Capitulo 24 - Audiência
Capítulo vinte e quatro
ESTHER MOTTA
Passar um dia inteiro esperando a Carolina foi definitivamente a coisa mais inútil que eu já fiz em toda minha vida. Ela estava irredutível em seu projeto de transformar minha vida em um inferno.
Eu estava tentando manter a compostura, não queria que ela percebesse que me assustava, então eu fui preparada pra bater de frente, com mil argumentos, sobre aquela decisão estúpida de colocar nossa filha no meio de uma batalha judicial.
Mas eu confesso que nada me preparou para vê-la chorando daquela forma. Meu coração apertou um pouco, e ali eu tive uma dimensão real do tamanho das feridas que deixamos uma na outra.
-- Sai do meu carro. -- Ela pediu mais uma vez. E dessa vez, eu achei melhor ir embora mesmo. Não ia sair nada dali, e eu não tinha mais energia pra discussões.
Abri a porta e me virei para olhá-la, o rosto ainda vermelho, não me encarava de volta.
-- Não Carol, eu não acho que você merecia isso. -- Falei, respondendo a pergunta que ela havia me feito minutos atrás. -- Segurar nossa filha nos braços… Ver ela crescer, ouvir as primeiras palavras… Eu te privei de várias coisas. -- Eu falei em um fio de voz.
Minha ex, que mantinha a cabeça baixa, finalmente se virou para mim.
-- Você tá tentando me torturar? -- Perguntou, parecendo indignada.
-- O que eu quero dizer, é que a Lara tem apenas seis anos… Ainda tem tanta coisa pra você acompanhar na vida dela… -- Enxuguei uma lágrima solitária que caiu pelo meu rosto. -- Se o seu objetivo realmente é recuperar o tempo perdido, você pode ter isso sem traumatizar nossa filha.
Carol desviou o olhar para a direção oposta, num claro sinal de que aquela discussão havia sido encerrada.
-- Boa noite Esther. -- Sua voz distante foi a deixa para que eu me afastasse.
Depois daquele dia não fui mais procurá-la.
Uma semana se passou e o dia da audiência havia finalmente chegado. Eu, obviamente, apareci ali com cerca de uma hora de antecedência pois não me aguentava em ansiedade.
Assim que avistei minha advogada, meu coração se acalmou um pouco. A Dra. Estela havia me alertado com sinceridade sobre os riscos que eu corria e que Carolina tinha sim alguma chance de vencer, mas me deu sua palavra de que usaria todos os recursos que estivessem ao seu alcance para proteger a mim e a minha filha.
-- Como você está? -- Sorriu me encarando com olhos azuis que tentavam me passar alguma confiança. -- Nervosa?
-- Parece que estou nervosa? -- Estendi minhas mãos que tremiam e ela riu.
-- Não se preocupe, vai dar tudo certo.
Carolina não tardou a chegar, estava vestida impecavelmente, de calça preta canelada e blusa social branca, os cabelos caíam lisos por suas costas e brincos grandes de argola enfeitavam suas orelhas, além de outros acessórios claramente luxuosos como um relógio importado e o scarpin verniz preto que emoldurava seus pés.
Meu Deus, ela estava exageradamente linda.
-- Esther… Quão rica exatamente ela é? -- Minha advogada pareceu desconfortável quando me perguntou baixinho.
Voltei a observar Carolina e de fato, parecia um pouco demais aquela ostentação.
-- Eu… Eu não sei, não faço ideia. -- Olhei para a advogada que parecia pensativa e me preocupei. -- Isso é um problema?
-- Espero que não…
Quando fomos chamados para entrar na sala, eu pude sentir que minhas mãos estavam suando e tudo o que eu queria era não estar ali.
Mas eu não tinha escolha.
-- Boa noite a todos. -- O juiz iniciou, depois que ambas as partes se acomodaram. -- Declaro aberta a audiência referente ao processo de guarda unilateral movido pela autora Carolina Fonseca, representada pelo advogado Dr. Inácio Farias, em face da ré Esther Ferreira Motta, representada pela advogada Dra. Estela Bianchi.
Respirei fundo. Era a minha primeira audiência, e cada detalhe -- o silêncio, as pastas empilhadas, o modo impassível do juiz -- me deixava ainda mais nervosa. Carolina, por outro lado, parecia ter nascido naquele lugar. Calma, composta. Como se tivesse decorado o ritual.
-- Autora e ré possuíam união estável registrada… -- o juiz continuou, lendo o histórico como se fosse apenas mais um processo entre tantos.
Como se não estivesse descrevendo a minha vida.
Olhei para Carolina. Ela mantinha aquela expressão neutra, irritantemente limpa de qualquer emoção.
-- A autora confirma que houve adultério de sua parte e que, na época, sua companheira Esther comunicou ter sofrido um aborto espontâneo…
Meu peito apertou. Reviver aquilo era como um soco no estômago.
-- O motivo desta audiência -- prosseguiu -- é o fato de que a autora, após descobrir que o aborto jamais ocorreu e que a ré ocultou deliberadamente a existência da filha, de agora cinco anos de idade, solicita a guarda unilateral da menor.
Não pude evitar a ponta de indignação. Guarda unilateral. Um absurdo.
O juíz concluiu a leitura e, em seguida, o tal Inácio tomou a palavra. Bastaram três frases para eu confirmar que ele era exatamente o tipo de pessoa que parecia ser.
Quando ele sugeriu que eu teria pressionado Carolina a ter um filho, senti o estômago revirar.
Então era isso que ela havia contado?
-- Minha cliente cometeu erros -- disse ele com uma calma estudada -- mas sempre teve consciência de seu papel como mãe da criança que estava por vir.
Mentira. E ele provavelmente sabia disso.
-- Entretanto, a ré, tomada por certo… -- Ele fez um pequeno gesto com a mão, escolhendo as palavras -- ressentimento após ser traída, decidiu privar minha cliente da experiência de ser mãe, deixando-a com a culpa pela perda de um filho. Culpa essa que teria sido eterna, não fosse o acaso revelar a verdade.
Engoli em seco. O cinismo dele era evidente, mas algumas palavras me acertavam com a dor de serem a mais pura verdade.
Estela lançou um olhar firme em minha direção, pedindo calma, e se levantou.
Eu havia contado tudo a ela -- a traição, o medo, a decisão terrível de esconder minha filha. Cada detalhe.
-- O equívoco da minha cliente foi presumir reciprocidade onde não havia -- começou Estela. -- Após o procedimento de fertilização bem-sucedido, a autora passou a demonstrar comportamentos que geraram instabilidade emocional na ré.
Vi Carolina se remexer na cadeira.
-- O que se seguiu foram episódios de abandono, abuso emocional e, por fim, uma traição que, somada à imaturidade natural da idade e aos hormônios da gravidez, devastou o psicológico da minha cliente. Foi nesse estado que ela tomou a decisão que culminou no cenário de hoje.
Estela abriu a pasta, espalhando documentos pela mesa.
-- Minha cliente não escondeu sua história. Já a autora… -- ela girou alguns papéis na direção do juíz -- apresenta um padrão de comportamentos públicos destrutivos: envolvimento com drogas, escândalos, promiscuidade. Situações amplamente registradas na mídia.
Eu senti o olhar de Carolina em minha direção, mas não ousei encará-la.
-- Além disso, interrompeu abruptamente anos de tratamento psicológico, o que nos leva, por segurança da menor, a solicitar avaliação que comprove sua plena estabilidade emocional.
Inácio examinou os documentos, respirou fundo e ergueu o olhar para a juíza.
-- Excelência, solicito trinta minutos de intervalo.
O pedido foi concedido. Ele saiu praticamente arrancando o ar da sala, Carolina logo atrás -- o passo dela mais apressado do que antes.
Observei os dois desaparecerem pelo corredor e senti, pela primeira vez, uma pontada de esperança em meio aquele pesadelo.
Fim do capítulo
É, Carol não desistiu e as duas estão tendo que encarar o passado de uma forma bem desagradável.
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