Capitulo 21
Por Bia:
Olhei para Luísa, desmaiada no meu sofá como se fosse a dona do lugar. O corpo dela estava numa posição que faria qualquer quiropraxista chorar lágrimas de sangue: uma perna esticada, a outra dobrada sobre a almofada, e a cabeça inclinada num ângulo que desafiava as leis da anatomia. Só a respiração dela preenchia o silêncio da sala, pausada e tranquila.
Me aproximei e chamei baixinho:
— Luísa...
Silêncio absoluto. Nem um sussurro de consciência.
Tentei novamente, dessa vez cutucando seu braço:
— Lu... — minha voz saiu carregada de cansaço e preocupação.
Ela apenas se remexeu um pouco, enterrando o rosto ainda mais na almofada, enquanto uma mecha rebelde de cabelo caía sobre a bochecha. Minha mão se moveu instintivamente para arrumá-la, mas parou no meio do caminho. Patético, pensei. Absolutamente patético.
— Se você soubesse o perigo que corre dormindo assim na casa de uma quase desconhecida... — murmurei para mim mesma, rindo da própria situação.
Suspirei e fui até o meu quarto buscar um travesseiro decente. Quando voltei, passei por ela devagar e... merd*. O cheiro. Não era um perfume caro. Era simplesmente ela com pele limpa e um rastro sutil de hidratante. Um cheiro que fazia meu corpo ter reações completamente inadequadas.
Levantei a cabeça dela com cuidado, encaixei o travesseiro, e meus dedos roçaram na nuca quente e absurdamente sedosa. Uma sensação estranha me invadiu como lembrete de que eu estava oficialmente perdida.
— Tá bom, vou te deixar mais confortável — avisei, como se ela fosse protestar.
Naturalmente, ela continuou alheia ao mundo.
Ajeitei a manta sobre as pernas dela e me peguei observando cada detalhe. A boca entreaberta, as sobrancelhas finalmente relaxadas e a camiseta que havia subido ligeiramente, revelando um pedaço da cintura e três pequenas pintas que eu contei. Três. Provavelmente havia mais.
Me joguei na beirada do sofá e fiquei ali alguns segundos, absorvendo o calor que emanava do corpo dela, o cheiro da noite que misturava vinho, vulnerabilidade e minha completa falta de bom senso.
— Você não tem a menor ideia do que faz comigo, tem? — sussurrei, sabendo que ela não sabia mesmo. Ou sabia e era uma atriz melhor do que eu imaginava.
Finalmente me levantei, apaguei as luzes e me arrastei para o quarto. Escovei os dentes, vesti o pijama e olhei para o bloco de notas na cômoda. Escrevi um bilhete que era o resumo da minha humilhação:
"Lu, deixei algumas coisas no banheiro para você: toalhas, escova de dentes, sabonete... Caso precise."
Saí e montei um kit de sobrevivência no banheiro social: sabonete líquido, toalha macia, escova de dentes com cerdas suaves. Foi, sem dúvida, a coisa mais carinhosa que fiz por alguém em meses.
Fiquei um tempo no corredor, considerando seriamente voltar para observá-la dormir mais um pouco. O nível de bizarrice dessa ideia me fez desistir imediatamente.
Voltei para o quarto, apaguei a luz e me deitei.
E claro, passei os minutos seguintes naquela zona nebulosa entre o sono e pensamentos completamente inapropriados, imaginando como seria acordar com ela ali pela manhã. Se ela fingiria normalidade, faria alguma piada autodepreciativa, ou simplesmente evaporaria antes do café da manhã.
Uma parte de mim esperava uma fuga digna de operação militar. A outra parte... bem, a outra parte tinha esperanças perigosamente tolas.
***
Acordei com o quarto mergulhado numa penumbra absurda. Peguei o controle na mesinha de cabeceira e apertei o botão do controle, abrindo devagar as persianas e deixando a luz da manhã invadir o quarto. O clarão me atingiu em cheio e me encorajou a levantar.
Fui até a janela, me apoiei no parapeito e fiquei encarando o céu meio nublado, os prédios e a rua começando a acordar. Pensei na Luísa. Será que ela ainda estava aqui? Do jeito que ela era, não seria surpresa se tivesse sumido no primeiro raio de sol.
Depois de passar no banheiro e fazer minha rotina básica de sobrevivência, saí do quarto ainda de pijama, em direção à sala.
O sofá estava vazio e impecável.. A manta dobrada, travesseiro arrumado e as almofadas alinhadas como se ninguém jamais tivesse tocado naquele canto. Por um momento, achei que ela realmente havia desaparecido, até ouvir um plaft vindo do banheiro social.
— Luísa? Tudo bem aí? — perguntei, me aproximando da porta.
— Sim! Só derrubei o pacote da escova... — veio a resposta abafada.
Um sorriso involuntário escapou antes que eu pudesse contê-lo.
Fui para a cozinha e comecei a recolher as embalagens de hambúrguer e guardanapos que amassados da noite anterior. Coloquei água para ferver na chaleira elétrica e resgatei as frutas mais apresentáveis da minha geladeira.
No meio dessa operação doméstica, Luísa apareceu na cozinha. Cabelo arrumado, roupa amassada, e aquela expressão de quem não tem certeza absoluta sobre o protocolo nessa situação.
— Bom dia! — soltei animada, olhando nos olhos dela.
— Bom dia… e obrigada pelos itens de higiene — ela respondeu com formalidade, como se não tivesse deixado o cheiro dela naquele sofá.
— De nada. Senta aqui — indiquei a banqueta. Podia ver na expressão dela que vinha o discurso do "preciso ir embora", mas fui mais rápida:
— Ou, se preferir, podemos usar a mesa novamente — completei, arqueando a sobrancelha de forma sugestiva.
— Eu preciso ir para casa, tomar banho e correr para PS — ela disse com um meio sorriso resignado.
— Café primeiro. Já está quase pronto — respondi, não deixando espaço para negociação.
— Não vou atrapalhar sua rotina?
— Amor, minha rotina é um caos com ou sem você aqui. Fica, senta, come. Considere como um serviço comunitário salvar minha manhã da monotonia.
Ela hesitou por um segundo, mas acabou se acomodando na banqueta. Tive que esconder o sorriso atrás da caneca, porque ali, mesmo com a roupa amarrotada e tentando manter a compostura, Luísa estava linda.
Ficamos as duas naquela cozinha banhada pela luz suave da manhã e pelo aroma do café que eu estava coando. Era um silêncio interessante. Não desconfortável.
Luísa pegou uma fatia de pão, passou manteiga com movimentos pausados, e eu não resisti:
— Sabe... — comecei, apoiando os cotovelos na bancada — tentei te acordar ontem à noite. Mas você parecia... sei lá... em paz total. Fazia tempo que não via alguém dormir daquele jeito.
Ela ergueu o olhar, e ali havia uma faísca. Não era imaginação minha. Era algo que fazia um frio passar pelo meu estômago.
— É... — disse, a voz baixa e meio rouca — Não durmo bem há dias. Ontem foi... diferente.
— Diferente como? — perguntei, não sabendo se realmente queria ouvir a resposta.
Ela hesitou, depois curvou os lábios naquele meio sorriso que poderia facilmente me enlouquecer.
— Diferente, no melhor sentido. Me olhou de um jeito intenso. E, pra você, também deve ter sido.
Abri a boca para responder, mas ela completou:
— Você não deve estar acostumada com mulheres acordando no seu sofá. Aposto que todas acordam na sua cama.
Pausa.
Aquele olhar permaneceu conectado ao meu por tempo demais. Não um segundo a mais. Muito mais. Senti meu coração acelerar de forma irregular, e na dúvida se era provocação calculada ou maldade pura, me refugiei no bule, fingindo interesse excessivo no processo no café recém passado.
Ela estendeu a caneca, e eu a enchi com café fumegante.
Quando olhei para cima novamente, Luísa ainda estava com aquele meio sorriso.
— O cheiro do café está ótimo — disse, levando a caneca aos lábios.
Arqueei uma sobrancelha, fingindo controle total da situação:
— Que bom. Espero que aprove.
Ela respirou fundo, mexeu no celular com o polegar e, subitamente, virou a tela para mim. No reflexo da luz, consegui ver meu próprio rosto na selfie de ontem antes mesmo de processar o número absurdo de curtidas.
— Missão cumprida — falou com aquele tom entre satisfação e deboche sutil.
Na tela: o story do skincare, o hambúrguer e o brinde. Curtidas e comentários em volumes indecentes. Era, incontestavelmente, meu maior engajamento dos últimos meses.
A realidade me atingiu como um balde de água fria. Foi como despertar de um transe, aquele clique mental que você sente quando volta para a realidade depois de passar tempo demais perdida em algo que não deveria.
— Nossa... não tinha visto ainda. Meu celular ficou no quarto — disse com a voz ligeiramente trêmula, mais desorientada do que gostaria de demonstrar.
Luísa se recostou na banqueta, mordendo o pão como se estivesse saboreando mais a situação do que propriamente o café da manhã.
— Você? Sem celular? — provocou, com aquela ironia morna que me derretia e irritava simultaneamente.
Tentei rir. O som saiu meio áspero:
— Sabe como é... detox digital matinal — ironizei, tentando recuperar minha compostura habitual.
Ela engoliu o pedaço de pão e, sem desviar os olhos dos meus, ergueu a caneca num brinde imaginário:
— Claro... Fica tranquila, Bia — tomou um gole, a voz aveludada e carregada de intenção — Você tem o dia inteiro para se reconectar com seu celular e voltar ao trabalho.
Fiquei em silêncio. Não sei de onde veio o impulso, mas me levantei com intenção de tomar as rédeas da situação. Peguei minha caneca, contornei a bancada e fui até onde ela estava. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, passei por trás de Luísa, minha mão deslizando levemente pela sua cintura de maneira nada acidental.
Inclinei o rosto próximo ao ouvido dela:
— Sabe… você aqui tomando café comigo também é diferente... diferente no melhor sentido — murmurei, com aquele tom entre deboche e sinceridade, deixando as palavras suspensas no ar.
Fim do capítulo
Aaaah... perdoem se o capítulo ficou curto. Me empolguei e comecei a escrever não uma, mas duas novas histórias... mas vou acordar pra vida e deixá-las de lado. Se não, não terminarei essa. hahaha
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anaffsse
Em: 17/12/2025
História simplesmente incrível, espero ansiosamente os próximos capítulos (pf autora não demore kkkk) ??
MalluBlues
Em: 18/12/2025
Autora da história
Fico muito feliz em saber que você está gostando! Não demorarei a postar.
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