Capitulo 21
Capitulo 21
"A vida não é o que a gente viveu, e sim o que a gente lembra, e como lembra para contar." - Gabriel García Márquez
O sol mal havia tocado as janelas da fazenda quando Diana, levantou da cama, a noite insone a fez levantar ainda mais cedo do que nos dias normais. Depois de fazer sua higiene, ligou para a mãe. Era cedo, mas ela precisava começar a juntar as partes desse quebra-cabeça.
Sandra atendeu com a voz ainda sonolenta.
- Diana? Aconteceu alguma coisa?
- Mãe, preciso conversar com a senhora. Desculpa pela hora.
- Filha... você está me deixando preocupada. - Sandra levantou da cama para não acordar Lucas, o que foi ineficaz. Ela fez gestos que era Diana.
- Mãe, ontem conversei com a Tita, e ela falou sobre alguns nomes, mas, precisamente sobre Zequinha e Machadinho.
Sandra ficou em silêncio por alguns segundos.
- Quem? Filha, calma. - Lucas já estava de pé ao seu lado.
- O que aconteceu? Me deixa falar com ela.
- Calma Lucas, ela quer saber sobre alguém.
- Mãe... Presta a atenção.
- Espera Diana! Calma! Você ligou cedo, é claro que nos assustaríamos. Então tenha calma, eu e seu pai precisamos de um tempinho para acordarmos.
- Desculpa, mãe. É que não consegui dormir direito a noite. Acordei elétrica.
- Certo. Vou pôr no viva a voz, seu pai quer saber o que está acontecendo também.
- Ok.
- Pode falar agora Di. Eu e Lucas estamos ouvindo e acordados.
Diana respirou fundo.
- Ontem a Tita falou sobre um tal de Zequinha e Machadinho, eles foram importantes nas acusações do meu pai, trabalhavam aqui na fazenda, só que não tenho lembrança alguma deles. E a senhora também nunca falou sobre eles.
- Filha, eu lembro pouco sobre os trabalhadores da fazenda, ficou mais marcado apenas o que eu tinha mais convivência. Esses dois, os nomes não me soam estranhos, mas é apenas isso.
- Diana, o que a Tita disse exatamente sobre eles? - Lucas perguntou.
- Eles acusaram o meu pai de ter saído de casa armado e ter brigado mais cedo com o Dr.Otávio.
- O que? O Dário não saiu armado de casa e muito menos brigou com o Otávio. Isso é mentira, filha!
- Calma... O que ela disse mais?
- Que apareceram várias pessoas acusando meu pai. Eu não lembro de nada disso Lucas... Eu... - Diana passou a mão na cabeça exasperada.
- Filha, se acalma. Vamos pensar juntos e Sandra, o que você pode dizer sobre esse período?
- Lucas, era tão complicado! Várias acusações de todos os lados. Aconteceu tudo tão rápido. Eu procurei advogados, mas, nenhum queria pegar o caso. Os que aceitavam, pouco depois desistiam. Diziam que não podiam mais defender o Dário.
Lucas segurou a mão de Sandra.
- Amor...
Diana respirou fundo.
- Mãe...
- Eu tentei de tudo, juro que tentei... Mas... era como se alguém os impedisse, até os promotores agiam com má vontade. O delegado Amaury também não ajudava, era evasivo, surgia sempre com desculpas, eu não consegui fazer mais filha... Não por falta de tentar, mas, eu não sabia onde conseguir ajuda.
Lucas abraçou a esposa.
- Eu sei mãe, eu sei. Olha não estou te culpando. Mas, eu preciso de mais informações, qualquer coisa que a senhora lembrar, qualquer papel, nome, tudo.
Sandra suspirou.
- Vou procurar. Mas não espere muito. A memória falha, e muita coisa se perdeu.
- Vou pedir pra uma amiga advogada investigar isso. Talvez ela consiga algo que você não conseguiu na época.
- Filha, vai colocar mais alguém a par dessa história.
- Posso confiar na Lavínia, pai. Ela e o Jarbas tem minha total confiança.
- Boa ideia, filha. Vou tentar lembrar de algo, assim que você falar com eles, me avisa, ok?
Diana hesitou, queria tocar no assunto da avó.
- E a vovó Iolanda?
Sandra ficou em silêncio por um momento.
- A Tita realmente foi fundo!
- Na verdade, encontrei com ela por acaso.
- Meu Deus! Ela te reconheceu? - Sandra perguntou assustada.
- Ela não me viu, mãe.
- Do jeito dela, tentou ajudar. Mas Diana... você precisa entender que os tempos eram outros. E até hoje, muitas mulheres são submissas ao marido, presas em um casamento por medo, dependência e falta de segurança.
Diana ficou em silêncio. A frase ecoava como um alerta.
Depois da ligação, ela permaneceu sentada na cama, remoendo tudo. As palavras de Tita, os silêncios da mãe, os nomes esquecidos. Era como se o passado estivesse enterrado sob camadas de poeira e dor.
Foi quando o celular vibrou.
Carol: "Bom dia! Hoje vou estar em outra cidade,
mas amanhã gostaria de jantar comigo?"
Diana sorriu. A mensagem veio como um sopro de leveza.
Diana: Trabalha demais dra, até em outra cidade?
Carol: Vou fazer um favor para um amigo.
mas, você não respondeu ao meu convite...
Diana: "Sim. E eu levo o vinho."
Carol: "Se beber, não dirija..."
Diana respondeu com uma sequência de emoticons sorridentes.
Diana: "A ideia é justamente essa."
Carol: "Você tá se convidando pra dormir na minha casa?"
Diana: "Dormir não é exatamente o que eu pensei... mas quem sabe..."
As duas riram, mesmo à distância. E combinaram de se falar até o jantar.
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Rico acordou com a cabeça latejando e o corpo pesado, um gosto amargo na boca. O quarto estava abafado, as cortinas mal fechadas deixavam a luz invadir sem piedade. Ele virou de lado, tentando fugir do incômodo, mas era inútil. O corpo doía, mas o que pesava mesmo era o que estava dentro. A ressaca não era só da bebida - era emocional. A noite anterior girava em sua mente como um filme mal editado, sentou-se na beira da cama, esfregando o rosto com força.
"Que droga foi aquilo?" Pensou.
Fechou os olhos, mas as imagens vinham em sequência: o bar, os olhares, o beijo em Liz, o sorriso sem graça dela depois, o olhar de Alice - aquele olhar que parecia julgá-lo o tempo todo.
Alice.
A médica.
A mulher que, desde o primeiro encontro, o tratou com frieza, com desdém. Como se ele fosse um moleque mimado e sem importância.
E isso o incomodava mais do que gostaria de admitir.
Rico não estava acostumado com esse tipo de tratamento. Normalmente, bastava um sorriso, uma piada, um olhar - e pronto. As pessoas se encantavam. Mas Alice não. Alice o ignorou. O enfrentou. O desarmou.
"Ela nem me conhece direito. E já me olha como se soubesse tudo sobre mim."
A antipatia crescia como uma defesa.
"Ela me menosprezou. E isso me tirou do sério. Quem ela pensa que é?"
Sentia uma raiva que não era só pela forma como foi tratado - era pela forma como ela o afetava.
Não era atração. Não era interesse. Era orgulho ferido. E agora, ver aquele mesmo olhar dela se suavizar quando olhava para Liz... aquilo acendeu algo dentro dele.
"Ela tá de olho na Liz.. Só pode. "
E Liz...
"Que beijo bom! Mas, o melhor mesmo foi ver a cara da tal Alice! Nossa! Foi bom demais..."
O beijo tinha sido bom. Melhor do que ele esperava. Ela correspondeu. E por um momento, ele achou que talvez... talvez tivesse algo ali. Mas não queria complicar. Não queria rótulos.
"A gente é jovem. Tem muito o que viver. Não quero namorar. Preciso deixar isso claro para ela, até porque o Douglas e a Diana me matam, sem falar no Brito. "
O beijo. O calor. A resposta dela.
Rico sorriu, mesmo com a cabeça doendo. Aquilo tinha sido bom. Muito bom. Liz era diferente. Tinha um jeito leve, mas firme. E o fato de ela ter correspondido... mexeu com ele.
"Mas, quem disse que a gente não pode se divertir. Sem pressão. Sem drama. Só se curtir."
Passou a mão no rosto, frustrado ao lembrar do olhar de Liz ao ver a Alice saindo com a loira.
"Mas por que, então, esse incômodo?
Talvez porque, pela primeira vez, ele sentia que podia perder algo antes mesmo de ter. E isso o deixava inquieto.
Levantou-se devagar, pegou uma garrafa de água e bebeu em goles longos. O corpo pedia descanso, mas a mente já estava em movimento.
"Ah doutorazinha não vou deixar você me levar a Liz na cara dura, sem uma boa briga."
E como se não bastasse, ainda tinha Diana.
A irmã perfeita. A que resolve tudo. A que todos confiam.
"E eu? Eu tô aqui tentando ajudar, tentando entender, mas ela me deixa de fora."
Ele queria ajudar. Queria mesmo. Queria limpar o nome do pai. Mas como? Ele não viveu aquilo. Não conheceu as pessoas. Não tem as memórias que Diana tem.
"E ela não me dá espaço. Não me inclui. Como se eu fosse só um figurante nessa história."
Sentou-se na cama. Respirou fundo. Precisava falar com Liz. Precisava entender o que aquilo significava. Precisava, talvez, dizer a Diana que ele também estava ali. Que ele também queria fazer parte.
Mas antes... precisava sair daquela cama. E tentar entender o que, de fato, estava sentindo.
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Liz já estava de pé antes do sol se firmar no céu. Como agrônoma, acordar cedo fazia parte da rotina - mas naquela manhã, não era só o trabalho que a movia. A cabeça fervilhava. A ansiedade a empurrava para fora da cama. A noite anterior não saía de sua mente.
Rico, era aquela paixão mal resolvida que insistia em voltar; e Alice, com seu jeito alegre e cativante, mexendo com suas estruturas de um jeito que ela não queria admitir.
Enquanto caminhava pelos campos, observando os primeiros sinais das mudanças de manejo e plano de cultivo das áreas reservadas para rotação de culturas agrícolas, ela tentava se concentrar.
"O que está acontecendo comigo? Até dias atrás eu queria conquistar o Rico, e agora..." pensava, enquanto caminhava até galpão onde encontraria os funcionários.
O beijo em Rico voltava como um eco. Uma paixão mal resolvida, que ela tentava ignorar há tempos. Gostava dele, sim. Mas muito mais do que ele representava: o amigo de infância, o irmão da melhor amiga, o cara que sempre esteve por perto - e que, por algum motivo, sempre escapava.
E então, Alice.
A médica com jeito leve, sorriso fácil, e uma presença que abalava suas convicções. Liz não podia negar: a saída de Alice com outra mulher no bar mexeu com ela. Sentiu ciúmes. Sentiu raiva. Um nó no peito que nunca havia sentido por ninguém.
Já tinha sentido ciúmes de Rico e suas conquistas - as mulheres que vinham e iam como vento. Mas com Alice... foi diferente. Foi mais fundo. Mais íntimo. E isso a deixava desconcertada.
No caminho encontrou com Mariana, que estava com alguns papéis e um caderno em mãos.
- Bom dia, filha. Já no batente?
- Sempre, né? - respondeu Liz, sem olhar.
Mariana percebeu o tom seco. Se aproximou devagar.
- Tá tudo bem?
Liz hesitou, depois soltou:
- Por que você não me disse que estava conversando com a Alice?
Mariana franziu o cenho, surpresa.
- Não vi motivo pra isso.
- Como assim não viu motivo?
- Ué, você que não quis trocar telefone com ela. Eu gostei muito da Alice. Temos conversado bastante. Até o Brito gosta dela. Já conhecia do hospital, quando foi buscar atendimento.
Liz apertou os lábios, incomodada.
- A senhora conversa com aquela conquistadora barata e ainda coloca o papai na historia?
- Não coloquei seu pai em história alguma, olha o respeito. E quem é conquistadora barata?
- A sua amiguinha.
Mariana sorriu. - Liz, eu não sei do que você está falando. Então seja mais especifica.
- A sua amiguinha Alice, estava ontem no Rancho 7.
- Ainda não vi motivos para você estar assim.
- Ah! Mãe, ela tava toda intima com o aquele ex, que parecia bem interessado voltar com ela e no fim acabou saindo com uma mulher que estava lá. Uma loira aguada, não sei o que ela viu naquela mulher.
Mariana respirou fundo, mantendo a calma.
- Liz... Alice é solteira. E como você mesma disse o rapaz é ex, não um inimigo. Não vejo problema algum nisso. Ela tem o direito de viver a vida dela.
Liz olhou para a mãe, incrédula.
- Você tá defendendo ela?
- Não. Só tô tentando entender por que isso te incomoda tanto. - Mariana a encarou firme. - Por que, filha?
Liz não respondeu. Porque não sabia. Porque não queria admitir. Ficou em silêncio, olhando para o chão, o coração acelerado.
Mariana, que conhecia bem a filha, se aproximou e a abraçou com carinho.
- Talvez você devesse dar uma chance de conhecer melhor a Alice. E outras pessoas também. Às vezes, o que a gente sente não faz sentido... até fazer.
Liz permaneceu abraçada por um tempo, tentando conter o turbilhão dentro dela. Depois se afastou devagar.
- Tenho um monte de coisa pra fazer. - Disse, tentando encerrar o assunto.
- Eu também. Vamos juntas até o galpão? - Mariana sugeriu.
Liz concordou e seguiram juntas em silencio, cada uma com seus pensamentos
Ao chegarem, encontraram com Brito que já organizava os materiais, conversava com alguns funcionários e aproveitou para as atualizar sobre o andamento das obras.
- Bom dia, meninas. Hoje começamos a nova fase das construções que a Diana pediu. Parte administrativa e os cuidados veterinários.
Liz assentiu, ainda com o semblante fechado.
- E a área de agronomia?
- Também está na segunda fase. Vai ficar muito bom. - Brito sorriu. - E aproveitando... vamos começar a reforma do espaço que a Diana cedeu pro Douglas montar o estúdio dele.
Mariana riu.
- Douglas está animado com essa parte, quando saí ele já estava indo para o local.
- Daqui a pouco vou até lá, Mari. E Liz, os funcionários já estão reunidos esperando para você passar as novas ações e diretrizes.
- Vou lá pai. O senhor vai vir também?
- Sim, daqui a pouco chego lá. Vou só falar algo rápido com sua mãe.
Liz assentiu e saiu em direção ao espaço indicado por Brito. Ao chegar lá encontrou vários homens e mulheres ansiosos pelo que viria.
Brito olhou para a esposa e perguntou: - O que ela tem?
- Tome conta dela, o coração dela está dando sinais que ela ainda não está entendendo.
- Rico? - Eles sabiam da paixão da filha pelo jovem.
- Alice.
- A médica? Mariana, nossa filha nunca demonstrou interesse...
- Quem manda no coração? Ou compreende as razões dele?
Brito apenas assentiu e seguiu até onde a filha estava e Mariana foi para outra parte do espaço. Entrou sem fazer alarde enquanto escutava a filha conversar com os funcionários.
Alguns mapas que já estavam na mesa, enquanto Liz mostrava alguns pontos e os novos projetos, ela começou a explicar como seriam eles realizados.
- Hoje vamos aplicar os novos conceitos que estamos discutindo há alguns dias. Rotação de culturas, novas áreas de plantio de milho e feijão, e ajustes no manejo da irrigação. Quero atenção redobrada, porque essa fase é decisiva.
Um dos trabalhadores, João, levantou a mão timidamente:
- Doutora Liz, a gente ainda não entendeu direito como vai ser a divisão das áreas...
Liz suspirou, impaciente.
- João, eu já expliquei ontem. É só seguir o cronograma. Não tem mistério.
Os homens se entreolharam, desconfortáveis.
Liz fechou os olhos por um instante.
- Desculpa pessoal! Quais são as dúvidas João e mais alguém também tem?
João então fez as perguntas, Liz respondeu com mais calma, alguns outros funcionários também estavam com dúvidas que foram prontamente respondidas por ela, ao final todos ficaram satisfeitos com as respostas dada pela agrônoma. Saíram para realizar as tarefas.
Brito, que observava de perto, se aproximou.
- Pai... Vai reclamar?
- Liz... Primeiro, você precisa ter paciência. Eles estão tentando. Nem todo mundo entende de primeira, algumas coisas são novidades para eles.
- Eu sei. Errei, mas, acredito que me corrigi a tempo.
- Sim. Tenha apenas mais cuidado das próximas vezes, eles são fundamentais para o sucesso e você precisa da ajuda deles. Funcionário comprometido é garantia de sucesso.
- Entendi, pai.
- Essa é a segunda coisa, aqui é Brito, o pai fica para outras horas, entendido doutora Liz?
Liz sorriu, abraçou o pai com carinho e seguiu para os seus afazeres.
Fim do capítulo
Espero comentários... muitos comentários....
Senão... só em 2026....
Bjos.... e comentem...
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Zanja45
Em: 05/01/2026
Liz está irritadinha, com ciumes das aventuras de Alice.
Dinha Lins
Em: 22/03/2026
Autora da história
kkkkkkk Liz tem que abrir os olhos... a Doutora não abaixa a cabeça....kkkkk
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Zanja45
Em: 05/01/2026
Esse Rico parece que vai aprontar um pouco. — O ciúme dele pela irmã esta parecendo o do tio de Carol.— Gabriel.
Dinha Lins
Em: 22/03/2026
Autora da história
Do Gabriel não, mas, o Rico (vou defender meu personagem, kkkk) até certo ponto não consegue ter a conexão que a Diana tem com o pai, e isso mexe com ele, e nem sempre a gnt consegue lidar bem com nossas frustações, medos....
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HelOliveira
Em: 01/01/2026
To achando que o Rico vai arrumar confusão e grande...
Liz quando vai aceitar que tá morrendo de ciúmes..
Feliz 2026
Dinha Lins
Em: 02/01/2026
Autora da história
Feliz 2026!
kkkkk ciumes e dos grandes...
Será que o Rico vai ser o para raios de problemas?
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Dinha Lins Em: 22/03/2026 Autora da história
Acho que a Liz ta criando juizo...