Capitulo 1: ONDE A MAGIA APRENDE A DESEJAR (Parte VI - A Primeira Fenda)
O Salão de Ancoragem levou algum tempo para aceitar que elas haviam se afastado, a luz não se apagou de imediato, as runas, ainda quentes, pulsavam com uma cadência irregular, como um coração que acabara de sobreviver a um esforço extremo, o ar permanecia denso, saturado de algo que não era apenas magia, havia ali um resíduo de decisão, de escolha feita no limite, como se o mundo tivesse sido obrigado a admitir uma possibilidade que preferia negar.
Lysenne subiu as escadas sem olhar para trás, cada degrau parecia mais alto do que antes, não por cansaço físico, mas porque algo dentro dela havia mudado de eixo, o corpo ainda lembrava do toque, não como desejo explícito, mas como reconhecimento profundo, quase doloroso, a mente, treinada para nomear riscos, lutava para classificar aquilo como erro, mas nenhuma palavra técnica parecia suficiente. Erro implicava descuido, aquilo fora atenção extrema. Ela parou no último lance da escada, apoiando a mão na parede de pedra lunar. Sentiu a superfície responder com um frio súbito, como se o templo tentasse reancorá-la à função que sempre desempenhara.
— Volte. — murmurou, sem saber se falava consigo ou com o mundo.
O Véu respondeu com silêncio. Lysenne fechou os olhos por um instante, um gesto raro, e deixou que a memória se impusesse sem resistência. Não foi o calor que voltou primeiro, foi a sensação de ajuste, o instante exato em que o fogo de Elaryn deixou de pressionar e passou a escutar, o momento em que seu próprio poder, em vez de erguer barreiras, se organizou em torno de algo externo com precisão quase íntima. Ela nunca havia sentido isso. Contenção, sim. Equilíbrio imposto, sempre. Mas sustentação mútua? Aquilo não estava nos tratados, não constava nos registros. Não fazia parte da pedagogia da Ordem. E, ainda assim, o Véu não rasgara, isso era o que mais a assustava.
Quando emergiu no nível superior do templo, percebeu que não estava sozinha, dois Guardiões aguardavam no corredor, ambos Plenos, ambos atentos demais para aparecerem ali por acaso. Os mantos estavam alinhados, os rostos neutros, mas o Véu ao redor deles vibrava com a tensão típica de quem fora instruído a observar sem intervir.
— A sessão foi encerrada, — disse um deles. — o Conselho requisita um relatório imediato.
Lysenne assentiu.
— Onde está Elaryn Voidfell? — perguntou o outro.
— Nos aposentos de contenção. O treino foi interrompido antes de qualquer instabilidade crítica.
A palavra crítica foi escolhida com cuidado, os Guardiões trocaram um olhar breve.
— O Véu apresentou flutuações incomuns, — disse o primeiro. — não ruptura, mas… reorganização.
Lysenne sentiu o coração bater uma fração mais rápido.
— O Salão de Ancoragem amplifica reações. — respondeu. — O esperado foi observado.
Não era mentira, mas também não era toda a verdade. Ela seguiu em direção à ala do Conselho sem esperar resposta, sentia, com clareza desconfortável, que cada passo que dava agora era medido por algo maior do que vigilância institucional, o mundo estava atento.
No interior do Arquivo Vivo, onde os registros mais sensíveis eram mantidos, o ar era frio demais para conforto humano, as paredes eram cobertas por lâminas de pedra lunar gravadas com símbolos que reagiam a eventos específicos, algumas brilhavam apenas quando alguém morria, outras quando um juramento era quebrado, outras ainda quando uma fenda era contida por pouco.
Lysenne posicionou-se diante da mesa central e colocou as mãos sobre a superfície lisa.
— Relate. — disse Kareth, surgindo do lado oposto como se sempre tivesse estado ali.
Ela levantou o olhar, o Ancião parecia mais cansado do que horas antes, os olhos, ainda afiados, carregavam agora um peso novo, o peso de quem pressentia uma mudança que não poderia controlar totalmente.
— O treino revelou compatibilidade estrutural. — começou Lysenne, consciente de cada termo. — O Fogo Profundo não reagiu com expansão caótica, ao contrário, ele buscou ancoragem.
Kareth franziu o cenho.
— Em você.
Não era uma pergunta, Lysenne sustentou o olhar.
— Sim.
O silêncio que se seguiu foi denso, incômodo, as lâminas de pedra lunar nas paredes reagiram com um brilho mínimo, quase imperceptível, como se registrassem algo que não estava sendo dito em voz alta.
— Isso é… problemático. — Kareth disse, por fim.
— É inédito. — corrigiu Lysenne.
— Solaer também foi inédita.
A frase caiu como um golpe contido.
— Solaer caiu porque foi separada à força, — Lysenne respondeu, surpreendendo-se com a própria firmeza. — não porque sustentou demais.
Kareth a observou por um longo instante.
— Você está começando a usar as palavras dela.
Lysenne sentiu o peso disso.
— Estou usando as palavras que descrevem o que aconteceu, negar isso não tornará o Véu mais estável.
— Nem aceitá-lo tornará o mundo mais seguro. O Conselho decidirá pela aplicação do Protocolo de Dissociação.
A palavra ecoou no espaço como uma sentença antiga.
— Isso é desnecessário. Não houve vínculo formado.
— Ainda. — Kareth corrigiu. — O protocolo existe para impedir que o “ainda” se torne irreversível.
Lysenne sentiu o estômago contrair.
— O Protocolo rompe ajustes naturais, força o Véu a endurecer artificialmente, isso cria fissuras secundárias.
— Conhecemos os riscos. — Kareth respondeu. — Preferimos fissuras controláveis a colapsos emocionais.
A escolha de palavras não passou despercebida.
— Você está pedindo que eu a vigie… ou que eu a quebre?
Kareth sustentou o olhar.
— Estou pedindo que você salve o mundo.
Lysenne fechou os olhos por um instante mínimo, quando os abriu, havia ali algo novo, não rebeldia, não desafio, mas consciência plena do peso que carregava.
— Então permita-me fazer isso da única forma que funcionou até agora, com escuta, não com amputação.
Kareth hesitou.
— Você se envolve demais para alguém que sempre foi ausência.
— Talvez. — Lysenne respondeu. — Porque talvez o mundo esteja pedindo mais do que ausência.
O ancião não respondeu de imediato, caminhou até uma das lâminas da parede e pousou a mão sobre um símbolo antigo, um registro da queda de Solaer, a pedra emitiu um brilho opaco, quase triste.
— O céu mudou esta noite, uma constelação reapareceu depois de séculos invisível.
Lysenne sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Qual?
— As Duas Chamas Presas.
O nome soou como presságio.
— Os astrólogos dizem que ela só surge quando duas forças opostas encontram equilíbrio sem se anularem — continuou Kareth. — ou quando o mundo se prepara para repetir um erro antigo.
Ele voltou-se para ela.
— Você acredita em presságios, Lysenne?
Ela pensou em Elaryn, no toque, no silêncio que se ajustara ao invés de rasgar.
— Acredito em respostas e o Véu respondeu.
Kareth assentiu lentamente.
— Muito bem, o protocolo será preparado, mas não ativado ainda, você continuará responsável por Elaryn Voidfell.
Uma concessão mínima, mas suficiente.
Quando Lysenne deixou o Arquivo Vivo, o templo parecia diferente, não hostil, atento demais, como um organismo que sentira algo novo no próprio sistema e agora tentava compreender se aquilo era ameaça ou evolução.
Ela seguiu em direção aos aposentos de contenção, parou diante da porta por mais tempo do que o necessário. Do outro lado, Elaryn estava sentada no chão, encostada na parede, os olhos fechados, o fogo nela estava baixo, concentrado, como brasas que se recusam a apagar. Quando sentiu a presença de Lysenne, abriu os olhos devagar.
— Eles reagiram. — disse Elaryn, sem precisar perguntar.
— Sim. — Lysenne respondeu.
— E você?
A pergunta atravessou o espaço entre elas com mais intensidade do que qualquer magia. Lysenne entrou e fechou a porta atrás de si.
— Eu também.
Houve um silêncio longo, denso, como se o mundo esperasse a próxima palavra para decidir o que fazer com elas.
— O que acontece agora? — Elaryn perguntou.
Lysenne aproximou-se alguns passos, parando a uma distância segura demais para ser casual.
— Agora o Conselho tentará nos separar antes que o Véu decida por nós.
Elaryn sorriu de leve, sem humor.
— Sempre foi assim.
— Não desta vez, — Lysenne respondeu, surpreendendo-se de novo com a própria convicção. — desta vez… o mundo está olhando.
Elaryn levantou-se lentamente, ficando frente a frente com ela.
— Então teremos que escolher com cuidado, entre obedecer ou sustentar o que já começou.
Lysenne sustentou o olhar âmbar, pela primeira vez em muitos anos, não respondeu com uma regra, respondeu com a verdade que ainda aprendia a aceitar:
— Seja qual for a escolha… ela terá um preço.
Elaryn inclinou a cabeça.
— Toda magia tem.
O Véu estremeceu como quem recorda e registrou uma verdade primordial: a ruptura começa por dentro, onde ninguém vê, não é um estrondo, mas um gesto pequeno demais para ser ouvido, uma falha que se instala atrás das costelas e começa a se mover por dentro, na parte que aprendeu a silenciar para sobreviver, antes de tocar o mundo. O rasgo nunca nasce no exterior, ele apenas chega lá depois. Primeiro, é uma palavra não dita, depois, um sentimento que pede espaço, como uma fenda se abrindo.
Fim do capítulo
"Então teremos que escolher com cuidado, entre obedecer ou sustentar o que já começou."
Chegamos ao final do Capítulo 1. Se algo no que leu encontrou eco em você, então já estamos ligadas por esse fio silencioso que existe entre quem escreve e quem lê. Eu sigo daqui, aprendendo enquanto faço, tropeçando às vezes, mas sempre tentando.
Beijo!
Carinhosamente,
Liara Noren
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Liara Noren Em: 30/12/2025 Autora da história
Preciso aprender o tempo todo. Sigamos aprendendo juntas! S2