Capitulo 22
Por Luísa:
O Uber chegou exatos cinco minutos depois que chamei. Um milagre urbano que considerei um bom presságio para o dia. Me despedi da Bia com um "obrigada pelo café" educado, ignorando completamente a onda de sensações daquela manhã. Profissional, pensei comigo mesma. Mantenha-se profissional.
Durante o trajeto até casa, fiquei olhando pela janela, observando a cidade. Pedestres com cara de segunda-feira, trânsito se formando, o mundo retomando sua rotina implacável. Mas meus pensamentos insistiam em voltar para aqueles últimos minutos na cozinha da Bia. O jeito como ela havia se aproximado, a voz baixa no meu ouvido, aquele comentário carregado de intenção.
Diferente no melhor sentido.
Balancei a cabeça, tentando me concentrar no que realmente importava: chegar em casa, tomar um banho decente, trocar de roupa e correr para PS. Tinha reuniões e uma pilha de pendências para resolver até às seis da tarde.
Abri a porta de casa e imediatamente senti. Não eram olhares propriamente ditos. Eram presenças carregadas de curiosidade mal disfarçada. Minha mãe estava sentada no sofá da sala fingindo extremo interesse numa xícara de café, enquanto Célia, estava estrategicamente posicionada ao lado dela com um livro que claramente não estava lendo.
— Bom dia — falei, tentando soar casual enquanto atravessava a sala em direção ao meu quarto.
— Bom dia, filha — minha mãe respondeu com aquele tom que conhecia desde a adolescência. O tom que significava: "tenho pelo menos quinze perguntas, mas vou fingir que não tenho".
Célia ergueu os olhos do livro e me lançou um sorriso.
— Chegou cedo hoje — Valéria comentou, ainda sem me olhar e com a voz carregada de ironia.
— Acabei pegando no sono lá na casa da Bia — respondi, acelerando o passo.
— Claro, claro... — ela murmurou, e eu praticamente pude ver um sorriso de canto se formando em seus lábios.
Consegui chegar ao meu quarto fugindo de mais perguntas, mas senti o peso dos olhares curiosos até fechar a porta. Suspirei, encostando as costas na porta. Minha mãe tinha um radar para situações... diferentes. E ontem definitivamente havia sido diferente, já que não costumava dormir fora de casa.
Peguei uma toalha e me dirigi ao banheiro, tentando ignorar o fato de que ainda conseguia sentir um rastro sutil do perfume da Bia na minha pele.
A água quente do chuveiro foi como um reset necessário. Deixei que lavasse não apenas o suor e o cansaço da noite anterior, mas também aquela sensação estranha de estar navegando em águas desconhecidas.
Estava passando shampoo no cabelo quando, do nada, me peguei sorrindo.
Bia constrangida.
Nunca tinha visto ela assim. Durante todos estes meses em que nos aproximamos, sempre a havia visto no controle. Bia era confiança pura: na frente das câmeras, nos stories, nas lives...
Mas naquela manhã, quando mostrei o engajamento do post e fiz aquele comentário sobre ela voltar ao trabalho... A expressão dela havia mudado completamente. Por alguns segundos, vi algo que parecia... vulnerabilidade? Insegurança? Não sei…
E quando eu disse aquilo sobre o café ser "diferente no melhor sentido", juro que vi um rubor sutil subir pelo pescoço dela.
Ri sozinha debaixo do chuveiro. Quem diria que a confiante Bia Albuquerque ficava sem jeito?
Meu sorriso desapareceu quando me lembrei do momento em que ela se aproximou por trás, colocando a mão na minha cintura, sua voz no meu ouvido. Aquilo não tinha sido constrangimento. Tinha sido outra coisa completamente diferente.
Foco, Luísa, me repreendi mentalmente. Você tem que trabalhar e uma vida para tocar.
Mesmo que tentasse, enquanto ensaboava o corpo, não consegui evitar pensar em como tinha sido estranho, mas bom acordar naquele apartamento. Não apenas pelo fato de ter dormido como uma pedra pela primeira vez em dias, mas por toda a situação. O cuidado dela em deixar o travesseiro e me cobrir com uma manta, o kit de higiene no banheiro...
Fechei os olhos e deixei a água quente bater no meu rosto. Quando os abri novamente, uma decisão estava se consolidando: ia fingir que aquela manhã havia sido apenas mais um episódio da nossa parceria profissional. Bia tinha conseguido o engajamento que queria, eu tinha ganhado uma noite de sono decente, e agora voltaríamos ao normal.
Normal.
Por que essa palavra soava tão... insatisfatória?
Saí do banho, me sequei e fui até o armário escolher uma roupa. Conjunto social cinza, com blazer e calça reta, uma camisa branca por baixo. Sentei na beirada da cama para ajustar a prótese na perna, verificando se estava bem encaixada antes de calçar o tênis branco.
Estava terminando de me arrumar quando ouvi uma batida suave na porta.
— Luísa? — a voz da Valéria. — Posso entrar?
— Pode.
Ela entrou e se acomodou na poltrona ao lado da cômoda, com aquela postura de mãe que claramente tinha algo a dizer mas estava escolhendo as palavras.
— Então... — começou, com um meio sorriso — noite longa?
Continuei penteando o cabelo, fingindo indiferença:
— Apenas trabalho, mãe. Gravamos alguns vídeos para as redes dela.
— Hm. — ela fez uma pausa pensativa — E vocês gravaram até que horas?
— Não sei. Perdi a noção do tempo.
— Imagino que sim — ela disse com aquele tom que eu conhecia desde criança — Fiquei preocupada quando não voltou para dormir.
Me virei para ela, arqueando uma sobrancelha:
— Desde quando você voltou a monitorar meus horários, Dona Valéria?
— Desde hoje, quando você chegou em casa diferente depois desse trabalho com a Bia — ela rebateu — Nos últimos dias você chegava parecendo um zumbi, cansada, sem ânimo. Hoje… Agora… agora você chegou sorrindo.
Senti um calor subir pelo pescoço.
— Não sei do que está falando.
— Sei que sabe — ela sorriu — E está sorrindo de novo agora.
Droga. Estava mesmo.
— Mãe, eu preciso ir para a PS — falei, pegando a bolsa e checando se tinha tudo: chaves, carteira, celular.
— Claro — ela se levantou, alisando a saia — Mas só pra você saber... é bom te ver tão... sei lá... leve assim.
Parei na porta e olhei para ela:
— Por favor! Não aconteceu nada demais, mãe. Foi trabalho.
— Se você diz — ela respondeu, com um tom mais firme.
Suspirei e saí do quarto, mas não antes de ouvir ela completar:
— Só se cuida, tá? Vejo as notícias desses influencers…
Fingi não ter ouvido, mas enquanto me despedia da Célia na cozinha e caminhava até o carro, as palavras de Valéria ecoavam na minha cabeça.
No carro a caminho da PS, aproveitei o momento de privacidade, longe de olhares maternos atentos, para pegar o celular e enviar uma mensagem para Célia:
"Bom dia, Célia. Como a mãe passou a noite? Tudo tranquilo?"
A resposta veio quase imediatamente:
"Bom dia, Luísa. Noite tranquila, dormiu bem. Tomou os remédios certinho. E como foi sua noite?"
Suspirei. Até a governanta estava curiosa.
"De muito trabalho. Obrigada por cuidar dela."
"Sempre, você sabe. Bom dia de trabalho!"
Guardei o celular, olhando pela janela. O Alzheimer da minha mãe ainda estava em estágio inicial, mas as pequenas coisas, como esquecer onde colocou as chaves, repetir a mesma pergunta três vezes, já eram sinais que me deixavam alerta. Célia era um anjo por aceitar ficar durante a noite quando eu não estava em casa.
Na PS, a manhã passou voando entre reuniões e revisões de campanhas publicitárias. Nossa nova linha de hidratantes estava tendo uma aceitação melhor que o esperado, e eu precisava aprovar os ajustes na produção para o próximo trimestre.
Por volta das onze, chamei Luana ao meu escritório.
— Lu, preciso que você reagende a reunião de hoje a tarde — falei, organizando os papéis na mesa.
Luana me olhou com uma expressão quase assustada. Nos últimos meses, eu praticamente vivia trancada naquele escritório, almoçando sanduíches delivery e trabalhando até tarde.
— Algum problema, Dona Luísa? — ela perguntou, hesitante.
— Sem Dona, por favor. E não, nenhum problema. Só vou almoçar fora hoje.
A expressão dela foi quase cômica. Como se eu tivesse anunciado que ia fazer bungee jump.
— Ah... claro! E que horas você volta?
— Até uma e meia estou de volta. Reagenda para as duas horas, pode ser?
— Perfeito — ela anotou rapidamente.
Escolhi o Verde & Grão, um restaurante orgânico a duas quadras da empresa. Ele tinha plantas pendentes por todo o teto, mesas de madeira rústica e aquela luz natural que entrava pelas janelas amplas.
Pedi uma salada Mediterranean Bowl. Era mix de folhas verdes, quinoa, tomate cereja, pepino, azeitonas pretas, queijo de cabra e um molho de ervas que parecia ter sido colhido na hora. Acompanhada de uma água com gás e limão. Pela primeira vez em dias, estava realmente com fome. Fome de verdade, não apenas aquela necessidade mecânica de combustível.
Estava saboreando a primeira garfada quando percebi que alguém estava me observando. Uma menina jovem, que aparentava uns quinze anos, estava numa mesa próxima com duas mulheres, mas seus olhos estavam fixos em mim. Não era um olhar invasivo, mas tinha algo de... reconhecimento?
Ela sussurrou algo para uma das mulheres, que olhou discretamente na minha direção e assentiu com um sorriso. A menina se levantou, claramente nervosa, e caminhou até minha mesa com um sorriso tímido mas determinado.
— Com licença — disse, a voz suave mas firme — você é a Luísa Fischer, né?
Engoli uma garfada de quinoa e sorri:
— Sou sim. Oi!
— Meu Deus, que legal! — ela disse, o nervosismo dando lugar a um entusiasmo— Eu sou a Mariana. Comecei a te acompanhar pelo perfil da Bia, e agora sou super fã de vocês duas.
— Sério? — perguntei surpresa — Que legal, Mariana. Quer sentar um pouquinho? — convidei, sem saber ao certo o que dizer.
— Posso? — ela olhou para as duas mulheres, que acenam positivamente — Eu... eu queria te mostrar uma coisa.
Ela se sentou na cadeira à minha frente e, com um movimento natural, levantou a calça jeans flare, revelando uma prótese na perna direita. Era moderna, com detalhes em azul metalizado.
— Eu perdi a perna num acidente quando tinha 7 anos — ela explicou, tocando a prótese com carinho — Li na internet que com você foi assim também. E sabe... é difícil se sentir... normal às vezes, né? Mas quando vi você nas redes da Bia ontem, tão linda e inteligente, e principalmente sendo você mesma... — ela parou, os olhos brilhando — Foi muito bom me sentir representada por alguém assim.
Senti algo se contrair no peito. Não dor, mas algo quente e inesperado.
— Mariana... — comecei, mas ela continuou, animada:
— E sabe o que mais? Minhas mães ficaram super preocupadas quando eu perdi a perna, achando que eu ia ficar complexada, que não ia conseguir namorar, essas coisas. Mas olha… eu tenho meus lancinhos e vendo você... — ela gesticula expressivamente — você é tão segura de si, tão... cool. Me faz ter mais certeza de que posso ser quem eu quiser, entende?
Engoli em seco. Ninguém nunca havia me dito algo assim. Nas redes, os comentários eram sempre sobre produtos, parcerias, às vezes algum elogio superficial. Mas isso... isso era diferente.
— Eu... fico muito feliz em saber disso — consegui dizer, ainda processando.
— Ah, e eu vi que você pratica canoagem paralímpica! — ela continuou, os olhos brilhando — Eu também pratico! Comecei no ano passado e estou amando.
— Sério? — perguntei surpresa. A menina realmente tinha me stalkeado. — Que incrível, Mariana! Em que categoria você compete?
— VL2 — ela disse, tocando a prótese com naturalidade — Ainda estou aprendendo, mas meu treinador diz que tenho potencial. E você me inspira muito, tanto no esporte quanto... bem, em tudo.
Senti algo apertar no peito. Uma coisa é ouvir elogios sobre aparência ou trabalho, outra completamente diferente era saber que alguém te via como inspiração para seguir seus próprios sonhos.
— Será que... — ela hesitou, mordendo o lábio — será que posso tirar uma foto com você? E eu prometo que não vou incomodar mais.
— Claro que pode — sorri, me levantando — E você não está incomodando nada.
Mariana praticamente pulou da cadeira e fez sinal para uma garçonete, que se aproximou sorrindo.
Posamos para algumas fotos. Mariana radiante, eu ainda meio sem acreditar na situação. Depois que ela voltou para a mesa, fiquei ali parada por alguns segundos, observando a menina contar animadamente para as mães sobre o encontro. As três acenaram para mim, sorrindo.
Voltei a me sentar e continuei mexendo na salada, mas minha cabeça estava longe dali. Quando foi a última vez que alguém havia me dito que eu fiz diferença na vida dela?
Peguei o celular instintivamente e abri o WhatsApp. Meus dedos hesitaram e por fim clicaram sobre o nome da Bia na lista de contatos.
Comecei a digitar: "Bia, acabei de ter uma experiência interessante no almoço..."
Parei. Apaguei.
Tentei novamente: "Oi, tudo bem? Queria conversar com você sobre uma coisa..."
Apaguei de novo.
Fiquei ali, com o cursor piscando na tela, sem saber exatamente o que queria dizer. Ou melhor, sabendo demais o que queria dizer e não conseguindo encontrar as palavras certas.
O que exatamente eu estou fazendo?
Ontem tinha sido... confuso. A parceria profissional se misturando com algo que eu não conseguia definir. E agora, depois desse encontro com Mariana, sentia como se estivesse no meio de uma tempestade em que não sabia como navegar.
Guardei o celular sem enviar nada.
Talvez fosse melhor assim. Talvez eu precisasse processar tudo isso antes de envolver Bia. Afinal, ela tinha conseguido o que queria. O engajamento estava lá, as curtidas, os comentários. E eu... bem, eu ainda estava descobrindo o que eu queria.
Terminei a salada em silêncio, observando Mariana ainda animada na mesa ao lado. Ouvi o som de uma notificação e vi que a menina havia postado nossa foto no Instagram com a legenda: “Gente, olha quem eu encontrei!!! 😱 A @luisafischer é ainda mais linda pessoalmente e super gente boa! Quem me segue sabe o quanto eu amo ela e a @albuquerquebia. Obrigada por ser essa inspiração e mostrar que podemos ser quem quisermos, do jeito que somos. Você não imagina quantas meninas como eu se sentem menos sozinhas vendo vocês brilharem! ✨ #representatividade #beautiful #strong". Curti o post e bloqueei minha tela do celular.
Representatividade. Era sobre isso que eu queria conversar com Bia? Ou seria apenas uma desculpa para falar com ela novamente?
Me levantei para pagar a conta, acenei para Mariana, que retribuiu com um sorriso enorme, e saí do restaurante feliz, mas com certeza mais confusa do que quando havia entrado.
Fim do capítulo
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Em: 21/12/2025
Bora Luiza, enxergar a Bia direitinho, hein?! Daqui a pouco perde... olha lá
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