Capitulo 23 - Guerra perdida
23 - Guerra perdida
Capítulo vinte e três
CAROLINA FONSECA
Ouvir a voz da Esther às oito horas da manhã, quando eu ainda sequer havia terminado de beber meu café definitivamente não era a minha idealização de segunda-feira.
Me levantei da cadeira e busquei forças sabe-se lá de onde para respirar fundo e abrir aquela porta.
Notei que ela segurava um envelope grande e amarelo na mão, o que significava que provavelmente já havia recebido a visita de um oficial de justiça.
Mas é claro Carolina, você achou que ela veio te ver?
Sai dali o mais depressa possível. Ela que ficasse ali sozinha, era muito difícil ficar perto de Esther sem que o passado me atropelasse com força total.
Desci parando no térreo e fui até a sala de Douglas. O coordenador de eventos, assim que me viu levantou-se rapidamente e veio em minha direção.
-- O que houve? -- Perguntei querendo saber o motivo dele ter me enviado tantas mensagens logo pela manhã.
-- A equipe de segurança que eu contratei pra festa no final do mês… Bom, eles cancelaram.
-- Só contratar outra equipe, não?
-- Carol, está muito em cima da hora… Eu não sei se vou conseguir encontrar alguma com os seus critérios.
Revirei os olhos. “Meus critérios” eram apenas coisas bem básicas, do tipo, ter boas avaliações, estar no mercado há mais de cinco anos e disponibilizar antecedentes criminais de todos os responsáveis pela segurança do evento.
-- Eu sei que você consegue encontrar uma equipe decente, nós só não podemos cancelar a festa, entendeu? Vamos fazer muitos contatos importantes esse mês. -- Falei irritada, aquele era o trabalho dele, por que ele me fez sair da minha sala pra isso?
Tudo bem que eu precisava mesmo sair daquela sala. Pensei.
Era quase final do dia e eu me concentrei em ocupar meu tempo o máximo que eu pudesse, passei por todos os setores. Conferi a produção minuciosamente, li todas as colunas e matérias que seriam publicadas e acompanhei a diagramação. Eu precisava ocupar minha mente para me esquecer da bagunça que a minha vida pessoal, antes inexistente, tinha se tornado.
A revista já estava praticamente vazia e só restava alguns dos redatores e os seguranças. Peguei o elevador e subi até o último andar. O local àquelas horas já estava um pouco escuro, pois Laura sempre desligava a luz que ficava sobre a sua mesa quando ia embora.
Mas foi um barulho vindo da minha sala que chamou minha atenção.
Me aproximei da porta e a sensação de déjà-vu ao ouvir o barulho daquele joguinho insuportável foi avassaladora.
Abri a porta e lá estava ela, ainda sentada no sofá, com uma barra de cereal na mão e o celular na outra.
Levantou seu olhar para mim e eu imediatamente tratei de dizer.
-- Vá embora, por favor. -- Entrei na sala e fui em direção a mesa para pegar as chaves do meu carro. -- Estou exausta.
Ouvi ela se levantar e seus passos se aproximarem de mim, assim que colocou aquele maldito envelope sobre a minha mesa me olhou nos olhos.
-- Carol… Você não vai tirar minha filha de mim. -- Engoli em seco e me odiei por ainda me intimidar quando ela me olhava daquele jeito sério.
-- Seria um absurdo, né? Tirar uma filha da mãe dela… -- Usei todo o meu sarcasmo para dissipar meu nervosismo.
-- Uma parte de mim não se arrepende Carolina… Olha como você é imatura, está fazendo isso por pura vingança.
Não se arrepende?
Senti meu corpo tremer de raiva. Esther devia se achar muito madura por ter criado uma filha sozinha, por ter reconstruído sua vida a ponto de estar prestes a se casar com outra mulher.
Olhei em seus olhos e por um momento imaginei se aquela vida seria minha caso eu não tivesse errado tanto.
De qualquer forma ela havia roubado aquilo de mim.
-- Pode deixar… -- Fui caminhando até a porta e parei. -- Eu vou fazer com que você se arrependa. -- Saí a passos apressado em direção ao elevador e Esther foi atrás, segurou a porta com uma mão e entrou junto comigo.
Confesso que estar em um espaço de 4m² com Esther fazia meu coração falhar vez e outra, mas lembrar que ela havia dito não se arrepender de ter escondido Lara de mim devolvia minha consciência.
-- Eu sei que você está tentando me atacar… E você está conseguindo. -- Ela falou e eu juro com todas as minhas forças que era muito difícil para mim vê-la assustada e não sentir vontade de desistir daquilo.
-- Eu só quero recuperar o que você tomou de mim. -- Eu não fui muito sincera. Recuperar o tempo perdido? Eu não sabia nem como conversar com uma criança. Eu queria mesmo era fazê-la sentir um pouco da dor que eu senti durante tantos anos.
Quando cheguei até a rua Esther ainda me seguia, falando e falando coisas que eu me esforcei para nem prestar mais atenção. Assim que entrei no carro ela abriu a porta do carona e entrou ao meu lado.
-- Carol, tem mil e uma formas de vocês duas se aproximarem, por favor… Ela é só uma criança. -- Esther insistiu.
Respirei fundo. De que formas eu poderia me aproximar da Lara se eu a deixasse com Esther? Se eu não tomasse nenhuma atitude? Até mesmo aquela maldita fotógrafa tinha mais importância na vida da minha filha do que eu.
Eu estava magoada.
-- Sai do carro… -- Resmunguei, eu precisava ficar só. Esfriar a cabeça.
-- Carol, ela não merece passar por isso… Além do mais, você não está preparada pra lidar com uma criança.
Respirei fundo e balancei a cabeça concordando. -- Você tem razão… -- Fitei seus olhos por trás das lentes de vidro. -- E sabe por que eu não estou preparada?
Esther desviou o olhar, ela sabia a resposta, mas eu faria questão de lembrá-la.
-- PORQUE DURANTE TODOS ESSES ANOS EU NUNCA IMAGINEI QUE EU TIVESSE UMA FILHA! -- Esmurrei o volante irritada, sentindo um nó na garganta.
Ela me encarou como quem me censurava por ter gritado.
-- Eu não posso voltar no tempo Carolina… -- Disse com a voz falha.
Realmente, voltar no tempo não era uma opção.
-- Eu queria poder voltar. -- Murmurei baixinho e ela deu um riso amargo.
-- Eu sei que você queria… Você disse no dia que terminamos.
Aquilo me acertou em cheio, porque era verdade, eu tinha dito cada uma daquelas palavras. E se eu ainda me lembrava, eu nem quero imaginar como tudo ainda estava vivo na memória de Esther.
Aquele pensamento me fez engasgar com a minha própria culpa, e eu só notei que estava chorando quando minha visão embaçou.
-- Você não mereceu nada do que eu fiz com você… Eu fui horrível. -- Apoiei a cabeça contra o volante. -- Mas sinceramente, você acha mesmo que eu mereci o que você fez comigo?
Recebi um longo silêncio como resposta. Aquela era uma guerra perdida.
-- Sai do meu carro, e não me faça pedir de novo.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 12/12/2025
Hora delas pensarem na Lara, uma criança não precisa passar por uma briga judicial por conta dos erros das duas...mas continuo sendo time time Esther..
Carol tem tudo para se redimir dos seus erros, mas se continuar por esse caminho só vai piorar as coisas...
Hora de agir como adulta
silverquote
Em: 20/12/2025
Autora da história
Carolina, assim como no passado, ainda não processou 100% que tem uma filha. Parte dela está fazendo isso pra atingir a Esther.
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Mahinju
Em: 12/12/2025
Às duas erraram feio uma com a outra de formas diferentes, porém agora tem uma pessoa além delas, a filha que tem que ser a peça principalmente para elas entenderem que qualquer decisão sem pensar vai atingir a filha delas.
Sem falar que ainda existe sentimentos entre elas que não foi resolvido.
silverquote
Em: 20/12/2025
Autora da história
Sim, de fato. A Lara deveria ser prioridade em meio essa confusão de sentimentos que rodeiam as duas.
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silverquote Em: 20/12/2025 Autora da história
Você é time Esther mesmo hein hahaha tem nem um pouquinho de dó da Carol?
Não julgo, porque eu também não tenho muita dó dela não kk