O Peso do Azul por asuna
Capítulo 33
Durante o caminho de regresso, os pensamentos começaram a organizar-se em listas silenciosas. Afazeres. Decisões. Consequências.
Num gesto quase automático, abri o browser. Aeroporto de Gold Coast. Nova Iorque. As opções de voos surgiram na pequena tela do celular, linhas ordenadas prometendo deslocação, distância, um antes e um depois. Observei os horários e datas como quem testa uma ferida com a ponta do dedo. Fechei tudo antes do corpo reagir. O celular desapareceu na bolsa, todavia o gesto ficou suspenso.
Se regressasse a Nova Iorque, tudo teria de começar por Mia. A prioridade que não pedi, mas que se instalou em mim como uma verdade sem discussão.
O carro avançava pelas ruas mergulhadas na penumbra. Examinei as janelas iluminadas das casas, pequenos retângulos de vidas alheias fixados na noite. Em cada luz acesa havia uma história que continuava. Perguntei-me, sem verdadeira coragem, se Mia aceitaria ir comigo. Se aquele afastamento seria, para ela, um recomeço ou apenas mais uma perda. E se esta aceitasse, eu sabia que teria de voltar a falar com um advogado, preparar o terreno legal, antecipar obstáculos.
E se ela não quisesse?
A interrogação instalou-se em mim com um frio lento. O que faria então? Deixá-la ali, sozinha, num mundo que já lhe exigira demasiado? Existiria alguém verdadeiramente responsável que pudesse ficar com ela? Alguém que não voltasse a falhar?
Senti o veículo abrandar enquanto se aproximava da rua familiar. O motor murmurou antes de se calar por completo.
As luzes da casa estavam acesas.
Saí do carro com um aperto indefinido no estômago. O ar noturno estava húmido, atravessado por aquele cheiro salgado que o vento traz do mar. Caminhei até à porta e assim que a abri, as vozes chegaram vindas da cozinha. Reconheci de imediato o timbre jovem de Mia. Perguntei-me se teria trazido alguma amiga.
Coloquei a bolsa no sofá e comecei a despir o casaco quando a outra voz se fez ouvir.
O corpo reagiu antes do pensamento.
O coração acelerou, a respiração prendeu-se algures entre a incredulidade e a memória. Aquela voz não devia estar ali.
Pendurei o casaco à pressa, os movimentos desajeitados, como se as mãos tivessem desaprendido a sequência correta dos gestos. Avancei em direção ao som, sentindo o frio do chão a subir-me pelos pés.
Quando entrei na cozinha, ela estava ali.
Olivia estava encostada ao balcão, o peso distribuído numa perna só, como sempre fazia quando se sentia à vontade. Uma mão repousava na superfície clara, a outra segurava uma caneca fumegante. O vapor subia em espirais lentas, misturando-se com o cheiro quente do pão torrado e com aquele aroma leve a lavanda que parecia acompanhá-la para todo o lado.
Quando a nossa atenção se tocou no espaço entre nós, o gesto de calor desenhou-se-lhe nos lábios. Imediato. Aberto.
Por um instante, fiquei imóvel.
A quebra subtil na expressão puxou-me de volta ao corpo, no entanto os pés continuaram pesados, colados ao chão, como se ainda estivessem a decidir se aquele reencontro era real ou apenas uma projeção do cansaço.
— Liv? — o nome saiu num fio de voz, incrédulo.
Ela pousou a bebida com cuidado e deu um passo na minha direção.
A sua presença deteve-se no meu rosto com a familiaridade de quem já aprendeu os contornos da minha exaustão.
Não precisou de dizer nada. E foi isso que mais me tocou.
— Desculpa aparecer assim — pediu, na sua cadência calma, firme, sem dramatismo. — Estava preocupada contigo e… consegui tirar uns dias de férias. Então, achei que fazia sentido vir fazer uma visita.
— Ela disse que era tua amiga — acrescentou Mia depressa, antes de morder uma fatia de pão. — Como não sabia quanto tempo irias demorar perguntei se queria beber alguma coisa enquanto esperava.
Assenti, porém, não respondi. Olivia, por sua vez, não se mexeu.
Ficou ali a ler-me sem esforço. E eu soube.
Sem pensar em demasia aproximei-me dela e abri os braços. Ela encaixou-se neles com a facilidade de quem já conhece aquele espaço, nem demasiado apertado, nem distante. Um abraço exato. O seu cheiro trouxe-me de volta a Manhattan, a cafés demasiado cheios, noites de trabalho partilhadas, conversas às três da manhã.
— Estás mais magra — murmurou junto ao meu ouvido, num tom baixo, quase provocador, porém carregado de cuidado. — Gold Coast não te anda a tratar bem.
Afastei-me o suficiente para lhe ver o rosto.
— Fico feliz que tenhas vindo — confessei. — Vou ter de dispor um tempo para te mostrar a cidade como deve ser.
— Não é necessário — respondeu, contudo, os olhos demoraram-se nos meus como se soubessem que aquela promessa era mais para mim do que para ela. — Sei o quão ocupada tens estado.
Sorri. Ter ali alguém que me conhecia antes de todos os acontecimentos desde a minha volta era um conforto quase indecente.
— Também preciso de uma folga — murmurei. — Haveremos de decidir um dia. Entretanto vou preparar o quarto de hóspedes.
— Não é necessário. Já fiz uma reserva — disse apressadamente, com aquele cuidado que sempre tivera em não ocupar demasiado espaço na minha vida.
Abanei a cabeça, interrompendo-a com suavidade.
— Fica, por favor. — A frase saiu-me sem esforço. — Esta casa tem espaço suficiente para nós três.
E, sinceramente, é sempre bom ter-te por perto.
Ela sustentou-me o olhar um segundo a mais do que o necessário.
Não sorriu logo.
Mas vi qualquer coisa a amolecer-lhe os traços.
— Tens consciência do perigo dessa frase, não tens? — murmurou, o tom a inclinar-se ligeiramente para a provocação. — “Fica...” É assim que começa a decadência emocional.
— Prefiro chamar-lhe crescimento — retorqui, com um sorriso pequeno. — Para ser honesta, eu só quero tirar vantagem das tuas qualidades culinárias.
Olivia arqueou uma sobrancelha, fingindo desilusão.
— E eu a pensar que tinhas sentido a minha falta.
— Senti — admiti, sem floreados. — Mas não te acostumes. Ainda tenho reputação a manter.
Desta vez, ela gargalhou, um som leve, solto, que ficou a pairar no ar por um instante mais do que devia.
E, por breves segundos, foi fácil esquecer o resto.
Fácil fingir que as coisas podiam permanecer assim: simples, leves, limpas de passado.
Nos dias seguintes, com a exposição à porta, a casa voltou a ser lugar de trabalho. O som do teclado misturava-se com o do mar ao longe, com passos suaves, com o tilintar ocasional de chávenas.
Passei horas diante do laptop, afinando detalhes do site do leilão.
Ajustei descrições, escrevi textos curtos e contidos, tentando traduzir em palavras aquilo que as fotografias transmitiam sem esforço.
Reduzi luz, gesto e silêncio a botões e hiperligações, amputando-lhes, inevitavelmente, a beleza.
Ainda assim, era necessário.
No final de tarde, com o sol já inclinado sobre o mar, ouvi a porta abrir-se.
— Uau… — comentou Olivia, surgindo na sala com duas taças largas de vidro. O líquido, de um vermelho profundo, oscilava à medida que caminhava. — Trouxe uma garrafa de Cabernet Sauvignon. Do chileno, não te preocupes, vais adorar.
Pousou uma das taças com cuidado ao lado do laptop, sem pressas, como se aquele gesto já fizesse parte da coreografia da casa. Depois, encostou-se à secretária, num equilíbrio descontraído.
— Obrigada — murmurei, sem desviar os olhos da tela.
— Isto... — começou varrendo a minha pilha de trabalho com um sorriso discreto — isto está a parecer menos uma casa e mais um lugar onde qualquer coisa importante está prestes a acontecer.
— É menos glamoroso do que parece — respondi, sem dar muita atenção. — Só retoques finais antes do grande dia.
Do meu lado sentia aproximando-se ainda mais de mim, curiosa, pousando a sua bebida na mesa. Inclinou-se para ver o site, o cabelo a cair-lhe para a frente, roçando-me o braço de leve.
Ficou em silêncio alguns segundos.
— Posso? — perguntou, apontando para o mouse.
Assenti.
Olivia navegou devagar, abrindo imagens e lendo descrições. Por vezes franzia o cenho, noutras, sorria de leve, como se reconhecesse algo que não precisava de ser dito.
— Está muito bom, Maya — comentou por fim. — Mas talvez possas ir um pouco mais além.
— Como assim?
— As pessoas que vão licitar não conhecem a Chloe como tu — explicou. — Talvez ajude criar pequenas notas de contexto. Não explicações… apenas pistas. Algo que as convide a ficar um pouco mais de tempo diante de cada fotografia, como se estivessem a escutar o que não está visível à primeira vista.
Fiquei em silêncio por um momento.
A atenção dela era como uma lente bem focada, não procurava impressionar, apenas compreender.
A sugestão bateu fundo.
Não pela crítica, mas pela verdade silenciosa por trás dela.
Ela conhecia-me o suficiente para saber que eu andava a esconder-me atrás do contido.
Que, sem querer, tinha editado não só o site, mas também partes de mim.
— Queres ajudar-me? — perguntei antes que o pensamento se organizasse.
Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa e satisfeita.
— A sério?
— A sério.
O sorriso que lhe surgiu foi discreto, mas honesto. Sem segundas intenções. Sem carência. Era apenas alegria por estar ali, por ser incluída.
E, por algum motivo, isso apertou-me o peito.
— Então senta-te direita — disse, puxando a cadeira para junto da minha. — Se vamos trabalhar juntas, quero ver-te a pensar.
— Sim chefe.
Trabalhámos lado a lado durante horas.
Olivia fazia pequenas anotações num bloco enquanto eu ajustava imagens, apagava e voltava a escrever.
Às vezes trocávamos frases curtas, outras ficávamos caladas, apenas com o eco suave do teclado e o tilintar da taça que ela ia pousando sem nunca fazer demasiado barulho.
Houve um momento em que me detive a observá-la.
O modo como inclinava a cabeça quando se concentrava.
O leve franzir da testa.
A forma como o cabelo lhe caía sobre o rosto e ela o empurrava para trás com um gesto automático, antigo.
E ali percebi que sentira a sua falta, não com desejo, porém como presença.
Naquele momento senti-me grata por a ter do meu lado.
— Sabes… — começou despertando-me dos meus pensamentos — devias tirar o dia de folga amanhã.
— Isso soa perigosamente como um conselho sensato.
— Estou a falar a sério. — insistiu. — Um dia. Só nós. Andar, ver coisas, comer sem pressa. Tu precisas de te lembrar que és mais do que este projeto.
— Mas a exposição é neste fim de semana — repliquei, meio defensiva. — Quero que tudo esteja perfeito.
Olivia encostou-se melhor na cadeira, cruzando os braços com aquela expressão entre o cuidado e a ironia leve.
— Vai estar — disse com simplicidade. — Porque és tu que estás a fazer isto. E porque provavelmente passaste as últimas semanas a rever cada detalhe sete vezes.
Fez uma pausa curta, como quem mede bem o próximo passo.
— O que não quer dizer que estejas obrigada a afundar com o navio antes de ele zarpar. Um dia, Maya. Só um. Depois disso, prometo que te deixo stressar à vontade com sombras e alinhamentos.
Olhei para ela, sem sorrir, mas com aquele cansaço que já não sabia bem se era físico ou emocional.
— Parece um plano com boas intenções — murmurei.
— As melhores — respondeu, com um brilho suave no olhar. — Além disso… — acrescentou, como quem recorda algo só agora — acho que me deves uma apresentação decente à cidade. Se bem me lembro, prometeste mostrar-me tudo.
Fez uma pausa e inclinou a cabeça, fingindo uma expressão muito séria.
— E espero que esse passeio venha acompanhado por uma sobremesa digna.
— Combinando. — Respondi contendo a gargalhada.
No dia seguinte quando acordei a casa estava silenciosa, atravessada por uma luz suave que entrava pelas janelas sem pedir licença. O cheiro a café espalhava-se devagar, quente, reconfortante.
Olivia apareceu pouco depois, ainda de cabelo solto, vestida de forma simples, como se aquele dia não tivesse peso nenhum.
— O mundo continua inteiro, mesmo quando não estás a controlar tudo.
— O dia ainda agora começou —respondi, arqueando uma sobrancelha com fingida desconfiança. — Vamos ver se realmente se mantém inteiro.
Ela riu, sem pressa, como quem sabe que não precisa de vencer o argumento, basta esperar que o tempo faça o seu trabalho.
Saímos sem plano.
Talvez tenha sido isso que tornou o dia diferente, não ter de decidir nada. Deixar que o tempo escolhesse por nós, que a cidade se oferecesse sem mapa nem urgência.
Caminhámos junto ao mar. O vento levantava pontas soltas do cabelo dela. O ritmo dos nossos passos acabou por alinhar-se sem esforço, nem pressa, nem necessidade de preencher o espaço com palavras.
Durante algum tempo, não falámos. E o meu corpo agradeceu.
— Tinhas razão — murmurei, depois de algum tempo.
— Sobre o quê? — perguntou ela, sem parar de caminhar.
— Sobre tirar o dia.
Olivia inclinou-se ligeiramente na minha direção e deu-me um encontrão leve no ombro, cúmplice.
— Ainda agora começou. Não vale agradecer antes da sobremesa.
Sorri.
Algum tempo depois entrámos num café pequeno, com mesas de madeira gasta e cheiro a bolo quente. A luz era baixa, acolhedora, como se o tempo ali dentro tivesse decidido abrandar.
Pedimos coisas doces demais.
Partilhámos garfadas sem cerimónia, como quem já o fizera muitas vezes antes.
A certa altura, Olivia apoiou os braços na mesa e observou-me com aquela atenção tranquila que nunca exigia resposta imediata.
— Sabes o que mais gosto em ti? — perguntou.
Revirei os olhos, antecipando.
— Isto promete…
Ela sorriu, sem se deixar abalar.
— Mesmo quando estás no limite, mesmo quando tens tudo a colapsar por dentro… ainda sabes parar. Reconhecer quando precisas de espaço.
Baixei o olhar. Não por embaraço, mas porque aquela frase era difícil de sustentar sem defesa.
— Obrigada — disse apenas.
Ela deu de ombros, como quem não espera retorno.
Ficámos ali mais algum tempo. O café à nossa volta dissolveu-se em ruído distante. A rua, do outro lado do vidro, parecia pertencer a outra cidade.
— Tenho pensado em voltar para Nova Iorque. — Confessei sem planeamento.
As palavras saíram antes de saber se queria dizê-las.
Não a olhei de imediato. Disse-o como quem testa o peso de algo antes de o segurar.
Ela não respondeu. Apenas ficou em silêncio. Contudo não houve tensão, apenas o cuidado de quem sabe que algumas decisões não precisam de opinião.
— A pensar… ou já a planear? — perguntou, por fim, sem julgamento.
— Ainda não sei — confessei. — Há coisas por resolver. Em relação á Mia. Grace E… Chloe.
Ela não se mexeu. Mas algo no seu rosto assentou.
— A cidade não vai curar o que quer que estejas a sentir, Maya. — disse com suavidade. — Nova Iorque pode ser movimento. Pode até distrair. Mas não apaga. Tu sabes melhor do que ninguém.
Assenti, os olhos ainda fixos na borda da chávena.
— Eu sei. Mas às vezes preciso de um lugar onde tudo à volta também se mova. Aqui está tudo tão parado E eu não sei se sou capaz de ficar imóvel à espera de… de algo que talvez já tenha sido perdido.
De relance consegui ver o seu dedo tocando no anel que trazia no polegar.
— Seja qual for a decisão — começou por fim — eu espero que, desta vez, escolhas o que te liberta. Não o que te prende por lealdade a alguém que não sabe o que quer fazer.
Levantei o rosto, sem saber o que responder.
Aquela frase ficou a ecoar dentro de mim mais tempo do que devia.
Olivia não insistiu. Limitou-se a respeitar a ausência de resposta, como quem entende que há silêncios que precisam de espaço para se desfazer.
Naquele dia cheguei cedo.
Mais cedo do que o necessário, como se o corpo soubesse que precisava daquele espaço antes que outras presenças o ocupassem. A porta fechou-se atrás de mim com um som seco, e durante alguns segundos fiquei ali, imóvel, a ouvir a galeria acordar devagar.
A luz ainda não era a definitiva. Entrava oblíqua pelas janelas altas, pousando nas molduras com uma suavidade quase cautelosa, como se também ela estivesse a pedir licença. O ar cheirava a limpeza recente.
Caminhei sem pressa.
Passei pelas primeiras fotografias como quem percorre um território já conhecido, mas visto agora de outro ângulo. O mar. Sempre o mar. Aberto, indomável, oferecendo-se sem se explicar. Mais à frente, os corpos. Fragmentos de pele, curvas interrompidas pela sombra, gestos suspensos entre o toque e a recusa.
Havia ali uma intimidade que já não me feria.
Parei diante da fotografia que me pertencia.
Não precisei de a procurar. Reconheci-a antes de a ver, como se o corpo respondesse por mim. O meu corpo. Fixado em luz. Exposto com uma honestidade que, meses antes, eu teria confundido com imprudência.
Observei-a em silêncio.
Não senti vergonha nem orgulho. Só uma quietude estranha.
Durante semanas achei que isto fosse sobre organização. Só ali percebi que havia coisas que tinham cumprido o seu percurso.
Outras, por sua vez, precisavam de ficar.
O pensamento surgiu sem alarde, sem urgência, como uma maré que muda sem aviso.
Eu não queria que aquela fotografia fosse embora.
Não por apego.
Mas por encerramento.
Afastei-me um passo, depois outro, observando-a de novo à distância. No meio da sala, a imagem já não gritava. Existia. E isso bastava.
Foi então que, pela primeira vez desde a conversa com a Chloe, a decisão deixou de ser hipótese e ganhou forma dentro de mim.
Nova Iorque.
Não como fuga.
Nem como recomeço dramático.
Mas como continuidade.
A ideia assentou com uma clareza inesperada. Pensei nos dias que se seguiriam, no regresso a uma cidade que nunca parava, no peso que ali se diluiria em ritmo. Pensei na Mia.
O coração apertou, contudo não foi por medo.
Perguntar-lhe-ia.
Não como convite salvador. Ou como promessa.
Perguntar-lhe-ia porque, pela primeira vez, eu sabia que não estava a tentar arrancá-la de lugar nenhum, estava a oferecer-lhe algo, talvez uma família de verdade.
Respirei fundo.
O som distante de uma porta a abrir-se no fundo do edifício chegou abafado. Em breve, a sala deixaria de ser só minha. Outras vozes, outros olhares, outras leituras ocupariam aquele espaço.
Antes disso, deixei-me ficar mais um instante.
No centro daquele espaço, rodeada por imagens que já não exigiam resposta, senti algo que raramente me permitia nomear. Satisfação.
Não felicidade exuberante.
Não alívio.
Apenas, satisfação.
Como quem reconhece que fez o que podia.
E que agora era o momento certo de seguir em frente.
Como suspeitara as primeiras pessoas chegaram em pequenos grupos, quase cautelosas. Os sons das vozes ecoaram, misturando-se com o arrastar contido de passos e o tilintar breve de copos.
Afastei-me para junto de uma das paredes, permitindo que o espaço fizesse o seu trabalho.
Havia algo de profundamente revelador em observar desconhecidos diante das imagens que eu escolhera. Alguns aproximavam-se demais, inclinando a cabeça, como se pudessem entrar pela superfície da fotografia. Outros mantinham distância, braços cruzados, o corpo inteiro em defesa enquanto os olhos denunciavam curiosidade.
Vi uma mulher deter-se longamente diante da cadeira vazia. Não comentou. Apenas ficou ali, imóvel, como se tivesse reconhecido alguma coisa que não esperava encontrar.
Um casal discutia em voz baixa junto do mar cinzento, um apontando detalhes técnicos, o outro claramente mais interessado no que a imagem impunha. Um homem de idade avançada passou rápido pelas primeiras fotografias e depois voltou atrás, contrariando o próprio impulso, como se tivesse percebido que aquele não era um corredor para atravessar depressa.
A exposição estava a funcionar.
Não como espetáculo.
Mas como algo realmente significativo.
E isso trouxe-me uma calma estranha, quase desconcertante.
Durante semanas, imaginei este momento como um teste. Agora, ali, encostada à parede, percebi que não precisava de aprovação. As imagens estavam a existir sem mim. A ocupar o seu lugar no corpo de outras pessoas.
Era suficiente.
Observei como os olhares se demoravam mais do que o esperado nos corpos. Não havia choque. Nem escândalo. Havia atenção. Um tipo de respeito silencioso que me surpreendeu. Talvez porque aquelas imagens não pediam para serem consumidas, apenas reconhecidas.
Alguém passou por mim e agradeceu, num murmúrio breve, sem saber exatamente porquê. Assenti com um sorriso automático, sentindo-me curiosamente ausente daquele agradecimento. Não era para mim que ele se dirigia. Era para tudo o que estava exposto.
Foi então que senti a mudança no ar.
Levantei o rosto.
Ainda não a vi.
Mas soube.
O meu corpo respondeu antes de qualquer confirmação. A respiração ajustou-se, os ombros recuaram um milímetro, como se se preparassem para uma presença que já conheciam.
Mantive-me onde estava.
Não a procurei.
Limitei-me a analisar a sala continuar o seu movimento, consciente de que, algures entre aquelas vozes e imagens, uma história antiga acabara de entrar, não para se reescrever, mas para ser vista sob outra luz.
Alguns segundos depois, como esperado ela entrou no meu campo de visão, sem pressa.
Não fez ruído suficiente para chamar atenção, mas também não tentou passar despercebida. O corpo conhecia o lugar, ou talvez fosse o espaço que ainda se lembrava dela. Houve um breve desvio natural na circulação das pessoas, como se algo tivesse sido reposicionado sem ninguém saber explicar porquê.
Vestia algo simples. Escuro. Linhas limpas. Nada que competisse com as paredes. O cabelo preso de forma prática, alguns fios soltos junto à nuca. A maquilhagem discreta cumpria a função de sempre.
Durante alguns segundos, não me procurou.
Parou à entrada da sala principal e deixou a atenção percorrer o ambiente com uma precisão quase clínica, quase profissional. As pessoas. As distâncias entre os corpos. O tempo que cada um concedia às suas imagens. Vi-a absorver tudo como quem lê uma composição maior, onde nenhum detalhe existe sozinho e só ganha sentido na relação silenciosa com o todo.
O cansaço estava lá.
Não gritava. Mas habitava-lhe os gestos. Na forma como o peso do corpo assentava um pouco mais numa perna. No modo como respirava fundo antes de avançar. Era um cansaço antigo, aprendido, administrado com rigor.
Aproximei-me da parede oposta, mantendo a distância justa. Não por medo. Por escolha.
Chloe avançou lentamente pela sequência inicial. O mar recebeu-a primeiro. Vi-a parar diante da imagem, os braços soltos ao longo do corpo, o rosto imóvel. Não inclinou a cabeça. Não se aproximou demais. Observava como quem reconhece algo que já deixou de lhe pertencer, mas cuja linguagem ainda compreende.
Seguiu depois para os corpos.
Aqui, o ritmo mudou.
O olhar demorou-se mais. Um segundo a mais do que o estritamente técnico. Vi-lhe o maxilar contrair-se de leve, um gesto mínimo, involuntário, antes de recuperar a neutralidade. O dedo tocou-lhe o anel por reflexo, como se precisasse de ancorar-se em algo pequeno e sólido.
Não se voltou para mim.
Não ainda.
Atravessou a sala como quem respeita um território que já não lhe pertence por inteiro. Houve pessoas que a reconheceram. Um aceno discreto, um cumprimento murmurando o nome e ela respondeu com educação contida, sem se fixar em ninguém.
Quando finalmente chegou à fotografia da cadeira vazia, parou.
Ficou ali tempo suficiente para que o mundo à volta continuasse sem ela. Não havia leitura técnica naquele momento. Havia outra coisa. Um silêncio mais espesso, quase pessoal.
Foi então que, sem se virar por completo, levantou ligeiramente o rosto.
Encontrou-me.
Não houve surpresa.
Nem desconforto.
As nossas linhas cruzaram-se com a naturalidade de quem já não precisa de confirmar nada. Não sorrimos. Também não desviámos de imediato. Ficámos somente naquele intervalo preciso.
Senti, com clareza inesperada, que não havia urgência.
Nem da minha parte.
Nem da dela.
Chloe assentiu uma única vez. Um gesto quase impercetível, mais próximo de reconhecimento do que de cumprimento. Depois voltou-se novamente para a imagem, devolvendo-me o espaço sem me excluir dele.
Afastei-me alguns passos, deixando que o fluxo da sala se reorganizasse. A exposição seguia o seu curso. As imagens continuavam a respirar. As pessoas continuavam a parar para analisar.
A presença de Olivia desenhou-se com nitidez junto à entrada, detida por um instante, observando.
Os seus olhos percorreram as paredes, atentos, demorados. Vi-a pausar diante das primeiras fotografias. Deteve-se diante do mar, depois dos corpos, sem hierarquizar.
Foi então que me viu.
O reconhecimento surgiu-lhe no rosto de forma imediata lançando-me um traço breve de calor, mais nos olhos do que na boca. Não veio logo na minha direção. Esperou.
Então aproximei-me.
— Chegaste — murmurei, sentindo a frase pousar no corpo com uma naturalidade inesperada.
— Cheguei — respondeu, baixinho. — Não queria entrar a meio de nada.
O “nada” dizia mais do que parecia.
Ficámos lado a lado, viradas para a parede. O braço dela roçou o meu de leve quando ajustou a bolsa no ombro. Um toque mínimo.
— Está muito bonito — disse, depois de algum tempo. — Calmo. Dá vontade de ficar.
Assenti.
— Era isso que eu queria.
Olivia inclinou ligeiramente a cabeça, voltando a percorrer as imagens com atenção. Não procurava autoria. Procurava intenção.
— É possível sentir a pessoa por trás das fotografias — acrescentou. — Mesmo se alguém não souber quem é.
Não respondi de imediato.
De relance, percebi o movimento do outro lado.
Chloe.
Não nos observava diretamente. Porém a postura, por um instante demasiado consciente, desviou-se da fotografia que tinha diante de si antes do tempo. O gesto foi pequeno. Quase invisível. Mas eu vi.
E não senti culpa.
Talvez porque, pela primeira vez, não havia nada a explicar.
Liv aproximou-se um pouco mais de mim para comentar outra imagem, apontando um detalhe técnico, a forma como a luz se dissolvia numa sombra. Falava baixo. Sempre baixo. Como se a sala exigisse esse tom.
— Esta aqui — murmurou — tem qualquer coisa de… penetrante. Como se estivesse à espera de uma decisão que nunca chega.
Encarei a fotografia. Depois, encarei-a a ela.
— E às vezes… o que nunca chega é o que mais nos prende.
Ela sorriu de leve, sem insistir.
— Ora, ora…
A voz chegou antes da presença.
— E quem é esta presença luminosa?
Piper materializou-se do nosso lado com naturalidade. Trazia um copo na mão, o cabelo ruivo preso de forma descuidada, alguns fios soltos a captarem a luz.
O olhar pousou primeiro em mim de forma rápida, depois em Olivia, demorando-se um segundo a mais do que o estritamente social.
Revirei os olhos antes que pudesse impedir o gesto.
— Piper…
— Então? — interrompeu-me, sem culpa. — Há uns anos eras mais educada, Maya. — O canto da boca ergueu-se num meio-sorriso provocador. — Mas já que não nos apresentas, faço eu as honras.
Estendeu a mão para Olivia com firmeza descontraída.
— Piper.
Olivia aceitou o gesto sem hesitar.
— Olivia.
O aperto foi breve. Seguro. Sem disputa, sem timidez. Um gesto limpo, que pareceu agradar à Piper mais do que ela estava disposta a admitir.
— Amiga minha — acrescentei, sentindo necessidade de ancorar o momento. — De Nova Iorque.
Piper inclinou ligeiramente a cabeça, avaliando Olivia com um interesse que não era invasivo, mas inegavelmente desperto.
— Hm. — Murmurou. — Isso explica a expressão de quem observa antes de falar.
Liv arqueou uma sobrancelha, divertida.
— É um hábito difícil de largar.
— Gosto de pessoas assim. — respondeu a ruiva, sem ironia. — Geralmente são as que percebem mais do que dizem.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi… ajustado.
Senti-me estranhamente presente naquele triângulo improvisado. Não como centro, mas como ponto de ligação.
— E então? — perguntou Piper, agora dirigindo-se a Olivia, mas sem me excluir do olhar. — Primeira vez a presenciar o trabalho da Chloe?
— Primeira — confirmou Olivia. — Mas não parece estreia. Há uma coerência muito calma aqui.
A outra piscou devagar.
— Coerência calma… — repetiu. — Vou roubar isso para usar mais tarde.
— Cobra direitos de autor — sugeri, baixinho sentindo um ligeiro desconforto.
— Ah, não. — Devolveu Piper. — Prefiro convidar a autora para beber um copo e discutir o conceito.
Ela voltou-se para Olivia, desta vez sem disfarçar totalmente a curiosidade.
Algo breve e genuíno atravessou Olivia, soltando-lhe um pouco os ombros.
— Pode ser negociável.
A ruiva curvou a boca num meio-sorriso atrevido, como quem acabara de confirmar uma teoria silenciosa.
Nesse momento, alguém chamou por Piper do outro lado da sala. Um pedido logístico. Um detalhe técnico. Nada urgente, mas suficiente para a arrancar dali.
— O glamour da produção cultural. — disse, erguendo o copo num brinde improvisado. — Dever do caos. Já volto. Não desapareçam.
Antes de se afastar, lançou um último olhar a Olivia. Não avaliativo. Memorável.
Quando Piper se afastou, senti necessidade de me mexer.
Olivia virou-se para mim, com um sorriso discreto.
— Ela é… intensa.
— É a forma dela de ser, de cuidar — respondi. — Mesmo quando finge que não está a fazê-lo.
Olivia assentiu, pensativa.
— Percebe-se.
Seguiu com o olhar a figura ruiva por um instante breve, antes de voltar a atenção às fotografias.
E eu, ali no meio, tive a certeza silenciosa de que aquele encontro não era acaso nem promessa.
Era apenas o início de uma nova geometria.
Respirei fundo.
— Agora que ela foi — expus, baixinho — preciso de te pedir uma coisa. Vem comigo.
Afastei-me alguns passos da sala principal, conduzindo a Olivia para junto de uma das paredes laterais, onde o som das vozes chegava filtrado, menos nítido. Não era um canto escondido. Apenas um lugar onde o corpo podia respirar sem ser atravessado por olhares constantes.
Ela seguiu-me sem perguntar porquê.
Ficámos diante da fotografia.
A minha.
Ela deteve-se. O olhar pousou com cuidado, sem apropriação.
— Esta… — começou, no entanto não terminou.
— É a única — disse eu, antes que o pensamento se tornasse demasiado elaborado — que eu não quero que vá para a casa de um desconhecido.
A frase saiu baixa. Clara. Sem dramatismo.
Ela voltou-se para mim, surpresa apenas o suficiente para revelar que estava a ouvir com tudo o que tinha. Não perguntou porquê. Não procurou lógica. Apenas esperou.
— Pensei em várias hipóteses — continuei sentindo a estranha tranquilidade de quem já decidiu. — Mas nenhuma fazia sentido. Não quero guardá-la como posse. Quero… que seja um encerramento.
Houve um silêncio curto. Denso. Bom.
— Queres ficar com ela — disse Olivia, não como pergunta, mas como tradução.
Assenti.
— Mas não quero que ela saiba que fui eu.
Observamos de novo a fotografia. Depois vi-a olhar para o pequeno aviso discreto ao lado, com o código do leilão e o valor inicial. Vi o gesto quase impercetível da sua respiração a ajustar-se.
— Posso dar o lance — afirmou, simplesmente. — Se é isso que realmente queres.
O alívio não veio em euforia. Veio no corpo. Como se algo tivesse finalmente encaixado.
— Obrigada.
Olivia tirou o celular da bolsa com um gesto calmo, prático. Desbloqueou a tela, abriu o site, digitou os dados com a atenção de quem respeita o peso de um gesto pequeno.
— Diz-me quando — murmurou.
Esperei um segundo.
Não porque tivesse dúvidas. Mas porque precisava de sentir o momento inteiro.
— Agora.
Ela confirmou o lance com um toque breve.
Nada mudou na sala.
As pessoas continuaram a circular.
Os copos continuaram a tilintar.
As vozes mantiveram no mesmo tom contido.
E, no entanto, tudo tinha mudado.
Olivia manteve o dispositivo na mão, os olhos ainda na fotografia.
— Vou ficar atenta. — disse. — Se alguém tentar subir, cubro. Ela não vai a lado nenhum.
Sorri. Um sorriso pequeno. Interno.
— Era isso.
Ficámos ali mais alguns segundos, sem dizer nada. Depois, dei um passo atrás. Afastei-me da imagem com a leveza de quem não está a abandonar nada, apenas a concluir.
De relance, senti Chloe do outro lado da sala.
Não nos observava diretamente.
Olivia pousou a mão de leve no meu antebraço. Um gesto mínimo. De presença.
— Estás bem? — perguntou.
Assenti.
Ao afastar-me, o ambiente reorganizou-se à minha volta. Entre vozes baixas, passos contidos e o som discreto de copos pousados em superfícies improvisadas, os nossos olhares cruzaram-se.
Aquele azul turquesa impossível pousou em mim, depois em Olivia, voltando-se novamente para mim.
Não desviei.
Sustentei-lhe o olhar sem desafio, sem pedido, como se aquele instante bastasse para dizer tudo o que já não precisava de ser explicado. Não houve resposta visível. Apenas um entendimento silencioso, exato, como uma imagem que se fixa no momento certo.
Depois, o corpo dela deslocou-se ligeiramente.
Vi quando dois jornalistas se aproximaram. Reconheci aquele tipo de atenção, a forma como os corpos se inclinam, como as perguntas são preparadas antes de serem feitas, como certas ausências ocupam mais do que presenças.
Chloe manteve-se inteira.
O sorriso que ofereceu foi contido, profissional. Um daqueles que não convida, mas também não se fecha. Vi a respiração ajustar-se com precisão, como se estivesse a escolher cuidadosamente o ar que deixava entrar.
A ausência da Grace estava ali.
Não dita.
Não explicada.
Somente presente na forma como Chloe respondeu sem se mover. Na forma como os ombros permaneceram alinhados, firmes, como se soubessem que aquele era um território onde não se cede.
Os jornalistas afastaram-se pouco depois. Levaram consigo a curiosidade satisfeita.
Chloe ficou onde estava mais um instante, agora sozinha diante da fotografia do mar. Não se aproximou. Não recuou. Limitou-se a permanecer naquele ponto exato.
Afastei-me.
A sala continuava viva. Piper surgia e desaparecia entre conversas, elétrica, atenta. Ao fundo, vi-a inclinar-se para Olivia, dizer-lhe qualquer coisa em tom baixo. O riso que se seguiu foi breve, genuíno, inesperadamente leve.
Observei-as.
Apenas com a clareza tranquila de quem percebe que já não é o centro de todas as linhas.
O pensamento regressou-me sem urgência: Nova Iorque.
E depois, inevitavelmente, a Mia.
A imagem dela surgiu-me com nitidez serena.
Senti o celular no bolso. Não o tirei.
Havia decisões que não precisavam de ser registadas no instante em que se tornavam reais.
Respirei fundo.
A exposição seguia.
As histórias cruzavam-se.
E eu, ali no meio, já não sentia a necessidade de segurar nada com força excessiva.
Percebi então que aquele dia não tinha sido um fecho abrupto, nem um clímax emocional.
Tinha sido um alinhamento.
Um ajuste fino entre o que fui, o que sou e o que estava finalmente pronta para ser.
E, assim a ideia de partir não me soou a perda.
Soou a continuidade.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 27/01/2026
Será que Maya vai embora para dar o tempo que a Chloe precisa...
Ou será de fato o fim para elas
Estou torcendo para que seja apenas o encerramento de um ciclo para que outro começo sem tanto peso
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asuna Em: 03/02/2026 Autora da história
Já já iremos descobrir
Obrigada por acompanhar espero conseguir disponibilizar o próximo capítulo este fim de semana.