Capitulo 4 - O Nome que Eu Não Sabia
Narrado por Seraphina
A noite havia terminado, mas eu continuava desperta. O salão, antes repleto de luz e música, agora estava mergulhado em silêncio. As cortinas dançavam suavemente com o vento noturno, e as tochas nas paredes crepitavam baixinho, como se sussurrassem segredos que só eu pudesse ouvir.
Mas nenhum som conseguia abafar o que ecoava dentro de mim: o nome dela. Ou melhor, a ausência dele. Eu não sabia o nome da garota.
Aquela simples criada de vestido gasto e olhos intensos. A maneira como ela abaixou a cabeça, como tentou esconder o nervosismo, como sorriu com um misto de gentileza e timidez - tudo nela parecia pertencer a outro tempo. A outra vida. E eu... eu não conseguia tirá-la da mente.
Ela me atravessou como uma flecha silenciosa. Não por sua beleza, embora houvesse algo de suave e natural nela que me prendia. Mas por sua aura. Ela parecia... real. No meio de tanta artificialidade, entre tantos rostos treinados para sorrir da forma certa e dizer as palavras adequadas, ela era uma pausa. Um respiro.
Levantei-me antes do amanhecer, ainda envolta em um manto de pensamentos. Desci os degraus do palácio quase sem sentir meus pés tocando o chão de mármore. Na copa, um criado antigo preparava o chá dos primeiros servos da manhã.
"Desculpe incomodar tão cedo," murmurei, tentando parecer casual, embora meu coração estivesse agitado como tambor de guerra.
O criado se virou apressado e fez uma reverência, surpreso. "Vossa Alteza, é sempre uma honra."
Aproximei-me, olhando discretamente para as bandejas cobertas com pães e frutas frescas. "Ontem... havia uma moça entre os criados do banquete. Uma jovem... de cabelos castanhos presos, olhos escuros, pele clara. Rosto sereno."
O homem franziu a testa, pensativo. "Muitas ajudaram ontem, Alteza. A senhora se lembra de algo mais?"
A imagem dela me surgiu nítida. "Ela derrubou uma bandeja. Não por desatenção... alguém a empurrou, creio. Eu a ajudei a se levantar."
"Ah," disse ele, erguendo as sobrancelhas. "Sim... sim, claro. Aquela é Elara. Enviada por Lady Alira, do norte do reino. Ela mora com a madrasta e ajuda com o serviço doméstico. Tem vindo ao palácio com mais frequência, sempre muito discreta."
Elara.
O nome soou doce, firme, certo. Como se eu já o tivesse dito milhares de vezes em silêncio.
"Obrigada," murmurei, girando o anel em meu dedo distraidamente. "Ela... é nova?"
"Não, Alteza. Vive há alguns anos com Lady Alira. Mas não costuma se destacar."
Assenti, sem dizer mais nada. Mas por dentro, cada palavra ecoava como uma revelação. Elara. Tão simples... e ainda assim, eu já sabia que aquele nome ficaria comigo.
Voltei para meus aposentos com passos lentos. Meus conselheiros diriam que havia outros assuntos urgentes. A sucessão, alianças, tratados. Mas naquela manhã, o nome de uma criada simples preenchia meus pensamentos com mais força do que qualquer questão de Estado.
E eu sabia que, de alguma forma, aquele não seria o último encontro.
Não se quando, nem como.
Mas eu precisava vê-la de novo.
Continua...
Fim do capítulo
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