o encontro *-----*
Capitulo 2 - Entre olhares e silêncios
Milla tentou voltar a atenção para o copo de GYN à sua frente, mas era impossível. Seus olhos insistiam em buscar a mulher que acabara de entrar na adega. Ela caminhou até o balcão com naturalidade, como se não tivesse causado nenhum impacto ao redor, mas Milla sentiu o ar mudar.
A desconhecida se sentou a dois bancos de distância. Cruzou as pernas, apoiou o cotovelo no balcão e falou com o atendente:
— Um vinho tinto seco, por favor.
A voz era firme, mas suave. Milla engoliu em seco, não lembrava a última vez que sentira aquela curiosidade imediata por alguém. Não era só beleza, era presença, havia algo nela que puxava, que chamava.
Tentou se convencer de que estava apenas cansada, emocionalmente vulnerável, mas quando a mulher virou o rosto de leve e seus olhares se cruzaram novamente, foi como se um choque silencioso atravessasse o espaço entre elas.
A desconhecida sorriu de canto, um sorriso discreto, quase tímido.
Milla desviou o olhar rápido demais, como uma adolescente flagrada, bebeu um gole grande do drink, tentando se recompor.
— Primeira vez aqui? — a mulher perguntou, quebrando o silêncio.
Milla levantou os olhos, surpresa.
— Dá pra perceber tão fácil assim?
— Um pouco. Você olha em volta como quem está conhecendo o lugar… e a si mesma.
Milla riu baixo.
— Talvez eu esteja mesmo.
A mulher recebeu seu vinho, agradeceu ao garçom e voltou a atenção para ela.
— Sou… Roberta.
O nome soou comum demais para alguém tão fora do comum.
— Milla.
— Prazer, Milla.
— O prazer é meu.
Houve um silêncio confortável, não aquele que constrange, mas o que convida.
— Dia difícil? — Roberta perguntou.
Milla suspirou, apoiando o braço no balcão.
— Digamos que sim. Filhos, ex-esposa, trabalho… tudo resolveu me testar hoje.
Roberta inclinou levemente a cabeça.
— Parece pesado.
— É. Mas eu escolhi parar aqui antes de ir pra casa explodir sozinha.
— Boa escolha. Lugares assim existem pra isso.
Milla a observou mais atentamente agora, o jeito simples de se vestir, a postura segura, nada ali parecia forçado.
— E você? Também fugindo de alguma coisa? — Milla perguntou, quase sem perceber a intimidade na pergunta.
Roberta demorou um segundo a mais para responder.
— Talvez. Ou tentando encontrar algo que ainda não sei o que é.
O coração de Milla bateu um pouco mais rápido.
— Estranho como a gente sente quando precisa mudar algo na vida, né?
— Estranho e assustador — respondeu Roberta, olhando para o próprio copo. — Às vezes dá vontade de apagar tudo e começar de novo.
Milla sentiu aquela frase tocar fundo.
— Eu estou exatamente nesse ponto.
Os olhos de Roberta se levantaram lentamente até os dela.
— Então… talvez a gente esteja no mesmo lugar, só que por caminhos diferentes.
Um silêncio pesado se instalou entre elas, não desconfortável, intenso.
Milla percebeu que estava sorrindo sem perceber.
— Você costuma vir aqui?
— De vez em quando — respondeu Roberta. — Quando preciso pensar.
— Eu nunca tinha vindo. Talvez eu passe a vir mais.
— Espero que sim.
Milla tomou o último gole do GYN e respirou fundo.
— Eu devia ir… mas fico com a sensação de que se eu sair agora, vou me arrepender.
Roberta sorriu de novo, aquele mesmo sorriso discreto que parecia esconder mil coisas.
— A vida é feita de pequenas decisões, não é?
Milla pegou o celular da bolsa, hesitou por um instante e então falou:
— Posso te passar meu número?
Os olhos de Roberta brilharam de surpresa.
— Eu ia te pedir isso agora.
As duas riram baixinho.
Milla digitou o número no celular dela e salvou com o nome “Milla”.
— Pronto.
— Pronto — repetiu Roberta.
Por alguns segundos, nenhuma das duas se mexeu.
— Boa noite, Roberta.
— Boa noite, Milla. E… obrigada por essa conversa.
— Eu que agradeço.
Milla saiu da adega com o coração estranho, leve e inquieto ao mesmo tempo. Não lembrava a última vez que alguém causara aquilo nela sem esforço algum.
Do outro lado do balcão, Roberta observou Milla se afastar. O sorriso em seus lábios foi desaparecendo aos poucos, dando lugar a um olhar carregado de conflito.
Ela pegou o celular, encarou o contato recém-salvo e murmurou para si mesma:
— Você não tem ideia do perigo que é se aproximar de mim… e eu também não deveria ter deixado você chegar tão perto, e que merd*, acabei me apresentando pelo meu nome verdadeiro.
Tomou o resto do vinho de uma vez só, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo diferente da adrenalina dos golpes, sentiu medo, e desejo.
Fim do capítulo
sinto cheiro de problema no ar!!
@tokiomaahescritora_
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