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  • A SOMBRA DO QUE JURAMOS
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A SOMBRA DO QUE JURAMOS por Alkssa45

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Palavras: 782
Acessos: 189   |  Postado em: 28/01/2026

Capitulo 2

 CAPÍTULO 2— O QUE SE DECIDE EM SILÊNCIO

 

Amélia aprendera cedo que dor não precisava ser visível para ser constante.

Ela vinha em ondas curtas, previsíveis, quase educadas — ardência na pele, pressão atrás dos olhos, o corpo pedindo sombra antes mesmo que a mente percebesse o excesso de luz. Ajustava cortinas, fechava persianas, mudava horários. Não reclamava. Nunca reclamara.

Doença era apenas mais um fator a ser administrado.

O que não se administrava com facilidade eram três vidas que agora orbitavam a sua.

Samantha ocupava o sofá com livros espalhados, o fone em apenas um ouvido — vigilante demais para alguém de dezessete anos. John estava no chão, desmontando e montando o mesmo objeto pela terceira vez, concentrado como se o mundo dependesse daquilo. Megan falava sem parar, narrando detalhes irrelevantes de um dia que ninguém mais vivera.

Amélia observava os três da porta.

Não com a distância de quem cuida por obrigação, mas com o cuidado exato de quem ama e teme na mesma medida.

— Vocês almoçaram? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.

— Duas vezes — respondeu Megan. — A Samantha disse que tristeza dá fome.

Samantha revirou os olhos, mas não negou.

Amélia quase sorriu.

Era nesses instantes pequenos que ela esquecia o peso do que perdera. Rafael surgia em gestos, em silêncios, em manias que não morreram com ele. O amor pelos sobrinhos não era substituição — era continuidade. E isso doía mais do que confortava.

Veridiana apareceu no corredor, tablet sob o braço, postura impecável mesmo dentro de casa. O cabelo preso com descuido calculado, o olhar atento a tudo.

— Temos um problema — disse, sem rodeios.

Amélia não se moveu.

— Qual deles? — respondeu.

— Todos os que exigem uma decisão definitiva.

Silêncio. O tipo de silêncio que não assusta — prepara.

— Brasil — continuou Veridiana. — Fraudes pequenas, mas repetidas. Gente testando limites. Se você não assumir a frente agora, vão avançar.

Amélia respirou fundo, sentindo o corpo reclamar antes mesmo que a mente aceitasse.

— E aqui? — perguntou, olhando para os sobrinhos.

Veridiana sustentou o olhar.

— Aqui já não é seguro fingir que nada mudou.

A frase ficou entre elas como uma verdade incômoda.

— Se eu for… — começou Amélia.

— Você não vai sozinha — cortou Veridiana. — Nunca foi assim. Não será agora.

Amélia fechou os olhos por um instante. Não por fraqueza. Por gratidão.

— Rafael confiou em mim — disse, a voz mais baixa. — E eu confiei em você antes disso tudo.

— E confia agora — respondeu Veridiana. — É por isso que estamos indo.

A decisão foi tomada ali. Sem dramatização. Sem promessa em voz alta. Algumas escolhas não pedem cerimônia.

O telefone tocou antes que qualquer uma dissesse mais alguma coisa.

Amélia olhou para a tela. O nome piscava como um aviso antigo.

Arminda Brandão.

Veridiana não precisou perguntar. Apenas se aproximou.

Amélia atendeu.

— Amélia — a voz do outro lado era doce demais. — Finalmente.

— Arminda — respondeu, neutra. — A que devo a ligação?

— Aos meus netos — disse ela, sem rodeios. — Quero falar com eles. Agora.

Amélia sentiu o corpo enrijecer.

— Não é um bom momento.

— Nunca é, quando se quer esconder algo — retrucou Arminda, com falsa leveza. — Ou devo interpretar como impedimento?

— Deve interpretar como proteção — disse Amélia. — Algo que talvez você não compreenda.

Houve uma pausa. Curta. Calculada.

— Proteção é um conceito interessante — disse Arminda. — Especialmente quando a guarda ainda pode ser… questionada.

Veridiana estreitou os olhos.

— A guarda está definida — respondeu Amélia. — Legalmente.

Arminda riu. Um riso baixo, sem humor.

— Documentos são frágeis, querida. Pessoas, mais ainda. Crianças então… — ela deixou a frase morrer. — Acidentes acontecem. Até com quem se julga no controle.

O silêncio que veio depois não foi vazio. Foi ameaça.

— Não ouse — disse Amélia, a voz firme como aço.

— Eu jamais ousaria — respondeu Arminda. — Só me preocupo. E preocupações… nos movem a agir.

A ligação caiu.

Amélia permaneceu imóvel, o telefone ainda na mão.

— Ela cruzou a linha — disse Veridiana.

— Não — corrigiu Amélia, erguendo o olhar. — Ela avisou onde pretende cruzar.

Veridiana assentiu.

— Então vamos fechar todas as outras.

Amélia olhou novamente para a sala, onde os sobrinhos riam de algo que só eles entendiam. O amor que sentia por eles não era suave. Era feroz.

— Arrume as malas — disse. — Voltamos para o Brasil.

E, pela primeira vez desde a tragédia, Amélia soube com clareza absoluta:

a guerra não seria evitada.

Apenas enfrentada.

 

Fim do capítulo


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Comentários para 2 - Capitulo 2:
Zanja45
Zanja45

Em: 28/01/2026

A avó das crianças é meio perturbada. Ela quer o controle total sobre as crianças. E para isso ela é capaz de ter atitudes muito mesquinhas. 

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