Nova cidade
Era estranho estar frente a frente com ela depois da nossa última briga - aquela que trouxe à tona o pior de nós duas. Usamos gestos e palavras sem pensar no impacto que teriam. Em nenhum momento paramos para considerar o quanto iriam nos ferir. Nos despedimos entre lágrimas, com os corações em pedaços. Doía admitir que só o amor não bastava para nos manter juntas.
Acreditei que aquela seria a última vez que a veria e jamais imaginei que a despedida pudesse doer tanto. Ainda assim, eu sabia que precisava ser assim. Seguimos caminhos diferentes, em cidades diferentes e até em países diferentes. Anos se passaram depois daquela noite e, durante todo esse tempo, não houve qualquer contato entre nós.
Eu havia conquistado tudo o que desejava. Ainda assim, o vazio dentro de mim clamava por ela, implorando para ser preenchido. Nunca passou pela minha cabeça que nos reencontraríamos ali, em uma cidade que poucos sequer tinham ouvido falar.
Para muitos, aquele seria apenas um domingo comum. Para mim, no entanto, marcava o início de uma nova vida. Para ser sincera, aquele não era o meu tipo de lugar. Estava longe das praias e do meu querido pagode de Madureira. Se pudesse escolher, jamais teria saído da Cidade Maravilhosa. Mas eu precisava pensar no que era melhor para a minha carreira. A mudança era necessária após a recente promoção no trabalho.
Ao me aproximar da cidade, avistei o novo e moderno galpão do Centro de Distribuição da fábrica de medicamentos, onde assumiria meu novo posto como supervisora de operações. Apesar de ser uma cidade de pequeno porte, o emaranhado de ruas e becos me fez demorar a encontrar a casa que havia alugado, com contrato de um ano. Eu acreditava que aquele tempo seria suficiente para provar meu valor e conquistar uma transferência para uma cidade maior, assim como um cargo mais alto.
Uma mulher sorridente, na casa dos sessenta anos, acompanhada de um senhor igualmente simpático, veio me receber.
- Seja bem-vinda à cidade, Laura. Espero que se adapte e seja muito feliz aqui, como nós somos. Não é, querido?
- Sim, coração!
- Obrigada - respondi.
- Aqui estão suas chaves. Se quiser ajuda para desempacotar, podemos chamar nossa filha. Ela é ótima com mudanças. Acabou de voltar para a cidade depois de muitos anos morando no Rio de Janeiro.
- Acho que vocês vão se dar bem - completou ela. - Terão muito assunto, afinal, você também veio de lá.
- Agradeço a gentileza, mas não tenho muitas coisas. Aos poucos consigo organizar tudo.
- Entendo. De qualquer forma, anotei o número dela junto com o nosso e deixei na pia da cozinha. Se precisar de qualquer coisa, é só ligar.
- Obrigada.
- Ah, também deixei o contato do restaurante e de alguns serviços básicos. Até logo. Tenha um bom dia.
- Bom dia para vocês também.
Será que todas as pessoas daquela cidade eram falantes e receptivas como aquele casal?
A casa estava exatamente como nas fotos, o que me deixou aliviada. Passei semanas tentando escolher um lugar, sem sucesso, até que a encarregada do Centro de Distribuição comentou sobre aquela casa. Os donos não costumavam alugar, mas, por serem conhecidos dela, aceitaram. Confesso que, ao ver as fotos, tive medo de ser um golpe. Pelo tamanho, o valor cobrado era muito abaixo do que eu estava acostumada no Rio.
Havia um gramado na frente, um muro baixo de pedras e, ao lado, uma garagem com acesso direto ao interior da casa. Por dentro, as paredes em tom palha contrastavam com o piso marrom escuro. Eram dois quartos: um deles suíte; o outro, um pouco menor, mas bastante espaçoso, serviria como escritório. A cozinha misturava o clássico com o moderno, aconchegante e no tamanho ideal para uma pessoa sozinha ou uma família pequena.
Nos fundos da casa estava o verdadeiro motivo de eu ter me interessado pelo lugar: a vista para o lago. Bastou olhar para ele para sentir uma paz que eu não experimentava há anos.
Depois de desempacotar as coisas mais importantes, peguei uma cadeira e me sentei em frente ao lago para admirar o pôr do sol, que se despedia lentamente atrás das montanhas. O céu se tingia de tons quentes enquanto o silêncio ao redor parecia respeitar aquele momento.
Quando a noite caiu por completo, notei uma luz solitária do outro lado do lago, brilhando em meio à escuridão. A visão despertou em mim um pensamento inevitável: quão solitário deveria ser morar naquela casa tão isolada. Ainda assim, havia algo naquela luz que me prendeu o olhar por longos minutos.
Fiquei ali observando o lago até a lua se erguer alta no céu. Naquela noite, tive sonhos estranhos e confusos com uma mulher de olhos misteriosos, da cor de âmbar. Acordei com a sensação incômoda de que aquelas imagens não eram apenas fruto do acaso.
Na manhã seguinte, decidi tomar o café da manhã em uma das padarias da cidade. Caminhei devagar pelas ruas, observando os moradores que me espiavam com curiosidade. Ao entrar na padaria, pedi um cappuccino e me sentei em uma mesa com vista para a praça. Alguns segundos depois de começar a me deliciar com um pão de queijo ainda quente, uma mulher se sentou à minha frente sem sequer pedir licença.
- Bom dia.
- Bom dia - respondi, surpresa. - Posso ajudar?
- Na verdade, meus pais acreditam que eu devo ajudar você. Meu nome é Joyce. Sou a filha dos proprietários da casa que você alugou.
Seus olhos castanhos claro, intensos, e seu jeito levemente feroz me deixaram desconcertada.
Depois de recuperar a compostura, respondi com a mesma firmeza com que ela havia se apresentado.
- Meu nome é Laura. Agradeço a gentileza dos seus pais, mas, como já disse a eles, não preciso de ajuda.
- Bem, você é quem sabe. De qualquer forma, creio que nos veremos bastante a partir de agora, chefe.
Ela se levantou e saiu, deixando-me surpresa e levemente desgostosa. A palavra chefe ecoava na minha mente.
Ao voltar para casa, participei de uma reunião on-line com meu chefe e com o RH da central para tratar das novas contratações. Percorri as fichas dos funcionários até encontrar o nome que me causou um aperto imediato no estômago.
Joyce Lions.
Encarregada de Logística.
Minha subordinada direta.
Passei a tarde inteira pensando nela. Para me distrair, abri uma cerveja e me sentei novamente em frente ao lago. A noite estava diferente. O céu, encoberto, refletia o mesmo caos que habitava minha mente.
Na manhã seguinte, acordei cedo, peguei a maior garrafa de café que encontrei e fui trabalhar. Fiz uma checagem completa de cada setor e me apresentei à equipe. Por volta das oito horas, ela chegou. Pelo menos era pontual. Com o passar do dia, seu profissionalismo se revelou incontestável, embora os olhares desafiadores continuassem.
Ao fim do expediente, dispensei todos mais cedo. Permaneci sozinha no galpão. Havia documentos para assinar e o sistema de transporte estava um caos. Sabia que sairia tarde.
Enquanto analisava o programa de roteirização, um barulho alto ecoou vindo de um dos depósitos. Levantei-me imediatamente e segui em direção ao som. O silêncio havia retornado quando ouvi uma voz rouca e inconfundível.
Era Joyce.
Abri a porta e a encontrei caída ao lado de um dos paletes. Pelo jeito, havia tentado subir sozinha.
- Minha nossa! O que aconteceu?
- Não foi nada - respondeu. - Apenas me desequilibrei enquanto tentava retirar a lona.
- Você está sangrando. Venha comigo.
Ela se sentou, encolhida, observando o sangue escorrer pela perna direita. Peguei o kit de primeiros socorros. Ao tocar sua pele com a gaze embebida em água oxigenada, ela se contraiu.
- Eu sei que dói - murmurei. - Mas aguente só um pouco.
Depois de enfaixar sua perna, joguei o material no lixo. Joyce permaneceu sentada, imóvel.
- Você está bem?
Ela assentiu, tentou se levantar e cambaleou. Instintivamente, a segurei pela cintura.
- Desculpe... - fui eu quem disse.
- Por que está se desculpando? Eu teria caído se você não tivesse me segurado. Obrigada.
- Eu... não sei. De nada.
Minha mente estava confusa.
- Você pode me ajudar a ir até o meu carro?
- Claro.
Enquanto caminhávamos, ela explicou por que ainda estava ali.
- Eu deveria ter ido para casa com a minha equipe, mas resolvi adiantar algumas coisas... e deu no que deu.
- Ninguém deveria ficar aqui sozinho. A equipe de segurança só começa na semana que vem. Pode ser perigoso.
Ela me olhou.
- Nesse caso, você também não deveria estar aqui.
A frase ficou suspensa entre nós.
É diferente - respondi, tentando manter a firmeza. - Eu sou a responsável por tudo e por todos aqui.
Ela parou de andar e me encarou.
- Quer dizer que não se importa se algo ruim lhe acontecer estando aqui sozinha?
Abri a boca para responder, mas as palavras não vieram de imediato.
- Não é bem isso... eu apenas...
Ela respirou fundo, como quem toma uma decisão prática demais para ser ignorada.
- Provavelmente não vou conseguir dirigir - disse. - Então você vai ter que me levar para casa. Vou aguardar enquanto termina o que estava fazendo e tranca tudo.
- Eu posso chamar alguém para te levar - retruquei. - Ainda tenho muito trabalho para fazer.
Ela arqueou levemente a sobrancelha, o olhar firme apesar do ferimento.
- Eu sou a encarregada. Metade do seu trabalho é meu.
A lógica era impecável. E, por isso mesmo, irritante.
Não havia desafio em sua voz. Apenas constatação.
E eu percebi, com um desconforto crescente, que aquela noite estava longe de terminar como eu havia planejado.
- Além disso, ninguém virá a essa hora - completou ela, com calma.
- E se eu ligar para os seus pais? - sugeri, insistindo. - Eles com certeza viriam.
Joyce suspirou, como quem já esperava por aquela tentativa.
- Minha mãe não dirige à noite - respondeu. - E meu pai não sabe dirigir.
Fez uma breve pausa, apoiando melhor o peso na perna boa, antes de concluir:
- Pare de criar maneiras de continuar aqui sozinha. Se ainda há trabalho a ser feito, fazemos nós duas.
O tom não era de desafio. Era prático. Irrefutável.
Percebi, contra a minha vontade, que ela tinha razão outra vez. Não como subordinada, não como provocadora - mas como alguém que estava ali, assumindo responsabilidade ao meu lado.
E isso me incomodou mais do que deveria.
desligar o computador e pegar minhas coisas.
- Não demore - ela disse, olhando rapidamente para fora. - Parece que vai chover.
Voltei para o escritório com passos firmes, embora minha cabeça estivesse longe de qualquer firmeza. Enquanto salvava arquivos e desligava o computador, pensei no quanto ela era irritante. Sempre tinha uma resposta pronta, sempre encontrava um jeito lógico de desmontar minhas tentativas de manter distância.
Irritante demais.
E, ainda assim, por algum motivo que eu preferia não analisar naquele momento, a ideia de deixá-la ali sozinha já não parecia uma opção aceitável.
Ajudei-a a entrar no carro e seguimos pela estrada escura. A visibilidade, que já era ruim, tornou-se quase inexistente quando a chuva começou a cair com força, batendo no para-brisa como se quisesse nos obrigar a parar.
Reduzi a velocidade até encostar no acostamento.
- Vou ter que parar - disse, com as mãos firmes no volante. - Não consigo ver nada.
Ela soltou um suspiro impaciente.
- Eu avisei para se apressar por causa da chuva. Agora estamos presas aqui.
- Sim, você avisou - respondi, sem tirar os olhos da estrada. - E eu fiz tudo o mais rápido possível. A chuva deve passar logo.
Joyce balançou a cabeça em negação.
- Nessa região, quando começa, não para tão cedo. E a estrada fica muito enlameadas por causa dos morros ao longo dela.
Houve um breve silêncio, pesado como o som da água escorrendo pelo carro.
- Já que você é a especialista - retruquei, finalmente virando o rosto para ela -, me diga então o que devemos fazer.
Ela me encarou por um instante, avaliando não só a situação, mas a mim.
A resposta que viria a seguir definiria muito mais do que o caminho de volta.
Por sorte, estamos muito perto da casa do meu avô - disse Joyce, olhando pela janela embaçada. - Podemos deixar o carro e ir a pé. Não é longe.
- Está chovendo demais! - rebati de imediato. - Vamos nos perder, ficar encharcadas... É melhor ficarmos aqui até a chuva passar. Ou até amanhecer e a visibilidade melhorar.
Ela me encarou, paciente demais para o meu gosto.
- Se quiser ficar, não vou impedir - respondeu. - Mas estou faminta e gosto de dormir em camas confortáveis. Não pretendo passar a noite dentro de um carro.
- Eu não vou deixar você sair por aí no escuro, sozinha e ferida - disse, já abrindo a porta, contrariando meu próprio argumento.
Joyce apenas assentiu.
- Então vamos logo.
De todas as coisas que eu odiava, ficar molhada era uma das principais. Ainda assim, que escolha eu tinha? Eu era responsável por aquela mulher - como chefe, como adulta consciente, como alguém que não conseguiria dormir sabendo que a havia deixado sozinha naquela situação.
Caminhamos sob a chuva por cerca de vinte minutos. A estrada de terra logo se transformou em lama, e meus sapatos encharcaram muito antes de chegarmos ao destino. Quando finalmente avistei a casa, percebi que ela era tão escondida e isolada quanto a minha, quase invisível em meio à vegetação densa.
Antes que eu pudesse comentar qualquer coisa, a porta se abriu.
Um senhor alto, de cabelos grisalhos e sorriso largo, apareceu sob a luz quente da varanda.
- Joyce? - disse ele, surpreso e claramente aliviado. - Com essa chuva toda?
Ela sorriu pela primeira vez naquela noite, um sorriso diferente, mais leve.
- Oi, vô. Tivemos um pequeno imprevisto.
O olhar dele se voltou para mim, curioso e acolhedor ao mesmo tempo.
- Entrem, entrem logo - disse, abrindo mais a porta. - Antes que essa tempestade resolva levar vocês duas embora.
Ao cruzar a soleira, senti algo mudar. Não era apenas o alívio de sair da chuva. Era a sensação incômoda de que, ao entrar naquela casa, eu estava atravessando uma linha invisível da qual não seria tão simples voltar.
A estrada tinha ficado para trás.
Agora, não havia mais pressa.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 22/01/2026
Laura até tenta se afastar, mas Joyce tem argumentos para tudo e ficar sozinha ou passar a noite no carro com chuva, não eram boas opções...melhor enfrenta uma caminhada de 20 min na chuva
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Zanja45
Em: 19/01/2026
Ainda bem que Laura resolveu seguir o conselho de Joyce e ir para casa do avô dela. Senão ficaruam na estrada a mercê do tempo melhorar. Decisão mais acertada, apesar de Laura detestar ficar molhada.
Luciane Ribeiro
Em: 21/01/2026
Autora da história
Ola.Bom dia ,obrigada pelo seu comentário. :) Laura ficou encharcada mas nada que um banho quente não resolva ,o importante é que ela não foi teimosa o bastante pra perder a oportunidade .
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Luciane Ribeiro Em: 22/01/2026 Autora da história
Laura não tem chance contra os fortes argumentos de Joyce.