CAPÍTULO IV
Olhando para as robustas árvores que ladeavam o castelo, ainda dentro da carruagem, Maia teve a sensação de que talvez pudesse gostar do novo lar. Era sua primeira vez em Ótice, pois nunca teve muitas oportunidades de acompanhar o pai em viagens para fora do reino.
Estefan desceu da carruagem, ainda com uma péssima cara. O marido havia reclamado de mal-estar durante toda a viagem. Ao contrário do que Maia esperava, ele não estendeu a mão para ajudá-la a descer, mas sim seguiu apressadamente para dentro do castelo. A mão que ela viu ser estendida era bem mais delicada. Luísa, que havia feito a viagem em outra carruagem, a ajudou a descer e a acompanhou até o interior do castelo. Caminharam lado a lado enquanto a rainha lhe mostrava os cômodos:
— Perdoe meu primo, ele realmente se excedeu na comemoração de ontem. E encarar essa viagem logo depois...
— Majestade, sobre isso... eu gostaria de falar-lhe rapidamente.
Luísa parou e encarou Maia. A jovem hesitou olhando para o guarda que as acompanhava de perto. Com apenas um gesto, Luísa dispensou-o, e só então a princesa continuou:
— Ontem, nós não...
Olhou para o chão ao concluir:
— Não foi possível consumar o casamento.
Luísa escondeu muito bem o quanto a informação havia a irritado. Oton só tinha um único dever e não foi capaz de cumpri-lo. Se pudesse iria atrás dele imediatamente, mas Maia parada à sua frente a olhando, como se esperasse uma solução, a impedia:
— Princesa, não se preocupe com essas pequenas coisas. Como disse, meu primo se excedeu na noite passada. Esse é só um detalhe que logo será resolvido. Venha, vou mostrar-lhe seu novo aposento.
*****
Maia criou mais uma expectativa que não foi atendida naquela noite. Estefan sequer dormiu ao seu lado, alegando que ainda não se sentia bem. Os dias e noites se seguiram da mesma forma. Havia sempre uma desculpa por parte do marido. Já se sentindo rejeitada, resolveu novamente procurar por Luísa, depois de muito hesitar. Acreditava que Estefan estava tão envolvido emocionalmente quanto ela, mas desde o casamento, ele nunca mais a olhou por mais de alguns segundos, nem mesmo trocaram mais do que meia dúzia de palavras.
Enquanto percorria os corredores suntuosos do castelo, mentalmente pensava em como tocaria no assunto com Luísa, pois apesar de considerá-la uma amiga, não se achava desprendida o suficiente para falar sobre aquilo sem embaraço. Até pensou em conversar com Chiara, mas ela não poderia ajudá-la naquele assunto. Chiara também nunca havia se deitado com ninguém.
Na porta da antessala dos aposentos da rainha, havia dois guardas. Ao verem a princesa, fizeram uma breve reverência e deixaram-na passar. Maia entrou na antessala e chamou por Luísa, mas não foi atendida. Em vez disso, ouviu barulhos que vinham do aposento. Primeiro achou que ela estivesse passando mal, mas ao se aproximar lentamente da porta entreaberta, percebeu que a voz não era da rainha. Ficou absolutamente paralisada com a cena que viu em sua frente pelo vão aberto da porta: uma moça sentada na cama de Luísa, com as pernas abertas, e a rainha com o rosto enterrado entre elas. A moça completamente nua, que aparentava não ser muito mais velha que Maia, estava de olhos fechados, ofegando e soltando sons desconexos. Maia sabia que precisava sair dali, mas a cena era como um ímã para seus olhos, mal conseguia piscar.
Luísa, que estava de costas para a porta, levantou-se e começaram, aos olhos da princesa, o que parecia uma dança ritmada, onde ela não conseguia mais distinguir de quem eram os sons desconexos e gemidos que preenchiam o ar. De repente, a jovem soltou um gemido alto e longo, um som que arrepiou Maia. Nunca ouvira nada parecido antes, parecia um som animalesco, mas não era assustador. Pelo contrário, despertava sensações convidativas.
Foi neste momento que sua paralisia se dissipou e ela deu um passo atrás, ainda olhando a cena, com o intuito de sair do cômodo, mas acabou esbarrando no pé de uma mesa. O objeto balançou, derrubando a jarra de vinho que havia em cima. O barulho fez com que Luísa e a moça olhassem imediatamente para a porta. Antes de sair praticamente correndo, Maia ainda gravou em sua mente a imagem da rainha seminua, e da moça enlaçada em sua cintura.
Imaginou que Luísa viria atrás dela para explicar-se. Depois de algumas horas, percebeu que estava enganada. Sabia que havia, sem querer, invadido a privacidade dela, mas ainda assim esperava que a rainha lhe pedisse desculpas por ter presenciado algo tão... Tentava buscar os piores adjetivos possíveis, mas sua mente lhe traía, a palavra que lhe surgia era “fascinante”.
No dia seguinte, após ter feito sua refeição sozinha na mesa, já que seu marido não a acompanhava, procurou novamente Luísa em seus aposentos. Dessa vez pediu a um dos guardas que fosse anunciada. Assim que entrou na antessala, a rainha veio ao seu encontro.
— Princesa... Em que posso ajudá-la?
Não conseguiu evitar que a cena do dia anterior voltasse à sua mente. Gaguejou um pouco para responder e não conseguia entender a naturalidade de Luísa, que agia como se nada tivesse acontecido.
— Majestade, eu... ontem vim... eu queria conversar sobre Estefan.
Luísa não estava disposta a escutar reclamações de uma menina sobre seu casamento que não era como nos contos de fadas. Tinha muitas coisas para resolver ao longo do dia, o que menos precisava era perder tempo com aquilo. Sabia que Oton não parava no castelo, estava sempre bêbado em bordéis, dormia fora praticamente todas as noites, mas isso já não era mais interesse dela. O casamento havia sido realizado e, querendo a princesa ou não, assim que o rei Bartolomeu falecesse, teria o controle de Diamantora. Respondeu apressada, já caminhando em direção à porta:
— Não vejo como posso te ajudar com seu marido, Alteza. Converse com ele...
Maia a interrompeu, fazendo Luísa paralisar:
— O casamento não foi consumado!
Ainda de costas para a princesa, Luísa apertou os olhos com força. Mentalmente matou Oton de várias maneiras possíveis. Depois da primeira queixa da princesa, o havia pressionado e ameaçado tirar dele todos os privilégios que o falso duque possuía. Como ninguém tocou no assunto novamente, achou que estava resolvido. O fato do casamento não ter sido consumado mudava tudo. A princesa poderia pedir anulação a qualquer momento e o casamento seria desfeito. Maia não estava feliz, isso era óbvio. Não poderia correr o risco de jogar fora todo o trabalho que tivera.
Se virou devagar e disse calmamente:
— Princesa, não se preocupe. Meu primo está enfrentando momentos difíceis. Ele sempre viveu viajando, em diversos lugares... Está sendo difícil para ele se adaptar à nova realidade. Você o conhece até mais profundamente do que eu, sabe como ele é de verdade.
Maia assentiu com a cabeça. Conversar com Luísa sempre a acalmava. Sentia-se grata por ter uma amiga como ela.
Tentando ao máximo controlar a raiva que sentia, Luísa continuou calmamente:
— Hoje mesmo vou conversar com meu primo, tenho certeza que ele logo voltará a si.
*****
Oton ofegou, amarrado em uma cadeira, depois que Luísa lhe despejou mais um balde de água fria. Assim que Maia havia saído de seu aposento, ordenou que o buscassem e o trouxessem imediatamente, independente do estado em que se encontrasse.
— Não é possível que você não conseguiu cumprir seu único dever como homem!
Enquanto esbravejava, Luísa enchia novamente o balde.
— Majestade, eu estive ocupado...
Gritou em direção ao rapaz, antes de mais uma vez arremessar a água sobre ele:
— Ocupado? Por quase um mês? Só precisava de uma noite, Oton! Uma noite e ficaria livre para viver do jeito que quisesse. É impressionante sua capacidade de ser irracional.
Enquanto ele gaguejava tentando arranjar alguma desculpa, ela segurou-o pelo colarinho, ordenando:
— De hoje não passa, está me ouvindo? Eu mesma vou te levar até seus aposentos e ficarei do lado de fora esperando pela confirmação.
Antes que o rapaz pudesse responder, Martín adentrou o cômodo apressadamente. Fez uma rápida reverência antes de falar:
— Majestade... um mensageiro acaba de chegar de Diamantora. O rei Bartolomeu teve um mal súbito e não resistiu.
Fim do capítulo
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