Capitulo 24 – O Diário de Elara
Narrado por Seraphina
Era uma daquelas noites em que eu não conseguia dormir. O silêncio do palácio me sufocava, e só havia um lugar onde eu conseguia respirar: o quarto de Elara.
Desci pelas escadas escondidas com cuidado, conhecia cada canto daquelas paredes de pedra desde a infância. Passei pelas tapeçarias e corredores escuros, com os pés descalços e o coração leve. Elara sempre deixava a porta entreaberta quando pressentia que eu viria.
Entrei silenciosamente. Ela estava sentada na cama, de camisola simples de algodão branco, os cabelos soltos caindo pelos ombros. Sorriu ao me ver, como sempre fazia, com aquele brilho nos olhos que fazia meu peito doer.
— Quer ver as estrelas comigo? — perguntei, e ela assentiu, mas não se moveu.
Sentei-me em sua cama, enquanto ela calçava as sandálias. Meus olhos vagaram pelo quarto simples, mas cheio de detalhes que mostravam quem ela era: flores secas penduradas na janela, um lenço de seda que dei a ela sobre a cômoda, e o travesseiro amassado de onde surgia uma ponta de couro escuro.
Sem pensar, puxei o que parecia ser um caderno antigo. A capa estava gasta, bordas carcomidas pelo tempo. Havia pétalas secas entre as páginas. Abri curiosa… e o mundo parou.
As palavras escritas à mão dançavam diante dos meus olhos como uma canção silenciosa. Era uma declaração de amor.
"Ela é o Sol em minha vida de sombras. Quando sorri, é como se o mundo inteiro tivesse um novo significado. Meu corpo arde quando estou perto, e minha alma clama por algo que não posso ter. Às vezes, quando ela encosta em mim, acho que vou desmoronar. Mas jamais poderei confessar. Seria condenada. Sou apenas uma sombra ao lado de uma estrela."
Meus dedos tremiam. Meus olhos percorriam cada linha com o coração apertado, torcendo, desejando, implorando que fosse sobre mim.
Foi quando senti a presença atrás de mim.
— O que está fazendo?!
Me virei assustada. Elara estava ali, com o rosto em choque, os olhos arregalados, a respiração presa no peito.
— Eu… me desculpa. Eu não queria…
Ela correu até mim e arrancou o caderno das minhas mãos, apertando-o contra o peito como se fosse um segredo vivo. Seu rosto estava vermelho, os olhos marejados.
— Você não deveria ter lido isso… — disse em voz baixa, quase um sussurro ferido.
— Elara… — me levantei. — É sobre mim?
Ela não respondeu.
— Elara, olha pra mim…
Mas ela desviou o olhar. Estava tremendo. Como se algo dentro dela estivesse prestes a ruir.
— Você não devia estar aqui… vai embora, por favor… — murmurou, voltando os olhos ao chão.
Dei um passo à frente, hesitante.
— Se for sobre mim… se for mesmo… eu quero saber. Porque...
Ela me olhou, e seus olhos estavam cheios de medo. E de amor. Claramente, de amor.
— Porque o quê, Seraphina?
Fechei os olhos, lutei contra tudo que me ensinaram a esconder, e disse:
— Porque eu sinto o mesmo. Eu te amo, Elara.
Ela deixou o diário cair no chão.
E naquele instante, o mundo parou de novo.
Só que dessa vez… foi por nós duas.
Fim do capítulo
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