Capitulo 3 - Olhos que Desnudam a Alma
Narrado por Elara
A cozinha estava um caos controlado quando cheguei de volta do salão. Panelas sendo lavadas às pressas, travessas sendo reabastecidas, ordens sendo lançadas por todos os lados. Ainda ofegante do esbarrão e do breve encontro com a princesa, tentei me concentrar em minhas tarefas. Mas minha mente… minha mente estava presa nela.
A princesa Seraphina.
Ela havia falado comigo. Não com desdém, não com autoridade — mas com cuidado. Como se minha presença tivesse algum valor. Como se eu fosse mais do que só uma criada.
Terminei de organizar as taças e voltei ao salão, agora encarregada de recolher algumas travessas vazias e observar discretamente o andamento do evento para relatar à governanta. Cruzei o salão pela lateral, a cabeça baixa, como me haviam ensinado. Mas algo me fez levantar os olhos por um instante.
E lá estava ela.
Sentada em seu trono dourado, com o vestido bordado reluzindo sob as luzes dos candelabros. Seraphina. A princesa. A mulher que todos reverenciavam. E, ainda assim, naquele momento, ela não olhava para os nobres que dançavam à sua frente. Ela me olhava.
Diretamente.
Como se fosse capaz de ver algo dentro de mim que nem eu mesma compreendia.
Durante a noite, mesmo entre sorrisos diplomáticos e a conversa incessante ao redor dela, eu a via me procurando com os olhos. A princípio, pensei estar imaginando. Achei que estava ficando louca — uma criada sonhando que uma princesa pudesse olhar para ela com… interesse?
Mas então aconteceu de novo.
Eu me virei para ajustar a toalha de uma mesa e, ao erguer a cabeça, peguei-a me olhando. Sim. Olhando mesmo. Seus olhos presos aos meus, intensos, como se ela estivesse tentando decifrar algo dentro de mim, algo que nem eu mesma conseguia entender.
Meu coração disparou. Era como se seu olhar atravessasse cada camada da minha pele e tocasse algo escondido, frágil, mas faminto por ser visto. Eu não sabia o que era aquilo. Era desconcertante. Assustador, até. Mas também era… bonito.
Por um instante, desejei estar usando outro vestido. Um que não estivesse manchado de vinho e suor. Desejei ter os cabelos soltos e não escondidos sob o lenço branco. Desejei, mais do que tudo, ser outra pessoa. Alguém que pudesse se aproximar dela de igual para igual.
Mas eu era só Elara. A filha do ferreiro que morreu cedo demais. A criada da casa de Lady Alira. Aquela que só foi ao baile porque precisava trabalhar, não dançar.
Voltei correndo para a cozinha, com o coração apertado e as mãos trêmulas. A bandeja em meus braços pesava como se carregasse o próprio segredo que se formava no meu peito. Não chorei, não suspirei. Mas dentro de mim havia algo novo — uma semente de sentimento que eu não conseguia nomear, apenas sentir.
Algo entre o impossível… e a esperança.
Continua...
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]