Capitulo 1: ONDE A MAGIA APRENDE A DESEJAR (Parte V - O Treino)
O Salão de Ancoragem ficava abaixo do nível habitual do templo, num ponto onde a ilha de Vael’Tir parecia lembrar do peso que já tivera quando ainda tocava o chão do mundo. Descer até ali exigia atravessar escadas estreitas, curvas, talhadas diretamente na pedra lunar, degraus que absorviam o som dos passos e devolviam apenas um eco abafado, como se o próprio espaço pedisse silêncio antes de permitir a passagem. Lysenne descia sempre com cautela, não por medo do lugar, ela conhecia cada ângulo, cada fissura, cada runa apagada pelo tempo, mas porque o Salão não tolerava pressa, era um espaço antigo, anterior à Ordem, construído quando os primeiros portadores compreenderam que poder não se testa com força, mas com escuta. O salão existia para isso, para ouvir.
Quando chegou, Lysenne retirou o manto e o dobrou com precisão ritual, depositando-o numa pedra lateral. Vestia roupas de treino simples, claras, com fios prateados entrelaçados no tecido, não para amplificar magia, mas para distribuí-la, como canais discretos que impediam acúmulos perigosos. Ela prendeu os cabelos com um gesto firme, quase severo, como se aquele detalhe fosse suficiente para manter o resto sob controle. Respirou fundo.
— Este lugar não responde a ordens, — disse em voz alta, mesmo antes de Elaryn entrar — ele responde à verdade.
O Salão era circular, amplo, sem colunas, o chão era marcado por um conjunto complexo de círculos concêntricos, linhas cruzadas e símbolos antigos que não pertenciam a nenhuma escola formal de magia. Aquilo não era feitiçaria organizada, era linguagem primitiva, tentativas humanas de dialogar com forças que nunca pediram nomes. No centro, o Véu era mais fino, não instável, fino, como uma pele esticada com cuidado demais.
Elaryn entrou logo depois, o salão reagiu imediatamente, as runas acenderam-se em tons quentes e frios ao mesmo tempo, âmbar e azul profundo coexistindo sem conflito aparente, o ar aqueceu de leve, não como chama, mas como proximidade de algo vivo.
Elaryn observou tudo com atenção silenciosa.
— Então este é o lugar onde vocês medem o que não querem entender.
— É o lugar onde evitamos que o mundo se parta.
Elaryn tirou a jaqueta de couro com um movimento simples e deixou-a cair sobre uma das pedras laterais, o gesto foi casual, mas carregado de uma naturalidade que fez Lysenne desviar o olhar por um instante mínimo, rápido demais para ser consciente, lento demais para passar despercebido pelo Véu.
— O Fogo Profundo não pode ser medido como outras magias, — disse Elaryn, caminhando lentamente pelo perímetro do círculo. — ele não nasce da vontade, ele nasce do encontro.
— É por isso que ele é perigoso, — Lysenne respondeu, firme. — ele cria dependência.
— Não, — Elaryn corrigiu, parando e encarando-a. — ele cria responsabilidade.
Lysenne sustentou o olhar.
— Aqui você não reage, não evoca, não projeta, você escuta o Véu primeiro, depois, a si mesma. Qualquer avanço sem ancoragem será interrompido.
— Por você?
— Por mim, ou pelo próprio Salão.
Elaryn inclinou a cabeça, aceitando.
— E você? Vai apenas observar?
— Eu mantenho o equilíbrio.
— Sempre?
A pergunta não era provocação, era curiosidade genuína.
Lysenne não respondeu de imediato.
— Comece. — disse apenas.
Elaryn posicionou-se no centro do círculo, fechou os olhos, o fogo não surgiu. Primeiro veio a respiração, profunda, lenta, como se buscasse um ritmo mais antigo do que o corpo. Depois, uma mudança sutil na densidade do ar, o salão vibrou levemente, como um organismo despertando de um sono atento. Lysenne sentiu, como um convite.
O Fogo Profundo de Elaryn não empurrava contra o Véu, ele se aproximava, testava, recuava, como mãos aprendendo a tocar um instrumento delicado.
— Não avance. — Lysenne disse, sentindo o próprio poder se expandir ao redor, criando uma zona de estabilidade. — Sustente apenas o pulso inicial.
Elaryn respirou fundo, o calor aumentou, não era intenso, mas constante, como algo que se recusa a apagar. Lysenne deu um passo à frente sem perceber, o Véu afinou, ambas sentiram o momento exato em que o equilíbrio se deslocou como uma inclinação perigosa, como quando se pisa em terreno que ainda não decidiu se vai ceder.
— Lysenne, — Elaryn murmurou, ainda de olhos fechados. — seu silêncio está… diferente.
— Abra os olhos — Lysenne pediu, a voz mais baixa do que pretendia.
Quando Elaryn obedeceu, o impacto foi imediato, o contato visual fez o fogo responder com uma espiral lenta, íntima, subindo, não como chama, mas como presença. O poder de Lysenne reagiu em reflexo, envolvendo o espaço com uma quietude densa, quase protetora, não gelo contra fogo, mas contenção em diálogo com entrega.
— Afaste-se. — Lysenne sussurrou.
— Se eu me afastar agora — Elaryn respondeu, a voz grave, carregada de algo que não era apenas magia — isso vai ficar entre nós, crescendo, sem forma.
Ela deu um passo à frente, o círculo de ancoragem brilhou com intensidade máxima.
— Não toque. — Lysenne disse, mas não se moveu.
Elaryn parou a um sopro de distância.
O ar entre elas era quase sólido, saturado de expectativa, de algo que fazia o corpo de Lysenne reagir antes da mente, o coração batia rápido demais, o mundo parecia menor.
— Você tem medo.
— Tenho dever, não são a mesma coisa.
O fogo respondeu à frase, uma onda de calor percorreu o espaço entre elas aquecendo tudo o que tocava. Lysenne sentiu o impacto direto no peito, e, pela primeira vez em anos, falhou em conter imediatamente o próprio poder. O Véu cedeu por um instante mínimo, suficiente. Lysenne levou a mão ao braço de Elaryn, o toque foi breve, necessário, proibido e... devastador. O mundo respondeu, as runas explodiram em luz suave e ao mesmo tempo intensa, o chão vibrou, o Véu ondulou como tecido sob vento repentino. O fogo de Elaryn expandiu-se em resposta ao contato envolvente, cercando-as em um calor pulsante que não pedia destruição.
Pedia sustentação. Lysenne arfou, não de dor, de reconhecimento.
— Não solte, — Elaryn, com a voz rouca agora, baixa demais para o mundo. — se soltar… isso vai rasgar.
Lysenne manteve a mão ali, sentia tudo, o calor sob os dedos, a respiração da outra mulher, a proximidade que fazia o próprio corpo reagir de formas que jamais permitira. Seu poder, ao invés de conter à força, ancorava, ajustava-se ao fogo como se tivesse sido feito para isso. O Véu estabilizou... silêncio... lento, profundo, intacto. Quando a luz diminuiu, elas ainda estavam próximas demais.
Lysenne afastou-se primeiro, o rosto pálido, o corpo em alerta.
— Isso não pode acontecer.
— Já aconteceu.
— Foi um erro.
Elaryn a observou com atenção nova.
— Não, — disse, com um sorriso lento e sério ao mesmo tempo — foi uma resposta.
Lysenne virou-se, o coração descompassado, a mente em conflito, sabia, com clareza dolorosa, que aquilo não fora apenas uma falha de treino, fora um prenúncio. E enquanto deixava o Salão de Ancoragem, sentiu o Véu registrar algo que jamais seria apagado dos mapas invisíveis do mundo, quando duas forças aprendem a se sustentar, o perigo não está no toque, está no que passa a ser impossível negar depois dele.
Fim do capítulo
[...] quando duas forças aprendem a se sustentar, o perigo não está no toque, está no que passa a ser impossível negar depois dele.
Carinhosamente,
Liara Noren
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Liara Noren Em: 30/12/2025 Autora da história
E foi apenas o primeiro toque.