Capitulo 8 Outra Noite Dourada
Narrado por Elara
O sol ainda nem havia nascido completamente quando minha madrasta entrou batendo os pés na pequena cozinha, seus cabelos presos em um coque apertado e a expressão de quem não dormiu bem.
— Elara! Vista-se logo. O palácio precisa de criadas para o banquete desta noite. O conde de Varestha está vindo, e querem tudo impecável.
Eu parei, com a tigela de aveia nas mãos.
— Eu… eu vou servir no palácio de novo? — perguntei, surpresa, o coração acelerando em meu peito como o bater de asas de um pardal assustado.
— Sim. Não se iluda. Vai apenas carregar bandejas e limpar as taças dos nobres, então trate de não parecer mais suja do que já é — retrucou com desdém, saindo da cozinha sem esperar resposta.
Mas eu mal a ouvi. A ideia de pisar no palácio outra vez fez minha respiração falhar. Meus dedos tremiam enquanto terminava o café e me apressava a vestir meu melhor vestido – ainda era simples, mas limpo, alinhado, com um laço gasto costurado atrás, presente da minha falecida mãe.
O dia passou como um borrão. Fui ao riacho lavar os pés, prendi os cabelos da forma mais organizada que consegui e limpei cada unha. À tarde, já no palácio, juntaram-se várias criadas e criados, todos organizados em filas sob o comando severo da governanta.
O salão estava deslumbrante.
Lustres cintilavam no teto abobadado, os vitrais deixavam a luz dourada cair sobre as paredes cobertas de tapeçarias. Flores raras estavam por toda parte. Os músicos ensaiavam em um canto, enquanto os cozinheiros gritavam ordens na cozinha.
E então ela apareceu.
A princesa Seraphina desceu lentamente os degraus do salão, trajando um vestido bordado com fios de prata e azul-escuro como o céu antes da noite. Seu cabelo preso com delicadeza, deixando alguns fios soltos que emolduravam seu rosto.
Meu coração parou.
Eu me escondi atrás de uma pilastra, fingindo ajustar uma bandeja, mas meus olhos a seguiam como se tivessem vontade própria. Ela parecia uma visão, quase intocável… e mesmo assim, seu olhar vagou pelo salão com uma urgência silenciosa.
Por um instante, achei que ela me procurava. E quando seus olhos encontraram os meus, não fui capaz de fingir. Gelei. E ao mesmo tempo, tudo em mim se aqueceu.
Eu desviei o olhar imediatamente, com medo de ter ousado demais.
— Elara! Vamos! — chamou uma das cozinheiras, empurrando-me com uma travessa repleta de taças.
O banquete começou. Nobres vinham e iam, brindavam, riam alto, falavam sobre terras, guerras e promessas de alianças com a chegada do conde. Eu servia vinho, recolhia pratos e desviava de conversas inconvenientes de homens que não sabiam manter os olhos nos próprios copos.
Mas cada vez que passava próxima à mesa real, sentia o olhar dela.
Da princesa.
Ela me olhava com uma intensidade que fazia minhas mãos tremerem. Tentei não encarar de volta. Tentei. Mas fui fraca.
E quando por fim nossos olhares se cruzaram de novo, não consegui fingir.
Ela sorriu.
Um sorriso tímido, contido… como quem guarda um segredo. E eu senti tudo girar dentro de mim. Como se aquela noite fosse feita só de nós duas, entre bandejas e velas acesas, ent
re castiçais dourados e palavras não ditas.
Fim do capítulo
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