Capitulo 5 O TEMPO NAO APAGA
— O Tempo Que Não Apaga
O tempo passou como sempre passa:
sem pedir licença, sem oferecer reparo.
Depois da morte de Amanda, a vida não se recompôs — ela se reorganizou. Damon voltou a existir por necessidade. Não por desejo. Havia uma criança olhando para ele como quem procura chão. Melinda não perguntava por explicações. Ela observava. E naquele silêncio infantil, ele entendeu que sobreviver agora era um compromisso.
Eiriene ficou.
Não como hóspede.
Como estrutura.
Assumiu a rotina de Melinda com uma precisão que misturava cuidado e vigilância. Sabia que amor, sozinho, não bastava. Crianças que crescem em ruínas precisam de constância. Horários. Presença. Palavras firmes que não machucam.
Melinda tinha os olhos da mãe.
Mas aprendera cedo a esconder o choro.
Eiriene se reconhecia nela de formas que jamais diria em voz alta. Não permitia que a menina se sentisse frágil. Também não a ensinava a ser dura demais. Caminhava naquela linha tênue entre proteção e preparo — consciente de que o mundo não seria gentil.
Damon mergulhou no trabalho como quem constrói uma muralha. Cresceu. Consolidou. Criou distância suficiente entre o passado e o presente para respirar. Ainda assim, certas noites permaneciam longas demais. Eiriene o observava à distância, sabendo que algumas dores não pedem consolo — pedem tempo.
Foi nesse intervalo que ela conheceu Marcos.
Não houve romance imediato. Houve respeito. Ele entrou em sua vida como quem entende que algumas mulheres carregam histórias que não cabem em curiosidade. Não perguntou demais. Não exigiu espaço. Apenas permaneceu.
Eiriene aprendeu a confiar devagar.
Casaram-se sem festa grande, sem promessas exageradas. O compromisso era silencioso, mas sólido. Quando Sofia nasceu, 2 anos depois, Eiriene sentiu algo que nunca tivera permissão para sentir antes: leveza.
Sofia era riso fácil. Olhos atentos. Um corpo que não conhecia medo.
Melinda tinha 6 anos quando segurou a prima nos braços pela primeira vez. Não houve ciúmes. Houve afeto nao se sentiria so Como se, naquele gesto, algo ancestral se repetisse — não como trauma, mas como escolha.
As duas cresceram bem na presença uma da outra,
Melinda observava o mundo com cautela.
Sofia avançava sobre ele com curiosidade.
Damon era presença constante, ainda que contida. Amava a filha com intensidade silenciosa. Eiriene o ajudava a amar sem se perder. Era nisso que se tornara especialista: manter as pessoas de pé sem invadir o espaço onde caíam.
A ilha parecia distante.
Quase um mito.
Mas o sobrenome ainda circulava. Em contratos. Em sussurros. Em memórias mal enterradas. Damon não falava sobre o pai. Eiriene não perguntava. Havia pactos não verbalizados entre irmãos que sobreviveram juntos.
A vida seguia.
Melinda crescia.
Sofia descobria o mundo.
Eiriene construía algo que jamais teve.
Damon se preparava — mesmo sem saber exatamente para quê.
O tempo fechava aquele ciclo como uma porta pesada.
Não por fim.
Mas por pausa.
Porque histórias assim não se encerram quando parecem estáveis.
Elas apenas aguardam o momento certo para cobrar tudo o que foi deixado para trás.
Fim do capítulo
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