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O MAR DE PEDRA por Alkssa45

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Palavras: 687
Acessos: 158   |  Postado em: 29/01/2026

Capitulo 6 O JEITO QUE APRENDI A FICAR

— O Jeito Que Aprendi a Ficar

Melinda nunca teve dúvida de que era amada.

Mas levou tempo para entender o que fazer com isso.

Cresceu entre silêncios protetores e gestos firmes. Damon não era um pai de palavras fáceis — era de presença. Estava sempre ali. Na arquibancada vazia de apresentações escolares. Na porta do quarto quando o choro vinha sem explicação. No café da manhã feito do jeito errado, mas servido todos os dias.

Ela o chamava de pai com uma naturalidade que ele nunca pediu.

E talvez por isso o título lhe tivesse caído tão bem.

No dia em que completou dezoito anos, Melinda apareceu para o café da manhã vestida com uma calma suspeita. Sentou-se à mesa, empurrou um envelope na direção dele e sorriu como quem esconde travessura.

— Feliz aniversário — disse.

Damon franziu a testa.

— O seu.

— Também — respondeu ela. — Mas esse presente é seu.

Dentro do envelope estavam os documentos atualizados. Nome completo. Assinatura. Sobrenome.

Stavros.

— Resolvi oficializar — disse, fingindo casualidade. — Já era assim na prática. Agora é no papel também. Pra evitar confusão com bancos, cartórios… essas coisas chatas.

Ele demorou a reagir. Leu uma, duas vezes. Levantou os olhos e os perdeu em algum ponto invisível da sala. Melinda sentiu o coração acelerar — e, por um segundo, teve medo de ter ido longe demais.

Mas Damon apenas se levantou, caminhou até ela e a abraçou com força contida.

— Então eu ganhei um sobrenome de volta — murmurou. — Obrigado.

Ela riu, com os olhos molhados.

— Viu? Meu aniversário e quem ganhou presente foi você.

Com Sofia, a relação sempre fora diferente.

Não ruim. Apenas… delicada.

Melinda era mais velha. Observava. Cedia espaço. Achava Sofia intensa demais, bonita demais, brilhante demais. E tinha medo — um medo silencioso — de parecer querer ocupar um lugar que não era seu.

— Ela é filha da Eiriene — dizia para si mesma. — Eu sou só a sobrinha.

Quando Sofia completou dezesseis anos, Melinda decidiu se mudar. Não por ciúme. Por cuidado.

— Não quero que ela ache que eu estou tentando ser o que não sou — explicou ao pai. — E também acho que está na hora de você e eu termos nossa própria dinâmica adulta.

Damon ouviu em silêncio. Depois sorriu de lado.

— Você sempre foi mais madura do que gostaria de admitir.

Ela se afastou um pouco da prima. Continuaram afetuosas, mas menos presentes. Melinda observava de longe, com orgulho e uma pontinha de humor.

— A Sofia é linda demais pra esse mundo — brincava. — Claramente vai dar trabalho.

Foi também com Damon que Melinda se assumiu.

Aos vinte e quatro anos, entrou no carro dele com as mãos suadas, o coração disparado e um discurso ensaiado que nunca chegou a usar.

— Pai… eu gosto de mulheres.

Ele não respondeu de imediato. Ligou o carro. Dirigiu até a sorveteria da esquina. Estacionou.

— Chocolate ou pistache? — perguntou.

Ela piscou, confusa.

— Como é?

— Pra comemorar — completou ele, abrindo a porta. — Porque se eu pudesse, te guardava num pote pra você nunca sofrer por ser quem é. Mas como não posso… a gente começa com sorvete.

Melinda riu e chorou ao mesmo tempo.

— A sua mãe teria muito orgulho de você — disse ele, já na fila. — Dos dois.

Ela soube, ali, que estava segura.

A vida seguiu.

Administração por escolha. Mestrado por inquietação. Doutorado por teimosia. Artigos, aulas, alunos. Amores — alguns bons, outros didáticos. Um ou dois desastrosos, que renderam piadas com o pai e conselhos não solicitados.

— Você puxa a tia — ele dizia. — Gosta de gente complicada.

— E você gosta de fingir que não sabe disso — ela respondia.

Melinda tornou-se alguém inteira. Não porque não tivesse dores — mas porque aprendeu que leveza também é construção.

E talvez não soubesse ainda, mas toda essa delicadeza tinha sido forjada para resistir.

Porque o sobrenome que escolhera carregar voltaria a cobrar presença.

E, dessa vez, não seria possível ficar à margem.

Fim do capítulo


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Comentários para 6 - Capitulo 6 O JEITO QUE APRENDI A FICAR :
Zanja45
Zanja45

Em: 06/02/2026

Por quê Melinda resolveu usar o sobrenome do pai? Por que ele não colocou o nome dele antes? Por medo do que representa?

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