Capitulo 29 – Silêncio Que Queima
Narrado por Seraphina
Fui eu quem a afastou.
Nomeei outra dama de companhia, uma nobre tola que não sabia sequer amarrar o espartilho direito. Eu disse que era melhor assim. Que Elara precisava de distância. Que era por sua segurança... Mas a verdade é que minha covardia venceu.
Quando ela deixou meus aposentos com os olhos marejados, algo dentro de mim se partiu. E todos os dias desde então, esse pedaço partido sangra.
Meus lençóis já não tinham o cheiro dela. As criadas lavaram tudo, como ordenado. Mas o aroma de Elara… seu perfume leve de flores silvestres e terra molhada… ele não foi embora da minha pele.
Eu via ela pelos corredores do palácio. Agora, com vestidos mais nobres, colares discretos e o olhar cada vez mais triste. Ela evitava me encarar. E quando o fazia, seus olhos suplicavam algo que eu não podia dar: consolo. Perdão. Amor.
Mas eu virava o rosto.
Porque te amar me destrói. E não te amar me mata.
As noites eram as piores.
Deitada sozinha, as velas tremeluzindo, eu lembrava do calor do corpo dela entre meus lençóis, das vezes em que ela sussurrava meu nome com o rosto enterrado em meu pescoço. Quantas vezes me toquei lembrando dos gemidos dela, dos seus lábios em minha pele... do gosto que era só meu.
Chorava calada.
No riacho, onde antes nadávamos e nos entregávamos, passei a ir sozinha. Sentava nas pedras lisas, olhando o reflexo da lua, como se ali eu pudesse apagar a falta. Mas naquela tarde, a água me presenteou com um tormento.
Elara estava lá.
Nua.
Seu corpo reluzente sob a luz do entardecer, os cabelos molhados grudados nas costas, os olhos fechados como se o mundo inteiro tivesse desaparecido. Meu peito apertou.
Era minha. Meu corpo clamava por ela.
Mas não pude falar. Nem tocar. Só assistir em silêncio, e depois partir, engolindo o choro.
Narrado por Elara
Desde que Seraphina me afastou, eu não soube mais quem era. Os dias tornaram-se cinzas, as noites insuportáveis. A dor crescia a cada amanhecer, a cada refeição em que ela me ignorava, mesmo quando eu tentava escondê-la com um sorriso forçado.
Permaneço no palácio, como ordenado. Agora noiva do primo do conde — um homem arrogante que só pensa em alianças e poder.
No jantar, minha alma sangra em silêncio.
Seraphina se senta ao lado do conde, seu futuro marido, e eu, diante do meu noivo. Mas nossos olhos evitam se encontrar, como se encará-la fosse uma faca que cortaria o que restou do meu coração.
Ainda assim, nos olhamos. E naquele instante em que nossos olhos se tocam... tudo grita. Tudo chora.
Mas nada é dito.
Éramos duas mulheres apaixonadas em silêncio, despedaçadas sob as máscaras da nobreza, prisioneiras de um mundo que nunca nos permitiria existir como amor.
Mas até quando?
Fim do capítulo
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