Minha enfermeira
Quando abri os olhos, estava rodeada por muitos rostos. Alguns eram conhecidos: dona Sandra e seu esposo, Jaime - os pais de Joyce - e também Lívia, que aparentemente era minha vizinha. A luz parecia forte demais, e minha cabeça latej*v* como se tivesse sido apertada por dentro.
- O que houve? - perguntei, com a voz fraca e estranha aos meus próprios ouvidos.
- Você desmaiou - respondeu Lívia, rápido demais. - Estava ardendo em febre. Se Joyce não tivesse ido à sua casa... só Deus sabe o que teria acontecido.
Virei o rosto devagar e encontrei dona Sandra me observando com um olhar carregado de preocupação, quase materno, como se aquela cena despertasse nela um medo antigo, desses que não se explicam em palavras.
- Desculpe preocupá-los - murmurei. - Já estou me sentindo melhor.
Era mentira. Mas era o tipo de mentira que a gente conta para tentar retomar algum controle.
Seu Jaime se aproximou então. Até aquele momento, eu o conhecia apenas como um homem gentil e silencioso. Só ali descobri que ele era um dos médicos da cidade. Seus gestos eram calmos, experientes. Ele aferiu minha temperatura, olhou meus olhos, escutou minha respiração com atenção cuidadosa demais para ser casual.
- Você já havia sentido tontura antes de anteontem? - perguntou.
- Um pouco... - admiti, desviando o olhar.
- Quando foi a última vez que fez exames?
Hesitei.
- Há um ano. Não tive tempo de ir ao médico...
Ele suspirou, não de reprovação, mas de preocupação genuína.
- Não pode negligenciar a saúde desse jeito. Corpo nenhum aguenta ser ignorado por tanto tempo. Vou te passar alguns exames, mas, acima de tudo, você vai precisar ficar de repouso.
Repouso.
A palavra soou quase ofensiva dentro de mim.
Antes que eu pudesse protestar, senti um peso leve sobre a minha mão. Olhei para o lado. Joyce estava ali, sentada perto demais, segurando seus dedos com firmeza silenciosa. Não havia desafio em seu olhar agora. Só uma determinação calma, quase feroz.
- Eu não posso ficar de repouso agora - disse, tentando me sentar melhor na cama. - Ficarei assim que as contratações estiverem terminadas, quando a estrada ficar pronta e as rotas finalmente puderem ser feitas sem preocupações.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas denso.
- Isso é vício em trabalho - a voz de Joyce entrou no quarto como um trovão - ou é arrogância demais ao ponto de você não confiar em mim e nos outros encarregados?
A pergunta não veio como ataque gratuito. Veio afiada, precisa, mirando direto onde doía.
No mesmo instante, seus pais se entreolharam. Dona Sandra foi a primeira a se mover, ajeitando a bolsa no braço como quem entende exatamente quando não é mais lugar de ficar.
- Aqui estão os pedidos de exame - disse seu Jaime, estendendo os papéis. - Aguardo sua presença no hospital para a realização deles. E recomendo, com bastante clareza, que fique de repouso por três dias para que seu corpo se recupere. Boa noite.
- Boa noite, Laura - completou dona Sandra com suavidade. - Amanhã venho ver como você está.
Lívia, percebendo a tensão quase palpável no ar, também se levantou.
- Qualquer coisa é só chamar - disse antes de sair, fechando a porta com cuidado excessivo.
Ficamos sozinhas.
O silêncio agora não era educado. Era carregado.
Joyce cruzou os braços, apoiada na parede, me observando como se eu fosse um problema complexo demais para ser resolvido com planilhas ou decisões rápidas.
- Você não é a única responsável por tudo - disse, mais baixa agora, mas ainda firme. - Liderar não é carregar o mundo sozinha até ele te esmagar.
Engoli em seco. Não tinha resposta pronta. Não tinha argumento técnico. Só um cansaço profundo que finalmente havia sido exposto.
- Eu sei delegar - respondi, mesmo sem convicção.
Ela deu um meio sorriso que não tinha humor algum.
- Sabe sim. Só não sabe parar.
Sentou-se na beira da cama, perto o bastante para que eu sentisse novamente aquela presença que desorganizava tudo.
- Dessa vez - continuou -, você vai ter que confiar. Em mim. Na equipe. Na cidade inteira, se for preciso.
Olhei para os papéis dos exames na minha mão. Depois para ela. De repente a ideia de não estar no controle absoluto não me pareceu uma ameaça.
Depois de me desmontar, ela saiu sem se despedir ou dizer qualquer outra coisa. A breve discussão deixou minha cabeça girando. Deitei-me e tentei dormir, torcendo para acordar melhor.
Joyce voltou cerca de uma hora depois. Entrou na minha casa e no meu quarto do mesmo jeito que entrava na minha mente: sem pedir licença. Aquilo me pegou de surpresa e me irritou.
- O que você quer agora?
- Toma. Minha mãe fez pra você. Come antes de dormir.
Ela colocou uma tigela de sopa nas minhas mãos, depois deixou um copo de água e o remédio que o pai havia receitado sobre o criado-mudo e saiu.
Minha mãe costumava dizer que o jeito mais fácil de alguém me assassinar seria usando veneno, porque eu nunca recusava comida. Eu deveria ter me abstido de comer. Afinal, a sopa havia sido entregue por Joyce, e eu realmente não conseguia entender quais eram suas intenções.
Mas a sopa estava com um cheiro tão bom...
Não resisti a dar a primeira colherada. Depois que senti o gosto, não houve mais volta. Ignorei qualquer bom senso e continuei comendo.
Infelizmente, aquela maravilha culinária deixou meu corpo minutos depois. O enjoo veio e ficou. Dessa vez, tive que admitir: eu não estava nada bem.
Apesar de adulta, quando fico doente só quero a minha mãe.
Depois de tomar o remédio, peguei o celular e liguei para casa. Meu pai atendeu no primeiro toque.
- Oi, filha!
- Oi, papai... Cadê a mamãe?
- Está no banho. Por que você não ligou quando chegou na cidade nova?
- Desculpa... eu estive muito ocupada.
- Que voz é essa? Você está bem?
- Não me sinto muito bem.
- Entendi. Vou passar o celular pra sua mãe. E, se precisar, é só ligar pro pai que eu corro até aí. Beijo, minha princesa.
Sim, eu era a menininha do papai. Me julguem.
Minha mãe atendeu o telefone me dando a mesma bronca que ele por eu não ter ligado. Mas, quando contei que estava doente, o tom mudou
- Mamãe... eu estou doente.
- O que você está sentindo? Já foi ao médico? Eu sabia que você não devia ter ido pra tão longe da gente.
- Estou com febre, tonta e enjoada.
- Você pegou chuva, Laura? Sempre que pega chuva acaba resfriada.
- Eu não tive escolha. Não dava pra evitar. E... desta vez me sinto pior do que nas outras.
- Seu sistema imunológico deve estar muito baixo. Aposto que não está se alimentando direito. Você precisa cuidar do corpo, não só trabalhar.
O sermão começava a soar familiar demais. Era praticamente o mesmo discurso que eu tinha ouvido horas antes de Joyce e de seus pais.
Joyce.
Que inferno.
Só de pensar nela, senti a irritação subir outra vez, misturada a um cansaço que não era apenas físico. - Laura? Você está me ouvindo?
- Oi, mamãe. Estou, sim.
- Quero que você vá ao médico.
- Ele já me examinou. Vou fazer alguns exames amanhã.
- Ótimo. Então fique de repouso e tome os remédios direitinho. Mesmo enjoada, tente comer alguma coisa. Doces sempre funcionaram bem com você.
- Tá bom...
- E se precisar de qualquer coisa, ou se se sentir sozinha, me ligue. A qualquer hora.
Houve uma breve pausa do outro lado da linha.
- E, se quiser voltar pra casa, nós estamos aqui. Nós estaremos de braços abertos pra te receber. E filha ... Ela ainda pergunta por você. Sente sua falta.
Pronto. Lá estava. Mais uma tentativa da minha mãe de me fazer falar sobre um assunto que, para mim, estava morto e enterrado. Para minha sorte, a casa foi novamente invadida por Joyce antes que eu precisasse ser ríspida. Sempre que meus pais tocavam naquele assunto, eu sentia uma mistura sufocante de ansiedade e tristeza. A presença de Joyce só tornava tudo pior.
- Invadiu minha casa só pra ficar me encarando?
Ela fez uma breve pausa antes de completar, com um meio sorriso provocador:
- Quem diria que a toda poderosa Laura é a princesinha do papai e da mamãe.
- Parece que nem na minha própria casa eu mando mais - resmunguei.
Levantei da cama decidida a expulsá-la e trancar não apenas a porta da frente, mas qualquer outra porta, janela ou portinhola por onde ela pudesse entrar novamente. Não consegui dar dois passos. Minha cabeça girou, o chão pareceu se afastar, e as forças simplesmente me abandonaram.
Em um movimento rápido, ela me segurou pela cintura.
- Quão doente você precisa estar pra ficar na porcaria da cama? Você está ardendo em febre.
Sem esperar resposta, me conduziu até o banheiro. Naquele ponto eu já não tinha forças para lutar. Apenas aceitei. Deixei que tirasse minhas roupas e entrasse comigo debaixo do chuveiro. A água quente escorria enquanto minha mente tentava se manter lúcida. Provavelmente eu estava delirando, porque os olhos dela não pareciam mais castanhos cor de mel. Naquele instante, eram dourados como âmbar. E eu me perdi neles sem perceber.
Depois do banho, ela começou a me secar lentamente, evitando a todo custo olhar para o meu rosto. Parecia fugir dos meus olhos.Já vestida, ela foi até a cozinha e voltou com um copo de água e o remédio.
- Tome o remédio e durma. Se tentar se levantar de novo, vou te amarrar na cama.
- Obrigada...
- Não me agradeça. Apenas melhore logo. Temos muito trabalho pra fazer.
Ela saiu do quarto levando um dos meus cobertores consigo. O gesto deixou claro que passaria a noite no sofá. A noite foi longa. Tive sonhos vívidos com alguém que eu fingia não existir, mas que, no fundo, eu ansiava e desejava manter por perto. Talvez esse fosse um dos motivos para a febre ter continuado, apesar da medicação.
Pela manhã, bem cedo, Joyce me colocou no carro e me levou ao hospital. Ao chegarmos, antes mesmo que eu pudesse abrir a boca, ela fez um relato detalhado do meu estado de saúde. Doutor Jaime me examinou novamente. Sugeriu internação, pois, apesar de os exames ainda levarem algum tempo para ficarem prontos, pela experiência dele havia grande chance de eu estar com uma infecção bacteriana no sangue, cujo tratamento exigia medicação intravenosa.
Apesar de todos os meus protestos, a fraqueza generalizada acabou me convencendo de que era melhor ficar ali do que ter Joyce como enfermeira novamente.
- O senhor tem certeza de que não posso me tratar em casa?
- Tenho. Além de a medicação ser muito forte, não é seguro que você fique sozinha.
- Entendo...
Fui levada a um quarto particular, onde a medicação foi iniciada quase imediatamente. O soro pingava num ritmo constante, como se marcasse o tempo que eu insistia em ignorar.
Liguei para meu chefe, expliquei a situação e garanti que continuaria trabalhando online. Joyce havia saído para buscar algumas coisas de que eu precisava e retornou enquanto eu falava com o encarregado de transportes sobre os caminhões que chegariam na semana seguinte.
Ao erguer os olhos e encontrá-la parada à porta, tive novamente aquela impressão estranha. Seus olhos pareciam mudar de cor - não era apenas a luz do hospital. Havia algo ali, uma mistura de preocupação contida e algo mais profundo, algo que me desconcertava mais do que a própria internação.
Automaticamente desliguei o telefone, como se o olhar dela fosse capaz de controlar meus gestos.
- Qual é o seu problema? Vai ser preciso pedir ao meu pai que te sede?
- Não exagere! Eu estou apenas...
- Me dê os seus celulares.
- Por quê?
- Me dê logo!
Entreguei os aparelhos. Ela os colocou na bolsa sem a menor cerimônia e, em troca, me empurrou uma pilha de livros contra o peito.
- Leia. Descanse. Fique quieta por pelo menos cinco minutos sem tentar salvar o mundo.
Fiquei encarando os livros, atônita, enquanto ela puxava a cadeira e se sentava ao lado da cama como se aquilo fosse o lugar dela desde sempre. O gesto simples, quase doméstico, me irritou mais do que qualquer discussão anterior.
Eu estava internada, presa a um soro, com o trabalho sendo temporariamente arrancado das minhas mãos... e, ainda assim, era Joyce quem parecia no controle da situação. Não preciso de vigilância. Se quer mesmo que eu fique aqui, preciso que você tome conta das coisas no CD.
- Irei assim que tiver certeza de que você não vai se matar fazendo algo estúpido, como fugir do hospital!
- Você é sempre irritante e controladora?
- Te pergunto o mesmo!
Ela suspirou, passando a mão pelos cabelos ainda úmidos, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as próximas palavras.
- Olha... eu sei que é difícil estar vulnerável em meio a estranhos. Perder o controle assusta. Mas acredita em mim quando eu digo: ninguém aqui quer te tirar nada. Só queremos que você se recupere.
O tom mais baixo, quase cuidadoso, me pegou desprevenida. Não havia desafio ali, nem ironia. Apenas uma franqueza crua, desarmada. Seus olhos - novamente castanhos, comuns, humanos - não fugiam dos meus, mas também não invadiam.
Por fim, me deixei vencer pelo peso dos remédios. Dormi por doze horas seguidas, um sono denso, sem sonhos, como se meu corpo tivesse finalmente exigido pagamento por todos os excessos acumulados.
Enquanto eu dormia, o prefeito cumpriu a promessa de não deixar passar a minha "afronta". Entrou com uma liminar paralisando as obras, alegando uso indevido de bens públicos. Quando acordei e recebi a notícia, senti mais frustração do que raiva. A estrada, os caminhões, os empregos... tudo suspenso por vaidade política.
Fim do capítulo
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Luciane Ribeiro Em: 01/03/2026 Autora da história
Oi obrigada por ler e comentar .Grande abraço