Capitulo 25
Por Bia:
Dois dias. Quarenta e oito horas. Dois mil e oitocentos e oitenta minutos desde que beijei Luísa Fischer no meu sofá e ela saiu daqui pedindo "um tempo para processar tudo".
Não que eu estivesse contando ou algo assim. Mas estava. E sinceramente? Estava começando a achar que "processar" era um código para "fugir correndo e nunca mais falar sobre o assunto".
Estava na cozinha fazendo meu segundo café da manhã. Sim, segundo. Sem julgamento. Olhando para o sofá onde tudo aconteceu e lembrando de cada segundo daquele beijo. E que beijo. Se eu pudesse dar uma nota de um a dez, seria um sólido vinte. Com direito a querer a continuação pra ontem.
O problema é que depois de quinze minutos de química pura e troca de saliva de primeira qualidade, a mulher simplesmente voltou ao modo "executiva responsável" e disse que precisava "pensar sobre as implicações disso tudo". Implicações. Como se a gente estivesse negociando um tratado de paz internacional em vez de estar finalmente admitindo que queria se agarrar.
Peguei o celular pela décima vez em uma hora, olhei para o nome dela no WhatsApp, e mais uma vez resisti ao impulso de mandar uma mensagem com alguma piadinha. Algo como "Oi, ainda está processando ou posso considerar que você entrou em pane?" Mas não, eu tinha dignidade. Pelo menos um pouco.
O mais engraçado foi quando ela pediu segredo sobre o que rolou entre a gente. SEGREDO. Como se não tivéssemos um relacionamento fake público há 2 meses. Tipo, qual a diferença entre fingir que estamos juntas e realmente ficarmos juntas? A única mudança seria que ela finalmente poderia parar de fingir que achava um saco quando eu encostava nela para as fotos.
Sério, Luísa, onde está a lógica nisso?
Mas enfim, nem tudo estava perdido. Ontem Pietro me ligou com uma notícia que alegrou meu dia.
— Bia, não sei que bicho mordeu a Ângela — ele havia dito, e eu praticamente pude ouvir o sorriso na voz dele — mas ela reconsiderou a decisão sobre as alterações contratuais. Disse que foi precipitada e que prefere manter tudo como está.
Eu quase gritei "ALELUIA, LUÍSA" no telefone, mas me contive e dei resposta de pessoa madura e profissional:
— Ah, que bom, Pietro. Fico feliz que ela tenha mudado de ideia.
Que ela tenha mudado de ideia. Como se eu não soubesse exatamente quem havia feito ela "mudar de ideia". Luísa Fischer, a mulher que estava me ignorando totalmente.
Pelo menos isso confirmava uma coisa: a mulher estava brigando por mim nos bastidores da PS. E isso, admito, mexia comigo.
Voltei para o sofá com o café na mão e me permiti alguns minutos de devaneio. Luísa sentada aqui, aqueles olhos me encarando com aquela intensidade que me deixava sem ar, o jeito como ela tinha respondido ao beijo... Porr*, a mulher beijava gostoso e tudo que eu queria era mais. As mãos dela no meu rosto, me puxando mais perto...
Ok, Bia, para. Você está oficialmente fora do prumo tamanha a carência.
Era óbvio que ela estava evitando qualquer contato. Provavelmente estava no escritório dela, enterrada em planilhas e relatórios, fingindo que nada havia mudado entre a gente. Meu orgulho me orientava a fazer o mesmo.
Abri o Instagram e comecei a rolar o feed, tentando me distrair. Erro. Porque obviamente uma das primeiras coisas que apareceu foi uma foto de nós duas na noite do hambúrguer. Luísa estava linda. O sorriso no rosto, a postura relaxada...
Comentários dos seguidores:
"Vocês são tão lindas juntas! ❤️"
"Quando vamos ter mais conteúdo de vocês duas? 👀"
Se eles soubessem que eu estava aqui, duas da tarde, analisando cada pixel dessa foto como se fosse encontrar as respostas de tudo.
Larguei o celular no sofá e decidi que precisava sair de casa antes que minha sanidade mental fosse completamente pelos ares. Coloquei uma roupa confortável. Short jeans, cropped branco e tênis. Decidi sair para correr no parque.
O problema de correr quando você está tentando não pensar em alguém é que sua mente fica livre para... pensar nessa pessoa. Então lá estava eu, passando entre as árvores, e tudo me lembrava Luísa. O banco onde ela poderia estar sentada lendo um livro, o café que ela poderia estar tomando naquela hora, se ela também estava pensando em mim ou se já tinha arquivado o beijo na pasta "coisas que não deveriam ter acontecido".
Quando parei, já meio ofegante, decidi sentar em um banco aleatório e ser honesta comigo mesma por cinco minutos.
Eu gostava dela. Talvez muito. E poderia não ser só atração física, embora isso definitivamente estivesse na jogada. Era a maneira como ela falava sobre o trabalho com paixão, como cuidava da mãe, como ficava constrangida com elogios e com as minhas aproximações.
E sim, também era o fato de que ela beijava de um jeito delicioso e sempre escapava pela tangente, me deixando com aquele gostinho de quero mais.
O que estava me incomodando mesmo era não saber onde a gente estava. Porque uma coisa ficou clara depois daquele beijo, ela também sentia algo. Talvez da parte dela fosse só desejo, atração, carência… Ela mesma admitiu que não tem muitos amigos, que quase não sai…
E, caso ela também gostasse de mim, eu teria que me conformar com a possibilidade de jamais descobrir a verdade. Porque, convenhamos, Luísa Fischer tinha o gênio da mãe, então era o tipo de pessoa que gostava de ter tudo sob controle. E sentimentos, bem... sentimentos são bagunçados, imprevisíveis e definitivamente não seguem planilhas de Excel.
Levantei do banco com uma decisão formada na cabeça. Chega de ficar esperando ela "processar". Se ela queria tempo, ok. Mas eu não ia ficar aqui indefinidamente, analisando cada vírgula das nossas conversas e criando teorias conspiratórias sobre por que ela não me mandou nem um "oi" em dois dias. O silêncio dela dizia muito, cabia a mim encarar a verdade e interpretar.
Voltei para casa determinada a agir como uma adulta. Ia focar no meu trabalho, produzir conteúdo, preparar a viagem para Vintervile e fingir que não estava contando os minutos até ela aparecer na minha vida de novo.
Minha convicção não durou nem uma hora.
Assim que cheguei em casa, meu celular tocou. Uma mensagem. Não era da Luísa, mas era algo que me fez questionar se o universo tinha senso de humor ou se estava simplesmente conspirando contra mim.
Helena.
Um convite de casamento digital surgiu na tela, adornado por flores delicadas e fontes elegantes. Helena e Isabela iriam se casar. Eu já tinha recebido a versão física, mas a correria da minha vida me fez esquecer completamente do evento. E havia um detalhe impossível de ignorar: a cerimônia aconteceria apenas dois dias antes do evento da PS, ambos em Vintervile.
Logo abaixo, aquela pergunta que sempre aparece nesses convites e que dessa vez me fez dar uma risada meio histérica:
"Por favor, confirme se irá acompanhada."
Antes que eu pudesse processar completamente a ironia da situação, chegou uma mensagem da própria Helena:
"Bia! Nem pense em não vir. Ficaria imensamente chateada. Não quero saber de nenhuma desculpa! Espero vocês duas lá! ❤️"
Fiquei encarando a tela do celular por alguns segundos.
Helena estava prestes a se casar com Isabela, em Vintervile, justamente na mesma semana do evento da PS. E, pelo jeito, já considerava certo que eu levaria a Luísa comigo, provavelmente por acompanhar minhas redes sociais.
Como se a situação não fosse suficientemente complicada, agora eu teria que lidar com um casamento de cidade pequena em que haveria uma explosão de flashes que capturariam tudo se eu aparecesse sem a companhia de Luísa.
Pense bem, Bia: ir sozinha ao casamento da sua amiga em Vintervile, dois dias antes do maior evento profissional da PS, onde todos os jornalistas locais estarão presentes e onde todos esperarão ver você com sua "namorada"?
Ou você chama a mulher que está te dando um gelo de primeira categoria, ou prepara uma explicação muito criativa sobre onde anda sua cara-metade.
Ótimo. Simplesmente fantástico.
Digitei e apaguei respostas diferentes para Helena pelo menos cinco vezes antes de simplesmente desistir e jogar o celular no sofá.
Duas horas depois de muito vai-e-vem mental, tentando me distrair com um banho relaxante e uma série qualquer na Netflix, tomei uma decisão. Foda-se a dignidade. Eu precisava falar com Luísa pessoalmente. Provavelmente ela havia se programado para estar em Vintervile apenas no dia do evento da PS. Se eu mandasse uma mensagem, ela provavelmente me ignoraria como vinha fazendo nos últimos dois dias.
Vesti uma calça jeans flare, um cropt listrado e um par de tênis branco. Peguei a chave do carro e parti em direção à Pelle Serenità.
***
A recepcionista Lívia, me recebeu animada assim que entrei.
— Bia Albuquerque! Que bom vê-la aqui. Quer que eu anuncie sua chegada para a Dona Luísa?
— Não, obrigada — respondi, tentando soar casual. — Quero fazer uma surpresa para ela, Lívia.
— Ah, que fofo! — ela sorriu ainda mais. — Ela está na sala dela. Você lembra o caminho?
Assenti e me dirigi ao elevador, o coração batendo um pouco mais rápido a cada andar que subia. Não tinha ideia do que exatamente ia dizer quando chegasse lá. "Oi, Luísa, sei que você está me evitando, mas precisa ir a um casamento comigo"? Genial, Bia.
Quando cheguei ao décimo andar, o corredor estava silencioso. Caminhei em direção à sala de Luísa, e quando me aproximei, percebi que a porta estava entreaberta. Ia bater quando ouvi vozes vindas de dentro.
A voz inconfundível de Ângela:
— Isso do contrato fica assim então, Luísa. Você não precisa se preocupar com nada, já falei com o Pietro.
E então a voz de Luísa, clara e firme:
— Logo isso acaba mesmo.
— Você tem certeza de que sua percepção da situação não está abalada? — perguntou Ângela.
— Certeza absoluta — respondeu Luísa, e eu pude ouvir o tom categórico na voz dela. — Bia Albuquerque é o exato oposto de tudo aquilo que admiro em uma pessoa. Não vejo a hora de parar de vê-la e acabar com esse teatrinho todo.
Senti como se tivessem me dado um soco no estômago. Fiquei paralisada ali, escutando cada palavra.
— Ela é superficial demais — continuou Luísa. — Vive postando bobagens nas redes sociais, faz piadas sobre tudo como se nada fosse sério. É o tipo de pessoa com quem eu nunca conseguiria manter uma conversa profunda sobre qualquer assunto que realmente importe.
— Caramba… Estou começando a acreditar em você.— Ângela disse, rindo em seguida.
— Estou sendo realista, Ângela — retrucou Luísa. — Ela não tem a menor noção do que é responsabilidade. Olha só o tipo de conteúdo que produz e o tipo de gente com quem se envolve. É tudo voltado para aparecer, para chamar atenção.
Cada palavra era como uma facada. E ela continuava:
— E não me entenda mal, reconheço que ela serve para o que precisamos agora. Mas como pessoa? Definitivamente não é alguém que eu escolheria para conviver. Muito menos para algo mais... íntimo.
— Então realmente vocês fingem bem e você não sente nada por ela? — insistiu Ângela.
Luísa deu uma risada amarga que me gelou por completo:
— É claro que não. Ela é bonita, não posso negar. Precisávamos de alguém assim. Mas isso não significa absolutamente nada. Química não compensa falta de caráter e de profundidade. Quando tudo isso acabar, será um alívio não ter que mais fingir que tolero a presença dela.
Senti lágrimas queimando meus olhos. Era como se cada palavra fosse cuidadosamente escolhida para me destruir.
Não consegui ouvir mais. Com as pernas bambas, me afastei da porta o mais silenciosamente possível e praticamente corri em direção ao elevador.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 18/01/2026
Quero acreditar que a Luísa tem seus motivos para falar tudo isso para a Ângela, só deu azar da Bia ouvir.....mas creio que o preço vai ser alto para desfazer tudo isso...
Bia não merece isso, espero que ela faça nenhuma besteira que possa prejudica-la....e vou torcer para a Luísa se arrepender de tudo isso que falou
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Dessinha
Em: 16/01/2026
Torcendo para Luísa ter utilizado essas palavras como uma forma de calar Ângela, mas falar tanta bobagem a respeito da Bia é muito pesado, foi muito pesado e a Bia não merece. Espero que ela saiba se posicionar nessa situação, seja o mais profissional possível e a Luísa entenda a grande besteira que fez. Além disso, que consiga provar que não foi nada além de um mal entendido nessa história de Vinterville fazendo Luísa e a PS toda perceber a grande mulher que perdem. Força Bia!
MalluBlues
Em: 22/01/2026
Autora da história
É Dessinha... concordo contigo que foi pesado e horrível a maneira como ela falou da Bia.. Mas ela vai perceber sim que fez besteira e vamos ver se Bia perdoa ela.
MalluBlues
Em: 22/01/2026
Autora da história
É Dessinha... concordo contigo que foi pesado e horrível a maneira como ela falou da Bia.. Mas ela vai perceber sim que fez besteira e vamos ver se Bia perdoa ela.
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Dessinha
Em: 16/01/2026
Que safada, Luisa!! Não creio que fez isso!! Que sacanagem... pobre Bia. É bom que arranje outra bem gostosa e Luísa vá chorar pra lá.. doeu isso aí :/
MalluBlues
Em: 22/01/2026
Autora da história
:/ será que vai ter outra gostosa no caminho da Bia.... Hm
MalluBlues
Em: 22/01/2026
Autora da história
:/ será que vai ter outra gostosa no caminho da Bia.... Hm
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Letícia ASI
Em: 16/01/2026
ai mds como acaba o cap assim?
MalluBlues
Em: 22/01/2026
Autora da história
Pra gerar aquele suspense gostoso, Letí...
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Duduka
Em: 15/01/2026
Tá na hora da Bia dar um gelo na Luísa e tratar ela igualmente.
MalluBlues
Em: 22/01/2026
Autora da história
Vou ter que concordar... ;/
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anaffsse
Em: 15/01/2026
extremamente ansiosa para a continuação
MalluBlues
Em: 22/01/2026
Autora da história
Hoje chegou mais atualizações, Ana...
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MalluBlues Em: 22/01/2026 Autora da história
Aaaai... a Luísa vacilou legal, mas vamos aguardar os próximos capítulos... ela sente algo por Bia e já sabe disso.