Capitulo 1: ONDE A MAGIA APRENDE A DESEJAR (Parte IV - O Conselho)
O Conselho da Vigília não se reunia por acaso, cada convocação exigia sinais claros de que o mundo havia sido tocado de forma inadequada, uma instabilidade prolongada no Véu, um padrão incomum nas constelações, um evento emocional grande demais para ser ignorado. Quando os sinos de éter soaram naquela manhã, atravessando Vael’Tir com um timbre grave e contínuo, os Guardiões souberam, algo escapara às medidas habituais de contenção.
Lysenne ouviu o chamado do lugar onde estava, no corredor estreito que ligava os aposentos de contenção ao núcleo do templo, o som não era alto, mas vibrava por dentro, como se ressoasse diretamente nos ossos. Ela parou por um instante, fechou os olhos e deixou que o Véu se ajustasse ao redor dela como um manto invisível. Havia aprendido, ao longo dos anos, que o Conselho não reagia apenas a fatos, reagia a ameaças simbólicas, e nada era mais ameaçador para uma ordem fundada sobre contenção, do que a possibilidade de que algo antigo estivesse voltando a respirar.
O Salão do Conselho era circular, amplo, suspenso sobre o abismo prateado por colunas finíssimas de luz solidificada, o chão era um mapa de Aelyr esculpido em pedra lunar, arquipélagos, correntes de éter, zonas de instabilidade marcadas por veios mais escuros. Ali, cada Guardião sentia o mundo sob os pés, literal e metaforicamente.
Os anciãos já estavam reunidos quando Lysenne entrou. Havia onze deles naquela sessão, número raro, reservado a decisões que poderiam alterar protocolos antigos. Seus mantos eram mais densos, bordados com símbolos de autoridade acumulada, cada um carregava no corpo as marcas do que custava manter o mundo suspenso, olheiras profundas, mãos trêmulas, olhares que haviam aprendido a não se surpreender. No centro, de pé, estava Elaryn, sem algemas, sem selos visíveis, apenas o corpo, o fogo contido em camadas profundas, e uma postura que não era de desafio, tampouco de submissão. Ela observava o espaço com curiosidade atenta, como quem reconhece um velho inimigo que nunca deixou de estudar.
Lysenne tomou seu lugar à esquerda do assento principal, sentindo o peso do momento se instalar lentamente nos ombros. O ancião Kareth levantou-se.
— Esta sessão foi convocada para avaliar a presença de uma portadora do Fogo Profundo em Vael’Tir. Uma forma de magia interditada desde a queda de Solaer.
Elaryn manteve o olhar firme.
— Interditada não significa extinta.
Um murmúrio percorreu o círculo.
— Você falará quando for autorizada. — respondeu uma anciã de rosto estreito, sentada à direita de Kareth.
Elaryn inclinou levemente a cabeça.
— Claro, é assim que funciona aqui.
Lysenne sentiu o Véu vibrar com a ironia contida na frase.
Kareth ergueu uma mão, silenciando o salão.
— Identifique-se formalmente, nome, origem e natureza do poder.
Elaryn respirou fundo antes de responder, o fogo nela se ajustou, como quem se prepara para atravessar uma memória dolorosa.
— Elaryn Voidfell, nascida em Solaer, antes da queda, Portadora do Fogo Profundo por vínculo ancestral.
A palavra ancestral fez algumas lâminas de luz pulsarem.
— O Fogo Profundo não é hereditário, — afirmou outro ancião. — ele se manifesta por excesso emocional.
— Isso é o que vocês ensinaram depois de nos exterminarem. Em Solaer, sabíamos que ele se manifesta por reconhecimento.
— Reconhecimento de quê? - Kareth perguntou.
Elaryn virou-se lentamente, varrendo o círculo com o olhar.
— De quem pode sustentar.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Lysenne sentiu o mapa sob seus pés reagir, uma leve vibração nas zonas marcadas como instáveis, como se o mundo lembrasse de algo que tentara esquecer.
— Solaer caiu porque seus portadores se recusaram a conter o desejo. — acusou a anciã de antes. — Vocês transformaram amor em força destrutiva.
Elaryn sustentou o olhar dela.
— Não. Solaer caiu porque nos obrigaram a separar aquilo que só existia inteiro. Vocês chamaram isso de segurança, nós chamamos de mutilação.
— Cuidado! — advertiu Kareth.
— Não! Cuidado é fingir que isso não está acontecendo de novo.
Ela fez um gesto sutil com a mão, não evocando fogo, mas permitindo que uma fração mínima de calor escapasse, o salão reagiu imediatamente, a luz mudou, o ar tornou-se mais denso, e algumas runas no chão se acenderam em tons que não eram vistos ali havia décadas.
— O Véu não me rejeita, — continuou ela. — ele responde, porque o Fogo Profundo não rasga, ele exige reciprocidade.
Os anciãos trocaram olhares.
— Você afirma, então, que seu poder não oferece risco? — perguntou Kareth.
— Oferece. — Elaryn respondeu, sem hesitar. — Todo poder que nasce do vínculo oferece risco, a diferença é que ele também oferece sustentação, o mundo de vocês só aceita a primeira parte.
Lysenne sentiu todos os olhares se voltarem para ela.
— Guardiã de Vael, — disse Kareth — você foi a primeira a detectar a oscilação, descreva o ocorrido.
Lysenne levantou-se, por um instante mínimo, sentiu o peso da expectativa não apenas do Conselho, mas do próprio Véu, cada palavra que escolhesse não seria apenas registrada, seria sentida.
— A presença de Elaryn provocou aquecimento localizado do Véu no Salão Central, não houve ruptura, não houve fenda, o Véu… adaptou-se.
Um murmúrio percorreu o salão.
— Adaptou-se? — repetiu a anciã.
— Sim. Como se estivesse ajustando densidade, não reagiu com rejeição.
Kareth franziu o cenho.
— Isso é… incomum.
— É perigoso. — corrigiu outro ancião.
Lysenne respirou fundo.
— É diferente.
Elaryn virou-se para encará-la, o olhar âmbar carregava algo novo, não triunfo, não provocação, reconhecimento.
— O que você está dizendo, Lysenne? — perguntou Kareth.
A pergunta era direta, a resposta, não.
— Estou dizendo que o Fogo Profundo não se comporta como as instabilidades que conhecemos, ele não pressiona o Véu à força, ele… negocia.
A palavra pairou no ar.
— Magia não negocia. — afirmou a anciã.
— Pessoas negociam e o Fogo Profundo existe porque pessoas sentem. — completou Elaryn.
O silêncio que se seguiu não foi de concordância, mas de medo.
— Se aceitarmos essa lógica, — disse Kareth, lentamente — estaremos admitindo que o maior risco para Aelyr não é o poder, mas o que motiva o poder.
— Sempre foi. — Elaryn respondeu sem hesitar.
Lysenne sentiu o coração acelerar, ela sabia o que vinha a seguir, conhecia o Conselho o suficiente para reconhecer aquele momento em que a decisão já estava sendo tomada, mesmo que ninguém a verbalizasse ainda.
— Não podemos permitir que vínculos se formem sob o Véu. — disse a anciã, com voz dura. — Já pagamos esse preço uma vez.
— Vocês pagaram com o corpo de uma cidade — Elaryn retrucou. — e agora querem pagar com o silêncio de outra.
Kareth levantou-se novamente.
— Chega! — Sua voz ecoou pelo salão. — O Conselho deliberará.
Ele voltou-se para Lysenne.
— Guardiã de Vael, você manterá vigilância direta sobre Elaryn Voidfell. Qualquer alteração no Véu deverá ser reportada imediatamente, qualquer indício de formação de vínculo… — ele fez uma pausa — será tratado como ameaça existencial.
Lysenne sentiu o peso da frase se instalar como uma sentença.
— Sim, ancião.
Elaryn inclinou a cabeça levemente.
— Então estamos todas de acordo. — disse, com suavidade perigosa. — Vocês têm medo do amor e eu estou no lugar exato onde esse medo começa a falhar.
Alguns anciãos se levantaram em protesto, mas Kareth ergueu a mão.
— Sessão encerrada.
As lâminas de luz se apagaram uma a uma, o mapa sob os pés voltou à quietude aparente, mas Lysenne sabia, o mundo não esquecera nada do que fora dito ali.
Quando o salão começou a esvaziar, Elaryn aproximou-se dela.
— Você escolheu bem as palavras, diferente não é o mesmo que perigoso... ainda.
— Não confunda precisão com defesa.
— Não confundo, reconheço.
Por um instante, o ar entre elas pareceu aquecer.
— Tenha cuidado, — Lysenne murmurou. — o Conselho não perdoa desvios.
— Eu não peço perdão, eu sobrevivo.
E, ao se afastar, deixou atrás de si a sensação incômoda de que aquela sessão não fora um julgamento, fora um aviso, o mundo observava e o que quer que estivesse começando entre elas, já não era apenas íntimo, era político, era mágico, era inevitável.
Fim do capítulo
lgo mudou: o silêncio começou a pesar, o Véu respondeu, e certas verdades deixaram de caber atrás dos mantos. A partir daqui, nada volta a ser apenas protocolo.
Carinhosamente,
Liara Noren
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Liara Noren Em: 30/12/2025 Autora da história
Olá, Emi! Feliz em vê-la por aqui. S2
Não é destino, é consequência. Não é inevitável porque estava escrito, isso tiraria delas o poder de escolha, é inevitável porque há o reconhecimento de que algo se move entre as duas, mesmo que ainda seja sutil. Não se trata de profecia, é percepção. Há consciência de que não voltarão a ser desconhecidas uma para a outra.