele continuou:
— Depois de cinquenta e cinco dias passados da morte de nosso tão saudoso rei, é hora de pensarmos no futuro de Diamantora.
Só então Maia levantou os olhos. Não havia sequer pensado em sucessão. Era como se aquele lugar fosse do pai para sempre. Não estava preparada para ver outra pessoa usando a coroa, por mais que essa outra pessoa fosse seu marido:
— Não... Ainda é muito cedo...
Um burburinho de vozes cresceu dentro do cômodo, interrompido por Milo:
— Silêncio, por favor.
Depois ele virou-se diretamente para Maia:
— Alteza, já é chegada a hora... O povo de Diamantora precisa de um novo rei, um líder, alguém que zele por eles... Esse cargo não pode ficar vago por muito tempo, ou então a plebe se acostuma a viver sem obediência.
Maia suspirou pesadamente, pois sabia que, de certa forma, ele tinha razão. Buscou Estefan com o olhar e ele sorriu para ela. Tentou se acostumar com a ideia de que aquele homem agora seria seu rei. Apesar de ainda estar decepcionada, nos últimos dias ele havia voltado a ser o homem por quem ela havia se apaixonado.
Olhou para todos os rostos das pessoas sentadas àquela mesa. Sabia que mais cedo ou mais tarde, uma nova coroação teria que acontecer. Percebeu que, ela querendo ou não, a vida continuava e sempre continuaria. Estendeu a mão sobre a mesa e buscou a de Estefan. Foi olhando nos olhos dele que disse:
— Podem preparar a cerimônia.
*****
Luísa gargalhou junto com seus guardas. Com uma garrafa de vinho na mão, encheu novamente os copos que já haviam ficado vazios incontáveis vezes naquela noite.
Sentou ao lado de Martín, que levantou o copo para que brindassem:
— Você conseguiu...
Com a coroação de Oton dali a três dias, Luísa sorriu para ele:
— Nós conseguimos, meu amigo.
Depois de uma golada, Martín perguntou:
— Aliás, onde está o futuro rei?
O tom irônico de Luísa fez o guarda rir:
— O tão dedicado marido está junto de sua querida esposa, fazendo o papel dele até que seja proclamado rei.
A excitação em que se encontrava muito tinha a ver com a sensação de conquista que a inundava. Queria que o tio estivesse vivo para ver o que ela tinha conseguido. Iria comandar Diamantora. Coisa que seus antecessores — todos homens — tinham tentado, sem sucesso algum.
Diamantora era o maior e mais rico reino daquela região. Seu próprio reino era absolutamente insignificante perto da grandeza daquele lugar. Por isso sempre tinha sido objeto de cobiça. Algumas vezes, até mesmo antes do reinado de Bartolomeu, tentaram invadi-lo, mas nunca houve sucesso. Quando Maia atingiu maturidade suficiente para se casar, muitas propostas surgiram. Luísa acompanhou de longe as notícias, sabendo que daquela guerra não poderia participar. Não tinha sequer um parente vivo que pudesse usar para tentar conseguir a mão da princesa. Até que, naquela fatídica visita, todo o plano surgiu em sua mente.
E agora já poderia comemorar. Tinha Diamantora nas mãos.
*****
Maia enxugou mais uma vez as lágrimas que não paravam de molhar seu rosto. Sentada sozinha diante do mausoléu dos pais, desejou com todas as suas forças que pudesse ter tido mais tempo com eles. Em algumas horas Estefan seria coroado rei e ela se tornaria rainha de Diamantora. Sentia-se um pouco perdida, despreparada, com medo de não corresponder à responsabilidade que o título demandava. Por mais que o exercício de governar fosse do marido, sabia que também tinha um papel importante. Ficou um pouco aliviada em pensar que poderia contar com Luísa para lhe guiar os passos.
Uma voz a tirou da imersão de seus pensamentos:
— Alteza... está na hora.
Viu Chiara parada no portal a aguardando, se levantou, deu uma última olhada para onde os corpos dos pais estavam enterrados e pediu mentalmente:
“Que vocês estejam comigo.”
*****
Luísa observou toda a cerimônia prestando atenção não em Oton, nem mesmo em Maia, mas sim no povo. Era essencial que o novo rei fosse aceito e aclamado, pois assim teria a obediência e o respeito dos súditos.
Sorriu ao perceber que tudo estava indo bem. Precisava admitir que Oton estava representando muito bem seu papel. O sorriso aumentou quando pensou “Esse estúpido sabe ser inteligente quando quer.”
A cerimônia chegou ao fim quando uma coroa foi colocada na cabeça de Maia e outra na cabeça de Estefan. De mãos dadas, os dois acenaram para o povo que aplaudia e desejava vida longa ao rei.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Zanja45
Em: 26/01/2026
Luisa conseguiu o que queria. vamos ver o que será daqui para frente com Esteban rei.
AlphaCancri
Em: 29/01/2026
Autora da história
Conseguiu até com muita facilidade, né?
Acho que esse reinado não vai ser muito bom não…
[Faça o login para poder comentar]
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]