A noite na cabana
O velho não perdeu tempo. Trouxe toalhas secas para nós duas e, em seguida, colocou mais lenha na lareira. O fogo estalou quase imediatamente, espalhando um calor reconfortante pela sala simples e acolhedora.
- Estou sendo muito abençoado hoje - disse ele, sorrindo com evidente satisfação. - Minhas netas favoritas vieram me visitar.
Joyce soltou uma risada curta, enquanto se enxugava.
- A Santi veio ver o senhor? - perguntou ela.
- Veio, sim - respondeu ele, animado. - Mas ainda era dia... e ela não estava encharcada como peixe de rio.
Não consegui conter um leve sorriso. A imagem era precisa demais para ser ignorada.
Enquanto o avô se afastava em direção à cozinha, provavelmente em busca de algo quente para nos oferecer, fiquei ali parada por um instante, sentindo o calor da lareira começar a vencer o frio grudado na pele. Joyce estava diferente naquele ambiente - menos defensiva, mais inteira - como se aquela casa revelasse uma versão dela que o galpão, a estrada e a chuva não permitiam existir.
E eu, ainda envolta na toalha, tive a estranha certeza de que aquela noite continuaria me surpreendendo.
Ele voltou trazendo duas canecas fumegantes de chocolate quente. O primeiro gole me levou de volta à infância, às noites frias em que tudo parecia mais simples e seguro. O sabor doce e denso me aqueceu por dentro antes mesmo de alcançar as mãos.
Em seguida, ele apareceu com duas camisolas dobradas com cuidado.
- Eram da minha esposa - disse, com naturalidade, como se estivesse falando de algo cotidiano.
Por um instante, me senti desconfortável. Havia ali uma intimidade silenciosa, uma memória que não me pertencia. Ainda assim, vestir aquelas roupas era infinitamente melhor do que continuar com as minhas, frias e grudadas ao corpo.
- Eu ficaria para conversar mais um pouco - continuou ele, bocejando levemente -, mas o horário já não é compatível para socializar na minha idade.
Apontou o corredor com o queixo.
- Você conhece a casa e sabe onde fica tudo, Joy. Ajude sua amiga a se esquentar e pegue os cobertores mais grossos. Ela parece ser alguém que precisa de muito calor.
Senti meu rosto aquecer de um jeito que nada tinha a ver com a lareira.
- Vejo vocês pela manhã.
- Obrigada, vovô - respondeu Joyce, com carinho.
Ele deu um beijo em sua testa e se afastou devagar, deixando-nos sozinhas na sala, apenas com o estalar da lenha queimando e o peso curioso daquela frase ecoando no ar.
Muito calor.
Não soube dizer se ele falava do frio da noite...
ou de algo que eu mesma ainda não tinha coragem de nomear.
Você pode usar o banheiro ali para tomar um banho e trocar de roupa - disse Joyce, apontando o corredor. - Eu vou logo depois.
O banho foi longo. A água quente caiu sobre mim de forma reconfortante, levando embora o frio, a lama e parte da tensão acumulada desde o início do dia. Por alguns minutos, deixei a mente vazia, apenas sentindo o vapor preencher o pequeno espaço e relaxar músculos que eu nem sabia que estavam tão rígidos.
Quando saí, já vestida com a camisola macia demais para ser ignorada, encontrei Joyce na sala. Ela segurava um copo com um líquido âmbar que parecia uísque e observava alguns porta-retratos apoiados sobre a lareira. O fogo iluminava seu perfil de maneira suave, quase íntima.
Aproximei-me em silêncio.
Ela percebeu minha presença e ergueu o olhar. Não havia ali o desafio de antes, nem a postura defensiva que eu já começava a reconhecer. Seu olhar era diferente - carinhoso, aberto, quase esperançoso. Como se, naquele instante suspenso, ela aguardasse algo bom acontecer.
Não soube o que dizer.
Fiquei ali, parada, sentindo o calor da lareira, da camisola e daquele olhar se misturarem de um jeito que me deixou estranhamente vulnerável.
Às vezes, o silêncio não é ausência.
É convite.
Tentei quebrar o gelo comentando sobre os porta-retratos. Uma das crianças nas fotos me pareceu estranhamente familiar, mas atribuí a sensação ao fato de todas se parecerem um pouco com ela.
- Esses são meus primos - explicou Joyce, acompanhando meu olhar. - Apesar de já sermos todos adultos, vovô gosta de manter as fotos de quando éramos crianças.
- Acho que todos os avós são assim...
Ela esboçou um meio sorriso, breve, antes de dar um gole no copo.
- Vou tomar banho. Você pode ir para o quarto de hóspedes e se deitar, se quiser. É a terceira porta.
- Obrigada.
Peguei um dos cobertores grossos dobrados sobre a poltrona e segui pelo corredor. A casa rangia de leve, como se respirasse junto comigo. Abri a terceira porta e encontrei um quarto simples, mas acolhedor. A cama parecia convidativa demais depois de tudo o que havia acontecido naquela noite.
Deixei o cobertor sobre a cama e me sentei por um instante, sentindo o cansaço finalmente me alcançar. Eu só queria dormir. Precisava dormir. Me afastar daquela sensação incômoda de vulnerabilidade que insistia em se instalar no peito desde o momento em que nossos olhares se cruzaram diante da lareira.
Deitei-me, puxei o cobertor até os ombros e fechei os olhos, tentando convencer o corpo de que ali era seguro.
Mas, mesmo no silêncio do quarto, minha mente continuava desperta.
Começava a cochilar quando ela entrou no quarto. Pelo reflexo do grande espelho em frente à cama, pude ver seus cabelos longos e castanhos agora soltos, caindo pelos ombros, e a camisola que nela parecia menos "vovó" do que em mim, transformando-a em alguém quase irreconhecível. Havia ali uma Joyce diferente da mulher desafiadora do trabalho.
No fundo, eu rezava para que ela resolvesse ficar no sofá da sala. Mas sabia que ela não era do tipo que abriria mão do conforto numa noite fria e chuvosa por causa da sua "chefe".
Fingi já estar dormindo.
Ela se aproximou com cuidado, como se cada passo fosse calculado para não quebrar algo frágil. O colchão afundou levemente quando se deitou ao meu lado. Prendi a respiração por um instante, traindo meu próprio fingimento.
Senti o cheiro suave da sua pele, misturado ao perfume discreto do cabelo ainda úmido do banho. Era um aroma quente, inesperadamente íntimo. Meu corpo reagiu antes que a razão pudesse intervir, e precisei me concentrar para manter a respiração lenta, regular, convincente.
Ela se acomodou devagar, puxando o cobertor até o peito. Por alguns segundos, tudo ficou em silêncio, exceto pela chuva insistente lá fora e pelo som quase imperceptível da sua respiração.
Era só uma cama. Só uma noite.
Mas nada ali parecia simples.
Ela logo adormeceu. A respiração ficou profunda, ritmada, como se o corpo dela tivesse finalmente desistido de lutar contra o cansaço. Eu, no entanto, demorei a pegar no sono. Tudo ali era estranho demais para permitir descanso imediato. A casa que não era minha, a chuva castigando o telhado, o cheiro de lenha queimando ainda preso às roupas... e a sensação incômoda de ter uma "estranha" dividindo a mesma cama.
Meu corpo permanecia tenso, alerta, como se estivesse violando alguma regra invisível. Fechei os olhos várias vezes, tentando convencer a mente de que aquilo era apenas circunstancial, apenas uma noite mal planejada. Ainda assim, o sono se esquivava.
Em algum ponto da madrugada, sem que eu percebesse exatamente quando, minha tremedeira inconsciente cessou. O frio que insistia em se infiltrar sob o cobertor desapareceu ao sentir uma fonte de calor me envolver com delicadeza. Um braço firme, quase protetor, passou ao redor da minha cintura, puxando-me para mais perto.
Meu corpo reagiu antes do pensamento. A respiração falhou por um segundo, o coração acelerou, mas logo algo cedeu. O abraço não tinha urgência, nem malícia. Era instintivo, carinhoso, como se ela estivesse tentando afastar o frio mesmo dormindo.
E, envolta naquele calor inesperado, o sono finalmente me encontrou.
Acordei sozinha na cama. O espaço ao meu lado estava vazio e já frio, como se nada tivesse acontecido durante a noite. Ainda assim, meu corpo guardava a memória daquele calor. Uma parte de mim, mesmo relutante em admitir, tinha gostado - e muito - daquele abraço. A constatação me irritou. Não queria aceitar que aquela mulher tivesse o poder de alterar a química do meu cérebro com algo tão simples quanto um gesto inconsciente.
Afastei o pensamento antes que ele criasse raízes.
Levantei-me da cama, talvez rápido demais. O quarto girou por um instante e senti uma leve tontura, breve, mas suficiente para me obrigar a apoiar a mão na beirada do colchão. Respirei fundo até o equilíbrio voltar. Não era nada, eu disse a mim mesma. Não tinha tempo para me preocupar com isso.
Precisava ir trabalhar.
Saí do quarto dividida entre coragem e receio. Encontrei Joyce conversando animadamente com o avô na cozinha, como se a noite tivesse sido apenas um detalhe irrelevante. Ele abriu um sorriso largo ao me ver e não perdeu tempo em colocar uma grande xícara de café nas minhas mãos.
- Bom dia, moça bonita! Dormiu bem? Joy costumava ter um sono agitado quando criança. Espero que não tenha atrapalhado o seu sono.
O comentário fez meu estômago revirar de um jeito estranho, mas mantive a postura.
- Está tudo bem - respondi, levando a xícara aos lábios. - Dormi tão profundamente que não sentiria nada, mesmo que ela me jogasse para fora da cama.
Joyce me encarou por um segundo a mais do que o necessário e, em seguida, soltou uma risada sarcástica, baixa, carregada de algo que eu não consegui identificar de imediato. Aquela risada foi suficiente para me irritar profundamente, como se tivesse atravessado uma fronteira invisível.
De repente, tudo o que eu queria era estar o mais longe possível dela.
Agradeço muito a hospitalidade do senhor, mas preciso ir - disse, já me levantando, com a sensação incômoda de que cada minuto ali me afastava da normalidade.
Joyce foi mais rápida.
- Sinto muito, "chefe", mas vai ter que esperar um pouco.
Franzi a testa, impaciente.
- Como assim?
- A chuva constante durante a noite deixou a estrada impossível de caminhar - explicou, com uma calma que me irritou. - Não conseguiríamos nem chegar até o carro.
Olhei pela janela e, só então, percebi o estrago. O chão ao redor da casa estava tomado por lama, e a trilha que havíamos feito na noite anterior parecia ter sido engolida pela água.
- Estamos presas aqui? - perguntei, sem conseguir esconder o desconforto.
- Se acalme - Joyce respondeu, num tom surpreendentemente tranquilo. - Já pedi ajuda. Meu primo vem com a caminhonete para nos buscar e rebocar o carro.
Antes que eu pudesse retrucar, o avô interveio, sorridente, como se a situação fosse apenas um pequeno contratempo.
- Fica tranquila, moça. O Rique vai chegar logo. Termine seu café enquanto mata a curiosidade desse velho aqui... - ele riu, sentando-se à mesa - ...sobre o que vocês fazem naquele lugar gigante.
Suspirei, vencida momentaneamente. Sentei-me novamente, envolvendo a xícara quente com as duas mãos. Talvez não houvesse saída imediata, mas havia algo naquela pausa forçada que me deixava inquieta. Não era a estrada, nem a lama, nem o atraso no trabalho.
Era Joyce.
E o incômodo crescente de perceber que, contra a minha vontade, aquela mulher já ocupava espaço demais nos meus pensamentos.
Vovô... eu já expliquei isso ao senhor - Joyce disse, com um leve suspiro impaciente. - Nós recebemos todo o material da linha de produção da fábrica, separamos e enviamos para as lojas e outros CDs por todo o estado.
Ele fez um gesto com a mão, como quem afasta uma explicação óbvia demais.
- Eu sei o que você faz, minha neta. O que eu quero saber é o que ela faz - disse, apontando para mim com curiosidade genuína. - Já que é sua chefe.
Senti os dois pares de olhos sobre mim. Endireitei a postura, como se estivesse prestes a iniciar uma reunião formal, ainda que estivesse de camisola emprestada e com o cabelo preso de qualquer jeito.
- Sou supervisora de operações - respondi. - Meu trabalho é garantir que tudo funcione como deve funcionar. Prazos, rotas, equipe, segurança... se algo sai do eixo, a responsabilidade é minha.
O velho sorriu, satisfeito.
- Então é você quem carrega o peso todo nas costas.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Joyce se intrometeu, num tom que misturava ironia e algo mais suave.
- Viu só? Eu disse que ela não para nem fora do trabalho.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar um leve sorriso. Talvez aquele lugar, aquela casa escondida no meio do nada, estivesse começando a revelar mais do que apenas estradas enlameadas e imprevistos.
Tome - disse ele, estendendo algo na minha direção. - Um pequeno suborno... e também uma recompensa antecipada por todo o trabalho que sei que a Joy ainda vai lhe dar.
Era um pacote grande de doces. Grande mesmo. Olhei para aquilo confusa e, contra a minha vontade, um pouco contente. Segurei o embrulho como quem recebe algo inesperadamente precioso.
- Vovô... - Joyce reclamou, cruzando os braços. - Eu que sou sua neta, sabia?
Ele riu, tranquilo, como se já esperasse aquela reação.
- Joy, eu te conheço. Considerando que sua chefe estava te levando para casa, posso deduzir que você estava sendo... você no trabalho e acabou se machucando. - Ele voltou o olhar para mim, com uma expressão cúmplice. - Estou errado, Laurinha?
- Não, senhor... - respondi automaticamente.
Só depois percebi.
Laurinha.
Quando foi que nos tornamos próximos o suficiente para aquele diminutivo não me incomodar? Pelo contrário, havia algo estranhamente acolhedor nele, como se eu fizesse parte daquele cenário há mais tempo do que realmente fazia.
Joyce me lançou um olhar enviesado, difícil de decifrar. Não era desafio. Não era deboche. Era outra coisa. Algo silencioso, suspenso no ar, assim como aquela manhã que insistia em me manter ali
A conversa foi interrompida pela chegada de Henrique. O primo de Joyce parecia seu irmão de tão parecido com ela, a mesma estatura, os mesmos traços fortes, apenas suavizados por uma expressão mais fechada. Ele me cumprimentou de forma séria e respeitosa, quase formal demais para alguém em um ambiente tão doméstico.
- Bom dia - disse, com um leve aceno de cabeça.
Só mais tarde entendi o motivo daquela seriedade. Henrique não estava ali apenas como primo prestativo ou neto solícito. Ele também era um dos novos motoristas contratados do centro de distribuição. Ou seja, além de primo de Joyce, ele era meu subordinado.
O avô observava a cena com atenção silenciosa, claramente se divertindo com aquela mistura improvável de laços familiares e hierarquias profissionais.
- Então é você a chefe que anda deixando todo mundo tenso - comentou ele, rindo. - Fico mais tranquilo sabendo que está em boas mãos.
Joyce revirou os olhos, mas havia um sorriso discreto no canto da boca. Henrique, por sua vez, manteve a postura impecável, como se já estivesse em horário de expediente.
Aquela cidade pequena tinha um talento especial para embaralhar limites. Trabalho e vida pessoal se misturavam de um jeito inevitável, e eu começava a perceber que fugir disso seria inútil.Ainda assim, havia algo curiosamente reconfortante em não ser apenas "a supervisora" ali. Nem que fosse por alguns instantes, eu era apenas Laurinha, segurando um pacote de doces, tentando entender em que ponto aquela história tinha começado a ganhar outro rumo.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 22/01/2026
Laurinha já está na intimidade e mesmo não querendo admitir está gostando disse....e nem reclamou do abraço que fez ela relaxar e dormir aquecida...
Já ansiosa pra ver como vai ser essa relação
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Zanja45
Em: 21/01/2026
Para quem não conseguia dormir um abraço mudou tudo. — Quero ver como vai transitar essa relação entre chefe e subordinada?
Luciane Ribeiro
Em: 22/01/2026
Autora da história
Elas estão relutantemente se aproximando.Será que vão conseguir ceder uma a outra facolmente ,ou será uma batalha pra ver quem admite primeiro?
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Luciane Ribeiro Em: 22/01/2026 Autora da história
Um abraço quentinho em uma noite fria.Dificil ateesmo pra ela resistir.