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O Peso do Azul por asuna

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Palavras: 6136
Acessos: 405   |  Postado em: 14/12/2025

Capítulo 32

 

O som dos meus passos espalhava-se pela sala quase vazia, como se o chão de madeira devolvesse cada movimento com um eco ligeiramente atrasado. Por um momento, fiquei ali, no meio, sem fazer nada. Só a ouvir.

Havia qualquer coisa de sagrado naquele silêncio. Não era pesado como o de um hospital, nem cortante como o dos corredores da igreja onde cresci. Era outro tipo de quietude, um intervalo suspenso, um pulmão a encher-se de ar antes de falar.

As paredes ainda cheiravam a tinta fresca. O leve odor químico misturava-se com o pó do cartão das caixas empilhadas junto à entrada e com o café morno que alguém tinha esquecido em cima de uma cadeira, deixando um anel escuro no plástico branco.

Parei diante da parede central, que ainda permanecia vazia. Talvez fosse ali que iriam ficar as fotografias que mais me custavam. As que tinham corpo demais. Memória demais.

Passei os dedos pela superfície lisa, sentindo a frescura da tinta sob a pele. Durante muito tempo, a minha vida tinha sido isto: paredes por preencher. Um lugar em branco onde eu tinha medo de me ver.

Respirei fundo.

E antes de deixar o pensamento ir mais longe, ouvi a porta a abrir-se atrás de mim.

— Estás com cara de que vais fugir pela janela. — A voz da Piper encheu a sala antes de eu me virar. — Outra vez.

Sorri, sem vontade de admitir que, por um segundo, tinha mesmo pensado nisso.

— Não há janelas suficientemente grandes. — respondi, baixinho.

— Já estás aqui. Como sempre. Pontual. Preparada. — Murmurou Piper, assim que surgiu do meu lado com um bloco na mão e a camisa ligeiramente arregaçada nos pulsos.

— E tu continuas atrasada — respondi, com suavidade. — Algumas coisas não mudam. Cheguei mais cedo, queria olhar o espaço outra vez.

— Claro. — Ela fez um aceno vago. — Revisão obsessiva às sete da manhã. Normalíssimo. — Suspirou, e então confessou, com um canto de vergonha — Fiquei cinco minutos lá fora a ensaiar a melhor entrada profissional. Depois tropecei nos degraus. Acho que a escolha se fez sozinha.

Observei-a com mais atenção. Os dedos batiam no bloco num ritmo irregular, sem música. O olhar fugia das paredes, como se evitasse fixar-se em algo específico.

— Estás nervosa.

Esta franziu o nariz, como se a palavra a incomodasse, contudo, desta vez, não respondeu logo. Inspirou fundo, demasiado fundo.

— É só que... — começou, depois interrompeu-se. — Não. Não é "só".

Encostou-se a uma mesa, pousou o bloco, passou a mão pelo cabelo ruivo num gesto cansado.

— É a primeira vez que vou ajudar a organizar um evento desta dimensão para a Harper. E para piorar... ela não está aqui para controlar tudo. — Engoliu em seco. — No outro evento era tudo mais tranquilo, com menos expectativas. Era tipo: "vamos tentar não deixar o teto cair em cima de ninguém". Agora vêm pessoas importantes, gente dos meios sociais, do governo, apreciadores de arte...

— Basicamente pessoas com dinheiro.

— Exatamente. — O esboço de leveza surgiu, finalmente, mas desapareceu depressa. — E por amor de Deus, que ao menos sejam proficientes com plataformas de leilão online.

Ela abriu a lista e começou a rever nomes em voz baixa. Os ombros mantinham-se tensos, como se segurassem o edifício inteiro.

— Ela confia em ti — disse eu, com cuidado. — Sempre confiou.

Piper soltou uma expiração curta, quase um riso sem humor.

— Confia porque nunca falhei. E agora tenho medo de falhar. Não por mim. Mas por ela.

Aquela frase ficou suspensa. Reconheci nela algo que me era agora demasiado familiar, o medo de não estar à altura quando alguém que amamos está frágil.

Aproximei-me um pouco.

— Piper — chamei-a, baixo. — Isto não é sobre perfeição. É sobre presença.

Ela ergueu o rosto na minha direção, surpreendida, como se não esperasse ouvir isso da minha boca.

— A Chloe não precisa que controles tudo — continuei. — Precisa de saber que, mesmo ausente, o lugar dela continua a existir. E que nós vamos ter consideração por ela.

Toquei de leve na parede central vazia.

— Olha à tua volta. Este espaço, esta luz... já dizem muito antes de qualquer fotografia ser pendurada.

Piper seguiu o meu gesto. Respirou mais devagar, como se finalmente deixasse o ar chegar ao fundo dos pulmões.

— E se não for suficiente? — questionou, quase num sussurro.

— Então será humano — respondi. — Se faltar alguma coisa, não será por tua culpa.

Não disse nada, rapidamente caminhou em linha reta até ao centro da sala, rodou sobre os calcanhares, finalmente permitindo-se a estudar as paredes como quem assume um território. O sol bateu-lhe no cabelo, acendendo-o num cobre quente. Pela primeira vez desde que entrara, os ombros desceram ligeiramente.

— Então... — começou, com um gesto amplo — vamos tentar fazer isto parecer uma exposição. — Fez uma pausa curta, o olhar a encontrar o meu. — E não uma sala de emoções mal resolvidas.

Sorri de leve.

— Uma coisa não invalida a outra — murmurei.

Piper soltou um sopro quase divertido, e assentiu, como quem aceita uma verdade que não quer nomear.

— Certo. Será uma exposição que não precise dela fisicamente, para mostrar que ainda é dela.

Senti o peso daquela responsabilidade. E, estranhamente, não fugi.

— Então começamos por aqui — declarei apenas, apontando para a parede vazia. — Um passo de cada vez.

A ruiva assentiu. Pegou novamente no bloco, rabiscou qualquer coisa, já com outro foco.

— Bem, o que achas disto? — perguntou voltando ao modo profissional, apontando para a parede mais longa. — As fotos maiores ficariam bem aqui, alinhadas em sequência, mas não demasiado perfeitas. — Fez um gesto com a mão, como quem percorre linhas invisíveis. — A Chloe odeia simetria rígida.

Assenti.

— Sim, ela gosta de exibir imperfeição propositada.

— Pois, e eu odeio sermões artísticos, portanto, vamos respeitar as regras dela — rematou, dobrando o bloco contra o peito com falsa solenidade.

A seguir foi até ao canto mais resguardado da sala, tocou a parede com a ponta dos dedos e inclinou a cabeça.

— Aqui acho que ficaram os corpos. Precisam de intimidade, luz baixa... e de não levar com um foco LED diretamente nos mamilos. — Atirou, sem alterar o tom.

Arregalei os olhos.

— Para tua informação, não terá esse tipo de desnudamento.

— Ah, que pena, estava a preparar a minha pose mais profissional e sensível à anatomia alheia.

Lancei-lhe uma careta de exasperação ensaiada. Piper captou-a e fez um aceno teatral com a cabeça, como quem marca pontos invisíveis.

Depois endireitou-se, já no modo prático, e com o lápis tocou suavemente no canto da parede.

— Certo. Então, a série dos corpos fica aqui. Intimidade suficiente para fazer as pessoas abrandarem, mas não ao ponto de pensarem que tropeçaram numa instalação erótica. — Fez um gesto amplo. — A linha é fina, eu sei, contudo, tenho fé no teu bom gosto... pelo menos estou a contar com ele hoje.

Passei a mão pela testa, tentando acompanhar a velocidade do seu raciocínio. Não porque estivesse confusa, porém porque tudo nela avançava depressa, ideias, soluções, humor como mecanismo de defesa e eu precisava apenas de me manter no mesmo passo.

Havia ali uma estranha inversão de papéis. Piper ocupava o espaço com linhas, ângulos e observações práticas, eu limitava-me a escutar, a validar, a sustentar o ritmo sem interferir. Não me sentia ausente. Pelo contrário. Estava ali de uma forma mais consciente do que em muitos outros momentos.

Estudei-a enquanto falava da linha fina entre intimidade e excesso, e pensei que talvez fosse exatamente isso que estávamos a tentar fazer em tudo o resto, encontrar um equilíbrio que não traísse ninguém. Nem a Chloe. Nem o que ela tinha criado. Nem o momento delicado em que se encontrava.

Talvez por isso tenha ficado imóvel tempo demais.

Senti então um pequeno toque seco na pele, uma ponta fina a pousar-me bem no centro da testa. O gesto foi tão inesperado que quase dei um passo atrás.

Afastei-lhe o lápis com a mão rapidamente e esfreguei a testa, mais por reflexo do que por necessidade.

— Piper... — resmunguei, num fio de voz.

Ela ergueu as sobrancelhas, claramente satisfeita consigo mesma.

— Ah. Excelente. Reação humana detetada. Já estava a ficar com medo de te ter perdido para alguma dimensão paralela.

Revirei os olhos, no entanto, a curva involuntária dos lábios traiu-me.

Esta inclinou ligeiramente o corpo, num gesto contido, estudando-me com atenção. O tom manteve a ironia, todavia a expressão vinha carregada de cuidado.

— Vais-me dar a tua opinião ou continuamos com terapia por objetos pontiagudos?

Expirei devagar.

— Só estava a tentar imaginar o enquadramento das peças — respondi apenas. — Está bem assim. Dá espaço suficiente para as imagens se destacarem.

Ela fez um som vago de aprovação, deu meia-volta e voltou ao bloco como se o assunto estivesse encerrado.

— Ótimo — respondeu. — Porque não estou com paciência para reinventar isto mais de três vezes.

Deu dois passos para trás, voltou a percorrer a parede num gesto atento e fez mais uma ou outra anotação. O lápis riscou o papel com um som curto e decidido, como se cada traço ajudasse a assentar o espaço no lugar certo.

O espaço, pouco a pouco, deixou de ser apenas um conjunto de paredes brancas. Começava a ganhar ritmo. E eu mantive-me ali. A ruiva falava enquanto desenhava linhas invisíveis no ar, e eu tentava acompanhar o seu fluxo rápido, pragmático, cheio de humor enfeitado de pontas afiadas, contudo nunca cru.

— Os reflexos vão ali — expôs, apontando para a parede que recebia a luz natural da tarde. — Assim quem entrar vê-se a si antes de ver qualquer outra coisa. A Chloe irá adorar esse tipo de metáfora não-intencional, mas definitivamente intencional.

— Uhum — murmurei.

Andámos de um lado para o outro, rabiscando possibilidades, ajustando distâncias, discutindo ângulos, luz e equilíbrio visual entre imagens. Por vezes ela atirava uma provocação, "Menos minimi, mais prática", "Não quero ver visitas a baterem com a testa nas esquinas por tua causa" e eu devolvia-lhe reações mudas, meio irritadas, meio divertidas.

Aos poucos, o espaço começou a ganhar forma. Não as paredes, mas a sensação do que viria a acontecer dentro delas. A ruiva movia-se com precisão, marcando posições no chão com pequenos pedaços de fita, e eu acompanhava-a, ajustando distâncias com uma atenção que, por fim, já não era apenas esforço, mas sim presença.

O tempo passou sem que déssemos por isso.

Quando a luz mudou de tom, aquele dourado preguiçoso das horas que começam a dobrar-se sobre si mesmas, ouviu-se o som discreto de uma porta a bater no hall, seguido pelo roçar das estruturas grandes de cartão sobre o chão.

Ela ergueu o olhar, interrompendo o desenho imaginário que fazia no ar.

— Ah, finalmente. — anunciou, ajeitando o cabelo atrás da orelha com um gesto decidido. — Chegou o resto das tuas preciosidades.

O meu coração acelerou um pouco, como se cada objeto tivesse um pulso próprio. Caminhámos até à entrada. Três homens deixavam ali um conjunto de caixas protegidas por cantos de espuma e plástico bolha. Havia etiquetas coladas com o nome C.M., e a caligrafia reconhecível de Chloe em dois cantos, só isso bastou para me estremecer.

O cheiro a cartão novo misturou-se com um leve odor químico do verniz das molduras. Piper olhou para os volumes empilhados como quem avalia um animal selvagem recém-chegado.

— Muito bem... — disse ela, pousando as mãos na cintura. — Vamos lá ver se isto realmente vale a pena todo este trabalho.

Olhei-a com um ar reprovador e esta logo levantou as mãos.

Aproximámo-nos da primeira caixa. A superfície de madeira estalou sob o nosso peso, como se também ela aguardasse o momento. Piper ajoelhou-se, tirou um canivete pequeno que guardava no bolso da calça, "Ferramenta de mulher prevenidíssima", como ela dizia, e com um gesto firme começou a cortar a fita adesiva.

O som do rasgar ecoou pelo ambiente como um primeiro acorde.

E depois, com cuidado, ela levantou a tampa.

— Pronta para dar finalmente vida a esta sala?

Respirei fundo.

— Pronta.

Foram precisos dois dias inteiros para que o vão aberto deixasse de ser apenas espaço e se tornasse intenção. Dois dias a mover molduras como quem tenta encontrar a combinação certa para um corpo adormecido. Dois dias de conversas curtas, sarcasmo pontual, silêncios densos e a estranha harmonia que nasce quando duas pessoas olham para o mesmo vazio e tentam descobrir-lhe a alma.

Piper comandava a operação como uma coreógrafa impaciente.

— Sobe isso dois centímetros.

— Baixa agora. Espera. Não tanto. Isso. Quase.

— Se continuarmos assim, vou desenvolver bíceps de camionista.

Eu baixava a cabeça num gesto resignado. Ela gargalhava. E a sala transformava-se.

A variação da luz natural ao longo do dia tornava-se uma variável instável no processo forçando-nos a ajustar composições, repensar alinhamentos, refazer escolhas. Às vezes, uma fotografia parecia perfeita até o sol se inclinar e lhe roubar metade do rosto. Outras vezes, o ângulo traía a força da imagem. Eu aproximava-me, recuava, caminhava de lado como se dançasse com o vazio, observando sombras, alinhamentos, impacto.

As mãos doíam-me dos pregos, dos ajustes, das molduras levantadas e pousadas vezes sem conta. A ruiva também estava cansada, porém nunca perdia o ritmo. A sua energia elétrica contrastava com a minha concentração. Onde eu hesitava, ela avançava. Onde eu me perdia por um segundo, ela puxava-me de volta com uma linha fina de sarcasmo.

— Maya, se fosses mais lenta que isto, eu teria tempo para escrever um romance. Anda lá.

E prosseguíamos.

No segundo dia, já com a luz a esvair-se num laranja queimado, demos finalmente um passo atrás. Num movimento que não era físico, mas um recuo quase sagrado. Ficámos ali, lado a lado, arfar de leve, como se a sala tivesse sido uma travessia.

Piper apoiou as mãos nos joelhos.

— Ok. Está... bem composto.

— Bem composto? Só isso? — Provoquei, erguendo uma sobrancelha.

— Não fiques insuportável. Tem boa presença visual. E chega. — Deixou escapar um sorriso contido, no entanto cúmplice. — Vá... quase perfeito.

— Aham, que modesta.

No fundo, era a sua forma de dizer que conseguimos.

Repetidamente pegou no casaco, atirou a fita métrica para cima de uma mesa e, quase ao mesmo tempo, saltou quando viu as horas.

— Merda! O meu encontro! — Agarrou a mala num gesto rápido, destrambelhado. — Maya, agradece-me amanhã. Ou nunca. Tanto faz. Se eu me atrasar mais cinco minutos, esta mulher vai achar que a deixei pendurada.

Ri-me enquanto ela atravessava a sala como uma rajada, tropeçando na fita que ela própria colara no chão.

— Piper! — chamei. — Obrigada.

Ela virou-se de costas para a porta, caminhando de marcha atrás com aquele sorriso meio insolente.

— Não te emociones agora, tá? Isso eu só permito quando as pessoas começarem a gastar dinheiro — Fez um gesto rápido de despedida.

E saiu.

A porta fechou-se atrás dela com um clique suave.

Fiquei sozinha.

A claridade ainda aquecia as molduras, iluminando-as como se cada uma respirasse por conta própria. A sala, antes vazia, agora parecia murmurar. Havia um ritmo ali: o mar, a sombra, o corpo, o abandono, o gesto. A mão de Chloe em tudo, não de forma opressora, mas como uma presença paciente.

Aproximei-me devagar, percorrendo cada fotografia como se estivesse a caminhar dentro da pele antiga que abandonara sem perceber.

Uma moldura mostrava o oceano num cinzento profundo, quase metálico. Outra, a curva de um ombro iluminado pela contraluz. Mais à frente, uma cadeira vazia num quarto onde entrava apenas uma nesga de luz inclinada, o vazio desenhado pela ausência de alguém.

Respirei fundo. O cheiro da madeira, do cartão aberto, do verniz recém-assentado, misturou-se com a memória súbita do seu perfume quando fotografava, aquele aroma de baunilha misturado com a resina, como se a respiração dela ainda pairasse sobre as imagens.

Sentei-me no banco encostado à parede, posicionado quase no centro da sala, onde podia ver tudo sem tocar nada. As molduras, penduradas com a precisão dos últimos dois dias, pareciam observar-me de volta.

E, pela primeira vez desde que começara este projeto, permiti-me senti-las como espectadora. Não como curadora, não como ex-namorada, não como quem tenta reparar uma história.

Simplesmente como alguém diante da obra de outra pessoa. Alguém que tenta entender uma narrativa que, no fundo, também era sua.

Apesar de conhecer cada peça fotografada, vê-las agora ali, elevadas, alinhadas, iluminadas no seu próprio espaço, transformava-as. Pareciam destacar-se ainda mais, ganhando um pulso próprio. Como se só agora, penduradas, assumissem o peso completo do que eram.

Naquele momento imaginei, quase sem querer, as pessoas entrando por aquela porta. A abrandarem. A inclinarem ligeiramente a cabeça. A deixarem os olhos percorrer cada detalhe, cada sombra, cada fragmento de objeto, figura, pele ou paisagem.

Consegui vê-las enquanto tentavam decifrar o que cada clique transmitia, não com a urgência de entender, mas com aquela curiosidade silenciosa de quem sabe que a arte não se revela, mas se oferece.

A sala estava silenciosa.

E eu deixei que essa calma me tocasse.

Devagar.

Dali, daquele ângulo preciso, conseguia ver também as minhas próprias costas expostas numa das molduras. Um recorte de luz arrancado ao tempo, a pele num contraste melancólico que parecia respirar para fora da fotografia. E mais uma vez, as lembranças voltaram sem aviso, de forma arrebatadora, com a força das ondas que nos puxam pelos tornozelos quando menos esperamos.

Recordei aquelas tardes em que nos deitávamos na cama de forma desalinhada, uma com os pés virados para o fundo, a outra com os pés para a cabeceira, contudo, sempre com os rostos lado a lado, tão próximos que o sopro de uma parecia prolongar a respiração da outra.

Falávamos sobre obras literárias, passagens que nos chamavam atenção. Sobre banalidades do dia. Sobre termos técnicos de fotografia. E depois, inevitavelmente, ela pegava na máquina sem avisar e aproximava a lente do meu rosto, como se a pele fosse uma geografia que ela precisava de mapear sempre que estávamos juntas.

Lembro-me do foco a ajustar-se, do som ínfimo do obturador, da sua atenção concentrada a percorrer-me como quem procura uma verdade escondida entre dois milímetros de sombra.

Abanei a cabeça para distanciar a lembrança, ou para afastar o modo como esta ainda me tocava por dentro, e respirei fundo, tentando recuperar o presente.

Foi então que ouvi passos.

Passos lentos, firmes, com uma cadência que não pertencia a visitantes nem a técnicos. Tinham um peso que me atravessou antes de se revelarem. Tão familiares que, por um instante absurdo, pensei que era o meu próprio coração a tentar imitar um som antigo.

A minha atenção deslocou-se de imediato.

A silhueta avançava pelo corredor, recortada pelo fulgor dourado que entrava pelas janelas altas. A luz parecia escolhê-la, pousava-lhe nos ombros com uma precisão quase consciente.

O corpo que eu conhecia de cor.

A postura que sempre a distinguira do resto do mundo.

Os ombros ligeiramente erguidos, não em tensão, mas em domínio.

O queixo elevado naquele ângulo exato entre desafio e indiferença.

A cada metro que percorria, tudo parecia ceder, reorganizar-se em torno dela.
Como se a arquitetura do cenário soubesse, instintivamente, que era dela que se tratava.

Quando chegou do meu lado, não houve anúncio, nem pedido de lugar.

Apenas se sentou.

O banco cedeu num estalar leve, quase cúmplice, enquanto ela deixava o corpo repousar.

Não disse nada.

Eu também não.

Apenas percorreu com a atenção. As fotografias. As paredes. A sala inteira como se fosse uma extensão de algo íntimo e antigo. E só então, com aquela calma devastadora de quem lê o mundo antes de o tocar, virou a cabeça na minha direção.

Aquele azul turquesa impossível, vivo, pousou em mim com a mesma precisão com que outrora pousava a lente sobre a minha pele. Foi nesse instante, nesse ligeiro cruzar de universos, que percebi o que ainda a rodeava e ela tentava esconder.

O cansaço.

Não era óbvio. Contudo para mim continuava visível no canto dos olhos, uma leveza estranha na boca, um minúsculo tremor na postura que ela tentava disfarçar com a maquilhagem. O corretor escondia as sombras, mas não a exaustão.

E eu conhecia demasiado bem os seus traços para não notar a diferença.

Mesmo assim...

Mesmo assim, havia nela uma gravidade íntima. Uma força silenciosa, quase cruel na forma como insistia em fascinar-me. Como se nem o desgaste, nem as noites mal dormidas, fossem capazes de apagar aquela aura que ela carregava sem se dar conta. Era como observar uma estrela que já devia estar exausta de brilhar e, ainda assim, continuava por teimosia, ou porque nunca aprendera outra forma de existir.

E eu ali.

Sentada do seu lado.

A centímetros de distância.

Sabendo de cor o ponto exato onde o calor do seu corpo começava a tocar a minha pele, mesmo sem contacto.

Era ridículo, a forma como ainda a desejava. Mesmo com todo o turbilhão que a nossa coexistência agora exigia.

Não a toquei.

No entanto todo o meu corpo era um gesto contido.

Os dedos imóveis sobre o colo.

Os joelhos juntos.

O queixo parado.

O peito firme.

Como se cada músculo soubesse que bastava inclinar-me meio milímetro para que aquele formigueiro impulsivo, faminto, se libertasse no meu sangue. Desejoso por mais uma migalha daquele momento de semanas atrás. Aquele instante breve que dera origem à ausência meticulosa que ela soubera construir entre nós.

Chloe respirou fundo.

E naquele movimento subtil do peito houve algo de profundamente familiar. E devastador. A sua atenção continuou presa em mim, como se procurasse uma verdade que ainda não sabia se queria ouvir, ou se estava preparada para sustentar.

Naquele momento senti o mundo afinar-se, como se tudo estivesse prestes a deslocar-se um milímetro para a esquerda. Só o suficiente para tornar porosa a linha frágil entre passado e presente.

Segundos depois, remexeu-se no assento. Vi-a humedecer os lábios, quase distraída, e depois pressioná-los com cuidado, como quem se prepara para algo que pode ferir.

Por um momento, pensei que não fosse dizer nada. Que se limitaria a observar, como tantas vezes fizera antes de decidir abrir um assunto. O silêncio estava tão denso que quase senti o ar prender-se entre nós.

Depois, inspirou devagar.

Como se a sala, banhada pela luz pousada nas molduras, lhe devolvesse a coragem.

— Está... — começou, a voz baixa, ligeiramente rouca — ...extraordinário, Maya.

A palavra não veio solta. Não foi dita com leveza, nem com aquele entusiasmo fácil que normalmente dispensa explicações. Houve nela um peso contido que me fez demorar um instante a processar o som e o sentido. Talvez tenha sido a forma como pronunciou o meu nome, suave, quase como um exílio de ternura. Ou talvez, porque não pareceu apenas um elogio ao trabalho, mas um reconhecimento. Só que reconhecimentos, vindos dela, nunca foram inofensivos.

O seu olhar manteve-se em mim um segundo a mais do que o necessário, intenso, quase nu.

Não respondi de imediato.

Apenas fiquei ali tentando decifrar o que a palavra "extraordinário" significava para ela. Sentindo o impacto da palavra descer-me pelo corpo como um eco tardio, alojar-se algures entre o peito e a garganta, onde as coisas que não digo costumam ficar presas.

O banco parecia ainda mais estreito agora.

A sua proximidade, muito mais consciente.

Chloe não desviou a intensidade com que me lia.

Mas também não a aprofundou.

Apenas ficou ali, suspensa nesse intervalo frágil entre o impulso de dizer e o medo de se arrepender.

Durante esses segundos, consegui compreender que ela definitivamente não estava apenas a avaliar o trabalho. Estava a avaliar-me. A tentar entender quem eu me tornara agora. Talvez tentando entender se ainda havia lugar para ela nesse novo contorno.

Quando finalmente falei, a voz saiu mais baixa do que pretendera.

— A Piper teve um papel fundamental em tudo isto — comecei, com um leve encolher de ombros que não era desinteresse, mas contenção. — Eu só organizei o que já estava lá.

Por um lado, era verdade, contudo não de todo.

Desviei o rosto por um instante, fixando uma das molduras à nossa frente, como se ela pudesse sustentar aquilo que eu não queria encarar de frente.

— Ela tem uma forma muito própria de ver as coisas e de trabalhar — acrescentei. — Ajuda-me a manter o foco. Sem medo de puxar, de insistir. Sem... — interrompi-me, escolhendo não terminar a frase.

Voltei a fixar‑me nela.

— Sem que eu fique dispersa nos meus pensamentos.

A frase saiu mais simples do que eu queria. Quase demasiado honesta na sua modéstia. E, no entanto, senti-a pousar entre nós como uma coisa frágil, não por ser perigosa. Por ser verdadeira.

Chloe piscou devagar.

O canto da sua boca mexeu-se num quase-sorriso que não chegou a ser sorriso. Um gesto mínimo, gasto pela noite que ela carregava nos olhos. A luz dourada encontrava-lhe a maquilhagem e fazia o trabalho dela parecer mais competente do que a exaustão permitia.

— Realmente dou crédito à Piper — murmurou por fim. — Ela sempre teve esse dom. Por mais sarcástica que seja.

Houve ternura ali. Não destinada a mim. Para a ruiva. Assenti, sem saber se tinha direito de acrescentar alguma coisa.

Chloe voltou a percorrer as molduras com atenção. Não de forma contemplativa, mas com aquele foco prático, quase técnico, como se o corpo soubesse regressar à linguagem da fotografia quando a emoção ameaça transbordar. O olhar dela parava onde a luz caía melhor, onde o contraste tinha sido preservado, onde a composição não cedia ao sentimentalismo fácil.

— E a ti, dou-te crédito por teres escolhido cada uma destas fotografias sem me perguntares nada — continuou, com uma calma que não era acusação.

— Perguntei — corrigi, baixa. — Só... não da forma que tu costumas aceitar.

Esta inclinou ligeiramente a cabeça, como quem avalia uma imagem fora do eixo. Aquele gesto familiar, meio clínico. Como se estivesse a medir a inclinação do horizonte num enquadramento que recusa ficar direito.

— Se houve perguntas, talvez tenham sido feitas na linguagem errada.

Pausou por um segundo. Um segundo inteiro.

— Não há interrogações nestas secções — acrescentou. — Apenas decisões.

Ela apontou com o queixo para a parede mais longa, onde as fotografias maiores criavam uma sequência que obrigava o percurso visual a desacelerar. Como se o corpo fosse empurrado para dentro da narrativa sem autorização.

— Aqui... — murmurou, estendendo a mão como se pudesse alcançar a moldura que na realidade se encontrava afastada demais. — A progressão faz sentido. Começas com planos abertos, dás respiro, deixas o mar ser a primeira pele. Depois aproximas. Subtilmente. Não atiras o espectador para dentro de um close-up logo à entrada.

Desviou-se apenas o suficiente para que eu sentisse a atenção a pousar em mim.

— Isso é controlo.

A palavra caiu com precisão cirúrgica.

Senti-a antes de a compreender. Um aperto breve no estômago. O reconhecimento não como elogio. Como espelho. Durante um instante, o impulso antigo surgiu, justificar-me, explicar, minimizar. No entanto não o fiz. Fiquei quieta. Deixei que a palavra existisse.

O canto dos seus lábios traiu um quase-sorriso. Uma falha mínima na contenção. E foi ali, naquele intervalo ínfimo, que senti o feitiço começar, não o da sedução, mas o do entendimento.

— E eu reconheço controlo quando o vejo.

Engoli em seco.

Não respondi.

Havia coisas que, se fossem confirmadas em voz alta, perdiam força.

Chloe manteve-se imóvel durante essa pausa. Então redirecionou o foco para uma fotografia mais pequena, inserida como se fosse um intervalo, uma respiração no meio da tensão.

Uma cadeira vazia.

Uma nesga de luz inclinada.

Uma quietude tornada imagem.

— E isto... — a sua voz desceu ainda mais de tom — ...isto é edição emocional.

Aproximou-se um pouco. Não da moldura. Da ideia.

— É onde tu mostras que percebes o que não se deve saturar — continuou. — Nem tudo aguenta exposição prolongada. Há imagens que pedem intervalo. Se as forças a falar demais... perdem verdade.

Parou.

Ela manteve-se presa à cadeira vazia por mais tempo do que o necessário para uma análise formal. E eu contemplei, não como observadora externa, todavia como alguém que a conhecia demasiado bem, a forma como aquela fotografia lhe devolvia algo que ela não apelidava.

— Isto não é vazio — acrescentou, mais baixo. — É pausa.

Finalmente virou-se para mim.

— E escolher uma pausa... — inspirou devagar, como se o próprio ar tivesse peso — ...é saber quando não insistir.

A frase ficou suspensa entre nós, carregada de tudo o que não dizia respeito apenas à fotografia.

O meu pensamento fugiu, sem querer, para outra moldura. A minha. O recorte do meu corpo exposto com uma intimidade que eu nunca permitira antes. Não como oferta. Mas como aceitação. Não lhe disse nada, contudo soube, pelo modo como o seu trajeto visual se desviou daquela imagem por um segundo demasiado consciente, que ela a tinha visto. Que tinha percebido a escolha.

Que tinha entendido o risco.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, contudo também não era confortável como às vezes nos acontecia. Era mais fino, mais atento. Como se algo tivesse sido colocado entre nós e precisasse de espaço para assentar.

Chloe afastou-se meio passo, como se tivesse chegado demasiado perto de algo que não queria tocar mais. O gesto foi pequeno, quase automático, porém bastou para quebrar a linha invisível que a mantinha presa às imagens.

Passou a mão pelo casaco, alisando um vinco que não existia.

Voltei a fixar-me na cadeira vazia. Depois, nela. Estudei-a então, não como quem analisa uma reação, mas como quem começa a perceber um desenho maior.

Ela não estava ali para rever trabalho. Nem para corrigir decisões.

A pergunta saiu-me sem estratégia, quase em contra-ciclo com o cuidado que eu vinha tendo até ali.

— Porque é que vieste hoje? — perguntei.

Não houve acusação. Nem curiosidade óbvia. Foi dita como quem pergunta as horas a alguém que já sabe a resposta, mas precisa de a ouvir na mesma.

A loira não respondeu de imediato.

Endireitou ligeiramente os ombros, num gesto automático, quase aprendido. Depois deixou-os cair outra vez, como se o corpo se tivesse cansado de sustentar defesas que já não faziam sentido naquele espaço.

— A Grace... — começou, e parou.

O nome demorou a cair. 

— A Grace insistiu que eu viesse ver isto antes de toda a gente.

Disse-o sem dramatismo. Sem hesitação excessiva. Como se fosse um detalhe prático. Um pedido simples, quase doméstico.

Mas eu senti o chão mover-se um milímetro.

Não respondi logo. O meu corpo ficou imóvel, atento a não trair o que me atravessava por dentro. O nome dela pairava entre nós como uma coisa delicada demais para ser tocada.

— Disse que como eu não fiz parte do processo de organização, não fazia sentido eu ver isto pela primeira vez rodeada de estranhos — continuou baixando os olhos para o chão por um instante. — Que... — inspirou fundo — ...era importante que eu viesse agora.

A frase foi dita com cuidado. Demasiado cuidado. A visita definitivamente não era curiosidade. Nem controlo. Ou sequer nostalgia.

Vi Grace, não ali, fisicamente, mas no jeito como a sua ausência ocupava o espaço. A lucidez cansada. A generosidade cruel de quem sabe que está a partir e, ainda assim, continua a organizar o mundo para quem fica. Para Chloe. Para o depois quando ela própria já não habitar.

Engoli em seco.

Chloe levantou os olhos para mim, como se tivesse percebido que eu tinha chegado ao mesmo lugar sem que ela precisasse de me levar pela mão.

— Ela acha que isto... — fez um gesto vago em redor — ...vai ficar. Mesmo quando outras coisas começarem a desaparecer.

Não disse quando eu começar a desaparecer.

Mas era isso que a frase continha.

Assenti muito devagar enquanto sentia algo reorganizar-se dentro de mim.

Uma decisão ainda sem forma, mas já inevitável. Não como impulso. Como consequência.

Pensei, pela primeira vez com nitidez, na minha presença ali.

No risco de ocupar um espaço que não me pertencia naquele momento.

No perigo silencioso de confundir cuidado com proximidade.

E antes que pudesse ponderar demasiado, antes que a cabeça tentasse suavizar o que o corpo já sabia, ouvi a minha própria voz.

— Eu não vou ficar aqui por muito tempo.

A frase saiu calma. Sem dramatismo. Sem pedido.

Chloe ficou imóvel.

Não houve reação imediata. Não houve surpresa evidente no seu rosto. Nenhum sobressalto. Foi como se o corpo tivesse precisado de um segundo a mais para aceitar o lugar exato onde aquela frase a tinha atingido antes de permitir qualquer resposta.

O olhar manteve-se preso ao meu durante alguns segundos longos demais para serem neutros. Depois, desviou-se, não por evasão. Por escolha. Como se soubesse que, se ficasse ali mais um instante, algo poderia escapar-lhe do controlo.

Vi-lhe o maxilar contrair-se de leve. Um músculo apenas. O suficiente para denunciar que algo dentro dela tinha mudado de posição.

— Entendo — disse por fim.

A palavra saiu limpa. Demasiado limpa para ser indiferença.

Passou a mão pelo cabelo num gesto automático, quase técnico, como se estivesse a alinhar algo invisível no próprio corpo.

— A Grace costuma ver as coisas com uma clareza desconcertante — acrescentou, num tom aparentemente neutro, mas atravessado por algo mais fundo, menos estável. — Especialmente quando o resto das pessoas ainda está a fingir que não percebeu.

Fez uma pausa curta. Não para respirar. Para medir.

— É uma forma de lucidez que nem sempre é gentil — continuou. — Mas é honesta. — O olhar desviou-se por um instante, quase impercetível. — E... reconheço-me nisso.

Quando voltou a falar, a voz vinha mais baixa.

— Ela ia compreender isto. Ia entender-te — Pausou — ...da mesma forma que eu entendo.

Não era uma afirmação leve. Era um reconhecimento difícil, dito sem ornamento.

Olhou em redor mais uma vez. As fotografias. A luz pousada com cuidado. O espaço agora denso de significado. Por um instante muito breve, deixou que o cansaço atravessasse a postura, não o suficiente para se quebrar, apenas o bastante para denunciar o esforço constante de se manter inteira.

— Há momentos que não pedem presença contínua — disse, como quem organiza um pensamento em voz alta. — Pedem precisão.

A palavra caiu entre nós com o peso exato. Técnica. Emocional. Irreversível.

Chloe voltou a atenção para mim, sem pressa.

— E houve momentos em que tu tiveste isso — acrescentou. — Mesmo quando fingias que não. Mesmo quando achavas que era outra coisa.

O silêncio instalou-se outra vez. Não era tenso, sim carregado de entendimento. Como se ambas soubéssemos que aquele instante tinha um contorno muito definido e que atravessá-lo seria perigoso.

Respirou fundo. Num gesto lento. Medido.

— Não vou pedir que fiques — declarou então. — Nem que vás.

A frase não era distância. Era respeito. Hesitou um milímetro. O suficiente para deixar escapar humanidade.

— Só... — murmurou — ...agradeço que tenhas conseguido ler o momento.

Assenti, não com resignação, mas com uma calma estranha, a de quem finalmente percebe que não está a perder nada ao escolher o lugar certo.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, como fazia quando aceitava uma decisão que não controlava, mas que respeitava. Depois afastou-se, dando um passo para trás, como se se retirasse deliberadamente do centro da cena.

— Isto está bem feito — proferiu, num regresso à linguagem que a protegia. — Vai cumprir o que tem de cumprir.

Aproximou-se da porta, parando antes de sair. Não se virou por completo. Apenas o suficiente para que a voz me alcançasse sem me pedir resposta.

— Ah! Há coisas que ficam melhor assim — murmurou. — Sem excesso de luz.

Ouvi o som da porta a fechar-se num som suave, quase respeitoso, como se também ela soubesse que não devia fazer barulho.

Fiquei ali novamente, sozinha, no meio das imagens que continuavam a existir. O espaço parecia suspenso, como uma fotografia tirada no instante exato antes de algo mudar para sempre.

Sentei-me devagar. Sem saber exatamente o momento em que me tinha levantado.

E percebi que aquilo não tinha sido um reencontro.

Nem uma despedida.

Tinha sido um gesto de cuidado mútuo.

Um silêncio partilhado.

Um amor suficientemente maduro para não pedir mais do que podia ter.

E talvez o significado de crescer fosse esse, aprender que nem tudo o que importa precisa de permanecer perto para continuar verdadeiro.

O foco estava ajustado.

E, pela primeira vez, eu não tentei corrigir a distância.

Deixei-a existir.

Fim do capítulo

Notas finais:

Entando na reta final!

Sinto mutio pela demorada. Agradeço pela paciência.

 


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