Capítulo 27 - A Visita Inesperada
Naquela manhã, a cabeça de Hinata parecia que iria explodir a qualquer momento. Uma dor lancinante pulsava em suas têmporas, um lembrete cruel do excesso de vinho na noite anterior. Ela se remexeu na cama, tentando encontrar uma posição que minimizasse a dor. Poucos minutos depois que Ana saiu para trabalhar, a campainha tocou. Uma, duas, três vezes, de forma insistente.
"Ah, Ana, o que será que você esqueceu?", ela pensou, um sorriso exausto em seus lábios.
Hinata se levantou e, com dificuldade, vestiu o roupão. Pegou um dos seus óculos escuros na penteadeira e desceu as escadas. Cada degrau que descia causava mais uma pontada em sua cabeça, e o som da campainha, insistente e autoritário, começava a deixar Hinata preocupada.
— Mō iku ne. (Já vou indo.) — disse, massageando as têmporas enquanto se aproximava do portão fechado.
Assim que abriu o portão, a luz intensa do sol a cegou por um instante. Toda aquela claridade, somada à dor intensa em suas têmporas, fez com que Hinata demorasse um pouco para reconhecer a figura parada em sua frente. Ali, parado em sua frente era ninguém menos do que seu pai, o Senhor Kodama, com um semblante duro e cercado por alguns homens de terno.
— Ohayō goz*imasu, Mizuki. (Bom dia, Mizuki.)
A voz grave do pai a fez congelar. Aquele não era o cumprimento de um pai para uma filha, mas de um superior para uma subordinada. Ela sentiu como se seu coração parasse de bater, como se o tempo tivesse congelado ou como se seu mundo estivesse prestes a desmoronar. Hinata se afastou e abriu espaço para que o Senhor Kodama e toda a sua comitiva entrassem em sua casa.
"O que ele está fazendo aqui?", pensou, a adrenalina começando a suplantar a dor de cabeça.
— O que trouxe o senhor até aqui? — Hinata perguntou em seu idioma natal, sua voz tentando soar calma e controlada.
— Vista-se, Mizuki! Não é adequado conversar vestida tão vulgarmente. — disse o homem, seu olhar de desaprovação varrendo o corpo da filha. Apesar de estar com um roupão, ela realmente não estava vestindo nada por baixo.
— Sim, certamente. Não vou demorar.
Hinata subiu para seu quarto sentindo as batidas do seu coração martelar em sua cabeça com pulsações dolorosas. Trocou de roupa vestindo um de seus ternos de trabalho, um blazer azul-marinho e uma calça de corte reto. Era uma armadura que a fazia se sentir forte, mas, naquele momento, o sabor amargo em sua boca a lembrava de que uma visita inesperada nunca era um bom sinal. "Basta eu explicar a ele de forma eficiente e objetiva que ele deve compreender", ela pensou, tentando se sentir mais confiante.
Ela aproveitou para tomar mais um comprimido para enxaqueca, pois mais do que nunca ela precisava estar totalmente recuperada. Desceu as escadas respirando fundo, e na sala, o Senhor Kodama estava sentado na poltrona, como um rei em seu trono. Hinata se apresentou na frente do homem com uma respeitosa reverência.
— Peço desculpas por fazer o senhor esperar.
O Senhor Kodama tinha uma pasta nas mãos e folheava algumas de suas páginas.
— Perguntarei apenas uma vez, Mizuki, e quero que me responda de forma direta e objetiva.
— Pergunte-me o que quiser, e responderei com sinceridade ao senhor.
— Quem é Ana Ribeiro?
O corpo de Hinata enrijeceu. Ela engoliu em seco ao ouvir o nome de Ana. Ela poderia responder ao menos uma centena de coisas, poderia dizer o quanto Ana significava para ela, poderia dizer que era a mulher que ela amava de todo o coração. Mas ela precisava ser objetiva e profissional, pois era assim que seu pai lidava com qualquer assunto.
— Ana Ribeiro é a nova Gerente do setor de C.A.P da filial do Grupo Kodama no Brasil.
— Diz aqui que ela passou de estagiária para gerente em um piscar de olhos, e diz também que foi por uma indicação da vice-presidente do Grupo Kodama, ou seja, sua.
"Então, Ana é o motivo da visita dele. Preciso tentar mudar o foco dessa conversa", ela pensou, com o raciocínio acelerado.
— Exatamente, eu indiquei a Ana devido às suas habilidades excepcionais, conforme descrevi na carta de recomendação que enviei. Inclusive, Ana foi fundamental para as descobertas na investigação do desvio de dinheiro. O senhor recebeu minhas últimas atualizações sobre o caso?
— ‘Ana foi fundamental’? Lembro-me de ter atribuído tal tarefa à vice-presidente da empresa e não a uma estagiária que mal concluiu seus estudos. Diria, então, que devo oferecer a ela o cargo de CEO? — O tom de voz dele era de puro escárnio.
"Ele não mordeu a isca. Preciso pensar rápido, ah se minha cabeça ao menos não estivesse doendo tanto", Hinata pensou, um sentimento de frustração estava crescendo dentro dela.
— O senhor sempre utilizou todo e qualquer recurso que estivesse ao seu alcance e que fosse benéfico para a empresa, estou correta? Portanto, enquanto Hinata, tenho estado como Diretora Geral dessa filial e precisava de alguém de confiança e que eu sabia não estar envolvida com a fraude para investigar de forma imparcial. Ana foi essa pessoa. Agora, sobre as descobertas recentes, receio que enfim conseguimos uma pista sólida do real culpado. Tais informações eu estava aguardando para serem validadas, porém se o senhor quiser uma atualização prévia, estou à disposição.
— De estagiária a gerente logo após ela mesma ter escrito uma carta de demissão?
"Ele não vai ceder a outro assunto", ela percebeu, a cada pergunta dele, a armadilha se fechava mais.
— Eu mesma conversei com a Ana sobre os acontecimentos que a levaram a pedir demissão e sinalizei o quanto ela era relevante para a empresa e ofereci a ela a possibilidade de retornar se ela assim desejasse.
— Por que toda essa generosidade? Qualquer outro funcionário que desejasse sair da empresa não seria readmitido, ou eu estou enganado?
A paciência de Hinata se esgotou. A emoção que ela tentava suprimir explodiu.
— Ana sofria abusos do seu supervisor, Jorge, juntamente com sua gerente anterior, e ainda assim ela foi a funcionária responsável pelo lançamento de todo o histórico de trans*ções em tempo recorde e sem receber ajuda e nem o devido reconhecimento. Além disso, Ana estabeleceu muitas conexões e enxergou distorções nos padrões que nem eu mesma conseguia identificar. — Seu tom profissional se encheu de emoção. — Ela é fluente em inglês e tem avançado consideravelmente no japonês, e tudo isso estudando por conta própria. Ana é uma jovem de origem humilde e não teve muitas oportunidades tendo nascido em uma cidade tão pequena e, ainda assim, ela é uma garota cheia de sonhos e esperança. Tive muita sorte em conhecê-la e tê-la ao meu lado na empresa.
— "Na empresa"?
— Isso mesmo.
— Antes de iniciarmos nossa conversa, pedi que me respondesse com sinceridade.
— E é exatamente o que estou fazendo.
— Explique-me então o que Ana Ribeiro fazia saindo de sua casa tão cedo hoje?
O silêncio na sala foi esmagador. O ar pareceu ficar mais pesado.
— … — Hinata não soube o que dizer.
— Responda minha pergunta, Mizuki!
— Meu relacionamento com a Ana não tem absolutamente nada a ver com a contratação dela como Gerente.
— Seu “relacionamento"? Isso tem tudo a ver com a promoção dela. O que aconteceu com você? Essa não foi a filha profissional que eu criei. Você ficou aqui apenas com um simples objetivo: encontrar o culpado pelo desvio de dinheiro. Porém, se deixou ser enganada e se envolveu romanticamente com um funcionário e, se isso já não fosse ruim o suficiente, se envolveu com uma mulher. Você manchou a honra da nossa família.
— Eu não fui enganada, meus sentimentos pela Ana são reais. Eu a amo profundamente. — disse Hinata, sua voz começando a ficar embargada e a barreira de controle se desfazendo. — Pode me punir o quanto quiser, mas eu peço ao senhor, não faça nada com a Ana.
— Você não é mais a mesma, Mizuki. Está implorando por uma pessoa qualquer, uma simples funcionária?
— Ela não é uma pessoa qualquer para mim e enquanto estiver aqui, eu sou Hinata Matsuzaki.
— Você é Mizuki Kodama e eu sou seu pai, você vai me obedecer e respeitar como sempre fez.
— Não! Aqui eu aprendi quem eu realmente sou, pude viver de verdade. Quanto ao senhor, o Senhor Kodama sempre foi meu chefe. Me sinto mais acolhida como filha pelos pais de Ana do que pelo senhor.
O Senhor Kodama engoliu em seco ouvindo o que Hinata dizia — Quero que vá para o seu quarto. — disse, dando um sinal para um dos seguranças acompanhá-la. — Quanto a essa Ana, eu já providenciei que ela seja demitida.
— Por favor, não faça isso com ela. Ela não fez nada de errado. — A súplica de Hinata era desesperada.
— Chega, Mizuki!
O celular de Hinata, que estava na mesa de centro, começou a tocar. O nome de Ana em japonês iluminou a tela. O Senhor Kodama esticou a mão, pegou o aparelho e atendeu, colocando o celular no ouvido.
— Amor, você está bem? Não respondeu minhas mens… — A voz de Ana do outro lado da linha, cheia de preocupação, partiu o coração de Hinata.
O Senhor Kodama ouviu e desligou o aparelho.
— Farei com que essa garota desapareça.
—xxx—
Hinata acabou sendo levada para seu quarto, a porta foi fechada e trancada por um dos seguranças de seu pai. A mulher não tinha nada a fazer a não ser chorar. Sentada no canto do seu quarto como um animalzinho encurralado, ela olhava pela janela. Seu peito subia e descia com a respiração ofegante, as lágrimas escorriam por seu rosto sem parar. Foi quando Hinata viu uma movimentação dos seguranças no portão da frente, logo antes de ver sua amada Ana indo embora, uma figura pequena carregando uma caixa de pertences da empresa.
— Ana! — Hinata bateu no vidro da janela, o som fraco em comparação com o desespero de sua alma. — Ana!
Era impossível que a garota pudesse ouvi-la, mas Hinata continuou batendo no vidro e chorando. Do lado de fora do quarto, os funcionários do Senhor Kodama ouviram os gritos desesperados e o choro inconsolável de Hinata, um som que eles nunca esperavam ouvir da vice-presidente que sempre conheceram por ser fria e implacável.
Fim do capítulo
Bom dia! Boa Tarde! Boa noite!
Eu só vou dizer uma coisa, estou sofrendo junto com vocês... :(
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Jsilva
Em: 25/01/2026
Deu ruim de novo! :( chefao sendo chefao . Espero q ana pelo menos entregue as provas do pen drive pra ele . Pq assim talvez né talvez pode ajudar pelo menos a sensibilizar o todo poderoso chefao . Triste e lamentável homen mal amado kodama.parece história de Romeu e Julieta kkk
EmiAlfena
Em: 25/01/2026
Autora da história
Sim, eu fico triste sempre que leio essa parte da história delas.
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EmiAlfena Em: 26/01/2026 Autora da história
Ele é difícil