Capitulo 25 - Vitória?
Capítulo vinte e cinco
CAROLINA FONSECA
Quando a juíza anunciou o intervalo, senti o sangue pulsar nos meus ouvidos. Não pela audiência em si -- eu já havia enfrentado coisas piores, manchetes piores, tribunais piores --mas pela forma como Esther teve coragem de desviar o olhar quando aqueles papéis foram colocados sobre a mesa.
Meu advogado saiu da sala como se estivesse fugindo de um incêndio. A porta mal tinha fechado e ele já revirava a pasta, bufando.
-- Isso é um absurdo -- murmurou, enquanto atravessávamos o corredor quase vazio. -- Absoluto absurdo.
Eu o deixei resmungar. Ele parecia o tipo que precisava descarregar a frustração antes de organizar seus pensamentos.
Paramos numa sala reservada, daquelas com mesa de plástico e cadeiras desconfortáveis, Inácio fingia bem não estar à beira de um ataque de nervos. Jogou a pasta sobre a mesa e empurrou os óculos para cima do nariz.
-- Eu esperava que elas viessem preparadas. -- ele disse, apontando para os papéis. -- mas isso aqui… isso extrapolou qualquer expectativa.
Cruzei os braços, tentando parecer menos atingida do que eu realmente estava.
-- Nada do que ela disse é mentira, está público. -- respondi. -- Estou te pagando muito caro pra você surtar por uma tolice dessas.
Ele me lançou um olhar indignado.
-- Carolina, por favor. Nós estamos tentando provar que você é a parte estável dessa história.
Inácio fechou a pasta devagar. Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa. Controlada.
-- O juíz engoliu parte do discurso da sua ex. Eu vi. Aquele papelzinho de “mãe arrependida” sempre funciona nessas salas.
Senti meu maxilar travar.
-- Ela mentiu por seis anos -- eu disse, firme. -- Ela me tirou a minha filha. Isso deveria pesar mais.
-- Deveria -- ele concordou. -- Mas não pesa. Porque você já fez merd* demais. Sua imagem cansa o judiciário, Carolina. Sem contar que eles adoram uma mãe arrependida, lembre-se disso.
Ele fez uma pausa, me observando como quem mede até onde pode ir.
-- Isso é um problema -- continuou. -- Um problema real. Se nada mudar… você não ganha essa guarda.
Franzi a testa. Até poucos dias Inácio parecia extremamente confiante, e agora vinha com aquela conversa de que se nada mudar eu vou perder? Ele me paga!
-- Então faça mudar -- respondi entredentes.
Foi então que ele respirou fundo, como quem toma coragem para atravessar uma porta invisível.
-- Existe uma… alternativa. -- Ele disse, pesando cada sílaba. -- Não a mais bonita. Não a mais ética. Mas… definitivamente a mais eficaz.
Suspirei irritada, eu sabia muito bem onde ele queria chegar.
-- Desembucha, Inácio.
Ele se inclinou para frente, entrelaçando as mãos sobre a mesa.
-- Eu conheço esse juíz há muitos anos. Ele gosta de… incentivos. Digamos assim. -- Ele baixou ainda mais a voz. -- Nada explícito. Nada escrito. Nada que vá voltar para você de forma negativa. É só um meio de garantir que ele “compreenda melhor” o que está em jogo aqui.
Meu estômago revirou. Não de surpresa, afinal eu sabia muito bem como o mundo funcionava, mas sim porque parecia de certa forma injusto com Esther.
Mas em algum momento ela foi justa comigo?
-- Qual a probabilidade do juíz aceitar? -- perguntei, tentando manter a frieza.
-- Cem por cento. -- ele respondeu sem hesitar. -- Se for comigo intermediando, não tem erro. Não seria a primeira vez que ele…”
Ele parou, respirou, e recomeçou com outra frase, mais limpa, mais ensaiada:
-- O sistema não é tão imparcial quanto gosta de parecer, Carolina. Você sabe disso. E você tem muito a perder aqui.
Meu coração bateu forte, era verdade. Por inúmeras vezes eu simplesmente usei de influência e dinheiro para varrer coisas para debaixo do tapete. Mas porque naquela situação parecia tão imoral?
-- Encontre outra maneira. -- Tentei ser firme.
Inácio bufou irritado. -- Me desculpe Carolina, mas você vai perder.
Eu já havia perdido Esther uma vez, perdido o que tínhamos, perdido anos ao lado da minha filha. Mas perder agora? Deixar que Lara crescesse cada vez mais apegada a noiva de Esther e me considerando uma estranha em sua vida?
Não, isso estava fora de cogitação.
Inácio me observava, esperando.
-- Carolina… -- ele disse devagar. -- Eu só preciso que você diga se quer que eu siga por esse caminho ou não.
Fiquei em silêncio por um longo tempo. Longo o bastante para que ele começasse a ficar nervoso.
Por fim, ergui o olhar e respondi, com a voz firme:
-- Faça o que for preciso. Eu não quero saber como.
Inácio sorriu vitorioso.
-- Perfeito. -- Ele fechou a pasta. -- Já está ganho.
Dessa vez, ele parecia muito mais confiante. Mas por algum motivo, eu não me senti feliz.
Sem muita surpresa, a segunda parte da audiência tomou novos rumos. A vitória viria sem esforço algum, e em determinado momento, eu notei a advogada de Esther falar algo em seu ouvido que pareceu desestabilizá-la momentaneamente.
Ela imediatamente levantou o olhar em minha direção. Vi revolta e tristeza em seus olhos.
Esther provavelmente nunca me perdoaria. Outra vez.
-- Queremos propor a guarda compartilhada. -- A advogada de Carol levantou a proposta. -- As responsabilidades serão dividas e ambas terão participação na vida da menor.
-- Você não precisa aceitar isso, Carolina, você vai ganhar a guarda unilateral. -- Inácio sussurrou em meu ouvido, mas decidi arriscar.
-- A Lara viveria comigo?
-- COM VOCÊ?! -- Esther se exaltou. -- Você acha que tem estabilidade pra criar uma criança?
-- Esther, por favor… -- A advogada a censurou. -- Sim, Carolina. A Lara poderia viver com você, depois de uma devida adaptação. Apesar disso, Esther precisa ter total direito de visitá-la e até mesmo levar a Lara para passar alguns dias com ela.
Inácio soltou um riso debochado.
-- Minha cliente não vai…
-- Aceito. -- O interrompi. Não queria mais prolongar aquilo, e não estava confortável com a direção que as coisas tinham se encaminhado.
Notei um olhar confuso do juiz para o meu advogado, porém não me importei. A sessão foi encerrada com o acordo entre as partes, e naquele mesmo dia, Esther levaria nossa filha para um primeiro contato.
Na saída do fórum, olhei para os lados, mas ela provavelmente já havia partido.
Estava feito, e pela primeira vez, eu estava conseguindo me visualizar sendo uma mãe.
Mal sabia eu, que aquilo seria mais difícil do que parecia.
Fim do capítulo
Carolina levou a melhor, mas a que custo?
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Mahinju
Em: 21/12/2025
Acredito que será interessante a guarda compartilhada, assim elas terão que criar estratégicas de aproximação para o bem estar da criança, lógico que terá conflito, pq é normal já que tem diversas coisas envolvidas principalmente os sentimentos, raiva, decepção, ciúmes, amor, abandono, culpa, medo e diversos outros.
Nesse rolo todo Jaqueline será carta fora do jogo, acredito que ela nunca esteve no jogo, pela forma que Ester nunca deixou ela se encaixar.
Carolina e Ester tem culpa da situação chegar como chegou, então as duas tem responsabilidade de resolver.
HelOliveira
Em: 20/12/2025
Será que valeu a pena Carol?
Ela foi pior do que eu imaginava, se tivesse conversado com a Esther ela teria muito mais, e sem sujeira, espero que ela apanhe bastante nessa aproximação
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