Capitulo 2
CAPÍTULO 2— O QUE SE DECIDE EM SILÊNCIO
Amélia aprendera cedo que dor não precisava ser visível para ser constante.
Ela vinha em ondas curtas, previsíveis, quase educadas — ardência na pele, pressão atrás dos olhos, o corpo pedindo sombra antes mesmo que a mente percebesse o excesso de luz. Ajustava cortinas, fechava persianas, mudava horários. Não reclamava. Nunca reclamara.
Doença era apenas mais um fator a ser administrado.
O que não se administrava com facilidade eram três vidas que agora orbitavam a sua.
Samantha ocupava o sofá com livros espalhados, o fone em apenas um ouvido — vigilante demais para alguém de dezessete anos. John estava no chão, desmontando e montando o mesmo objeto pela terceira vez, concentrado como se o mundo dependesse daquilo. Megan falava sem parar, narrando detalhes irrelevantes de um dia que ninguém mais vivera.
Amélia observava os três da porta.
Não com a distância de quem cuida por obrigação, mas com o cuidado exato de quem ama e teme na mesma medida.
— Vocês almoçaram? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— Duas vezes — respondeu Megan. — A Samantha disse que tristeza dá fome.
Samantha revirou os olhos, mas não negou.
Amélia quase sorriu.
Era nesses instantes pequenos que ela esquecia o peso do que perdera. Rafael surgia em gestos, em silêncios, em manias que não morreram com ele. O amor pelos sobrinhos não era substituição — era continuidade. E isso doía mais do que confortava.
Veridiana apareceu no corredor, tablet sob o braço, postura impecável mesmo dentro de casa. O cabelo preso com descuido calculado, o olhar atento a tudo.
— Temos um problema — disse, sem rodeios.
Amélia não se moveu.
— Qual deles? — respondeu.
— Todos os que exigem uma decisão definitiva.
Silêncio. O tipo de silêncio que não assusta — prepara.
— Brasil — continuou Veridiana. — Fraudes pequenas, mas repetidas. Gente testando limites. Se você não assumir a frente agora, vão avançar.
Amélia respirou fundo, sentindo o corpo reclamar antes mesmo que a mente aceitasse.
— E aqui? — perguntou, olhando para os sobrinhos.
Veridiana sustentou o olhar.
— Aqui já não é seguro fingir que nada mudou.
A frase ficou entre elas como uma verdade incômoda.
— Se eu for… — começou Amélia.
— Você não vai sozinha — cortou Veridiana. — Nunca foi assim. Não será agora.
Amélia fechou os olhos por um instante. Não por fraqueza. Por gratidão.
— Rafael confiou em mim — disse, a voz mais baixa. — E eu confiei em você antes disso tudo.
— E confia agora — respondeu Veridiana. — É por isso que estamos indo.
A decisão foi tomada ali. Sem dramatização. Sem promessa em voz alta. Algumas escolhas não pedem cerimônia.
O telefone tocou antes que qualquer uma dissesse mais alguma coisa.
Amélia olhou para a tela. O nome piscava como um aviso antigo.
Arminda Brandão.
Veridiana não precisou perguntar. Apenas se aproximou.
Amélia atendeu.
— Amélia — a voz do outro lado era doce demais. — Finalmente.
— Arminda — respondeu, neutra. — A que devo a ligação?
— Aos meus netos — disse ela, sem rodeios. — Quero falar com eles. Agora.
Amélia sentiu o corpo enrijecer.
— Não é um bom momento.
— Nunca é, quando se quer esconder algo — retrucou Arminda, com falsa leveza. — Ou devo interpretar como impedimento?
— Deve interpretar como proteção — disse Amélia. — Algo que talvez você não compreenda.
Houve uma pausa. Curta. Calculada.
— Proteção é um conceito interessante — disse Arminda. — Especialmente quando a guarda ainda pode ser… questionada.
Veridiana estreitou os olhos.
— A guarda está definida — respondeu Amélia. — Legalmente.
Arminda riu. Um riso baixo, sem humor.
— Documentos são frágeis, querida. Pessoas, mais ainda. Crianças então… — ela deixou a frase morrer. — Acidentes acontecem. Até com quem se julga no controle.
O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi ameaça.
— Não ouse — disse Amélia, a voz firme como aço.
— Eu jamais ousaria — respondeu Arminda. — Só me preocupo. E preocupações… nos movem a agir.
A ligação caiu.
Amélia permaneceu imóvel, o telefone ainda na mão.
— Ela cruzou a linha — disse Veridiana.
— Não — corrigiu Amélia, erguendo o olhar. — Ela avisou onde pretende cruzar.
Veridiana assentiu.
— Então vamos fechar todas as outras.
Amélia olhou novamente para a sala, onde os sobrinhos riam de algo que só eles entendiam. O amor que sentia por eles não era suave. Era feroz.
— Arrume as malas — disse. — Voltamos para o Brasil.
E, pela primeira vez desde a tragédia, Amélia soube com clareza absoluta:
a guerra não seria evitada.
Apenas enfrentada.
Fim do capítulo
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