Capitulo 6 O JEITO QUE APRENDI A FICAR
— O Jeito Que Aprendi a Ficar
Melinda nunca teve dúvida de que era amada.
Mas levou tempo para entender o que fazer com isso.
Cresceu entre silêncios protetores e gestos firmes. Damon não era um pai de palavras fáceis — era de presença. Estava sempre ali. Na arquibancada vazia de apresentações escolares. Na porta do quarto quando o choro vinha sem explicação. No café da manhã feito do jeito errado, mas servido todos os dias.
Ela o chamava de pai com uma naturalidade que ele nunca pediu.
E talvez por isso o título lhe tivesse caído tão bem.
No dia em que completou dezoito anos, Melinda apareceu para o café da manhã vestida com uma calma suspeita. Sentou-se à mesa, empurrou um envelope na direção dele e sorriu como quem esconde travessura.
— Feliz aniversário — disse.
Damon franziu a testa.
— O seu.
— Também — respondeu ela. — Mas esse presente é seu.
Dentro do envelope estavam os documentos atualizados. Nome completo. Assinatura. Sobrenome.
Stavros.
— Resolvi oficializar — disse, fingindo casualidade. — Já era assim na prática. Agora é no papel também. Pra evitar confusão com bancos, cartórios… essas coisas chatas.
Ele demorou a reagir. Leu uma, duas vezes. Levantou os olhos e os perdeu em algum ponto invisível da sala. Melinda sentiu o coração acelerar — e, por um segundo, teve medo de ter ido longe demais.
Mas Damon apenas se levantou, caminhou até ela e a abraçou com força contida.
— Então eu ganhei um sobrenome de volta — murmurou. — Obrigado.
Ela riu, com os olhos molhados.
— Viu? Meu aniversário e quem ganhou presente foi você.
Com Sofia, a relação sempre fora diferente.
Não ruim. Apenas… delicada.
Melinda era mais velha. Observava. Cedia espaço. Achava Sofia intensa demais, bonita demais, brilhante demais. E tinha medo — um medo silencioso — de parecer querer ocupar um lugar que não era seu.
— Ela é filha da Eiriene — dizia para si mesma. — Eu sou só a sobrinha.
Quando Sofia completou dezesseis anos, Melinda decidiu se mudar. Não por ciúme. Por cuidado.
— Não quero que ela ache que eu estou tentando ser o que não sou — explicou ao pai. — E também acho que está na hora de você e eu termos nossa própria dinâmica adulta.
Damon ouviu em silêncio. Depois sorriu de lado.
— Você sempre foi mais madura do que gostaria de admitir.
Ela se afastou um pouco da prima. Continuaram afetuosas, mas menos presentes. Melinda observava de longe, com orgulho e uma pontinha de humor.
— A Sofia é linda demais pra esse mundo — brincava. — Claramente vai dar trabalho.
Foi também com Damon que Melinda se assumiu.
Aos vinte e quatro anos, entrou no carro dele com as mãos suadas, o coração disparado e um discurso ensaiado que nunca chegou a usar.
— Pai… eu gosto de mulheres.
Ele não respondeu de imediato. Ligou o carro. Dirigiu até a sorveteria da esquina. Estacionou.
— Chocolate ou pistache? — perguntou.
Ela piscou, confusa.
— Como é?
— Pra comemorar — completou ele, abrindo a porta. — Porque se eu pudesse, te guardava num pote pra você nunca sofrer por ser quem é. Mas como não posso… a gente começa com sorvete.
Melinda riu e chorou ao mesmo tempo.
— A sua mãe teria muito orgulho de você — disse ele, já na fila. — Dos dois.
Ela soube, ali, que estava segura.
A vida seguiu.
Administração por escolha. Mestrado por inquietação. Doutorado por teimosia. Artigos, aulas, alunos. Amores — alguns bons, outros didáticos. Um ou dois desastrosos, que renderam piadas com o pai e conselhos não solicitados.
— Você puxa a tia — ele dizia. — Gosta de gente complicada.
— E você gosta de fingir que não sabe disso — ela respondia.
Melinda tornou-se alguém inteira. Não porque não tivesse dores — mas porque aprendeu que leveza também é construção.
E talvez não soubesse ainda, mas toda essa delicadeza tinha sido forjada para resistir.
Porque o sobrenome que escolhera carregar voltaria a cobrar presença.
E, dessa vez, não seria possível ficar à margem.
Fim do capítulo
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