Capitulo 21 - Causa ganha
Capítulo vinte e um
CAROLINA FONSECA
5 anos atrás.
Abri a porta de casa, era por volta das 19h. O dia todo no trabalho tinha sido um martírio devido a noite mal dormida no hotel. Estranhei a escuridão dos cômodos, mas a luz da cozinha estava acesa, então presumi que Esther estivesse por ali.
Ela não estava.
Fui até o quarto e encontrei a cama feita. O espaço no guarda-roupa de frente ao espelho, onde guardávamos alguns pertences, estava particularmente vazio.
Só havia minhas coisas ali.
-- Esther? -- Chamei, sem resposta.
Voltei para a cozinha e abri o armário atrás de um pacote de biscoitos para mastigar. Estava faminta. Encontrei uma sacola no fundo do armário com ingredientes para o meu bolo de chocolate favorito.
Suspirei, sentindo um nó na garganta.
É, amanhã era meu aniversário.
Esther sempre se lembrava de preparar algo com antecedência. Me senti um lixo, mais uma vez. Estava sendo comum aquela sensação. Peguei o porta-retrato que havíamos tirado no mês passado e me joguei no sofá.
Naquele dia, eu percebi que Esther tinha partido para sempre da minha vida.
Para onde ela tinha ido? Estava sozinha?
O que eu tinha feito com a mulher que jurei amar?
Meus dias foram assim por longos meses. Eu chegava em casa e ficava remoendo minhas escolhas horríveis por horas a fio.
Tanto tempo sofrendo.
Por algo que nunca aconteceu.
De volta ao presente, soquei o volante tentando, sem sucesso, extravasar a raiva que não cabia em mim. Já fazia muitos minutos que eu estava parada ali no estacionamento do meu prédio.
Mas minha pressa em deixar o apartamento de Esther definitivamente não era só raiva dela. O que realmente me levou a sair com tanta pressa foi o pavor de não saber como agir. Eu tinha medo de olhar para aquela criança agora.
Aquela criança? Não não… minha filha.
Eu fui ali para ter certeza, mas antes mesmo de Esther confessar, eu já tinha a resposta em seus olhos cheios de culpa.
Encostei a cabeça no volante e chorei, chorei de verdade. O estacionamento estava deserto e não havia ninguém ali para me julgar ou esperar que eu fosse forte.
Foram anos de arrependimento. Noites em que eu me odiei por ter tirado da Esther seu sonho de ser mãe, e durante todo aquele tempo era ela quem havia tirado minha filha de mim.
Aquilo não podia estar acontecendo.
-- Carol? Carol você está chorando? -- Ouvi batidas no vidro do carro e a voz de Raquel. Só então me lembrei que tinha dito que a buscaria no aeroporto.
-- Oi Raquel, me desculpa… -- Disse enxugando as lágrimas. -- Aconteceu um imprevisto, eu me esqueci totalmente de te avisar.
-- É, eu tô vendo que aconteceu algo. -- Minha amiga me olhava incrédula. Talvez por eu não ser o tipo de pessoa sentimental e parecer tão vulnerável naquele momento. -- Você quer conversar?
Meia hora depois, já no meu apartamento, depois de me acalmar, decidir resumir minha história para minha melhor e única amiga, dando ênfase nos últimos acontecimentos.
-- Nossa Carol… -- A loira me olhava com uma mão sobre a boca. -- Desculpa, mas você foi uma tremenda filha da puta.
-- Oi? Raquel, você ouviu eu te dizendo que a Esther escondeu minha filha POR SEIS ANOS? -- Elevei o tom, não era possível que minha melhor amiga não fosse ficar do meu lado.
-- Sim, eu ouvi… Ela parece meio piradinha também né, mas cara… Trair uma mulher grávida foi sacanagem.
Desviei o olhar. Como eu poderia discutir? Raquel estava certa.
-- Do lado de quem você tá afinal? -- Resmunguei, me já me arrependendo de ter desabafado com ela.
-- Do seu lado né Carol! Que pergunta… -- Minha amiga pareceu pensar um pouco antes de levantar o questionamento óbvio.
-- O que você pretende fazer agora?
Eu já sabia o que eu pretendia fazer, já estava na minha mente antes mesmo de ter a confirmação de Esther de que aquela menina era nossa filha.
-- Eu vou entrar na justiça e pedir a guarda dela. -- Verbalizei, tanto para responder Raquel, quanto para confirmar para mim mesma que eu estava realmente decidida.
Minha amiga riu e depois me olhou séria. -- Você não tá falando sério né?
-- E o que você faria no meu lugar? -- Olhei desacreditada. Será possível que ninguém era capaz de enxergar o quanto eu havia sido injustiçada nessa palhaçada que minha ex havia aprontado?
Raquel olhou para o alto. -- Olha Carol… Descobrir que tenho uma filha de cinco anos de idade, que não faz a mínima ideia de quem eu sou não é o tipo de coisa que já tenha me passado pela cabeça… Mas eu não sei se tentaria tirá-la da única mãe que ela conhece e ama.
Ri desgostosa. -- Mesmo se a mãe que ela conhece e ama for completamente doida e dissimulada?
-- Uau Carol! Menos né…
-- Mas é o que ela é! -- Me levantei e comecei a andar de uma lado para o outro. -- A Esther teve coragem de dizer na minha cara que eu sou mau-caráter e desprezível enquanto a pessoa mais sem escrúpulos nessa história é ela.
-- Espera… Quando ela te disse isso?
Olhei para o lado sem jeito. -- Quando eu fui até o trabalho dela… Alguns dias atrás.
-- E você foi fazer o que lá Carolina? -- Ela apertou os olhos desconfiada.
Tentar reconquistá-la.
Senti nojo de mim mesma por isso.
-- Isso não vem mais ao caso. -- Balancei a cabeça negativamente. -- Eu já me decidi, e quero aquela maldita noiva da Esther bem longe da minha filha.
-- Carol, Carol… Você não está fazendo isso para atingir sua ex né?
Claro que eu estava. Mas eu precisava me convencer que não.
-- Raquel, eu não estou te entendendo… Quem é sua amiga? Eu ou a Esther?!
-- Okay… Não tá mais aqui quem falou. -- Raquel balançou os braços em sinal de rendição.
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A segunda-feira começou como qualquer outra. E como se eu não tivesse acabado de descobrir algo que mudaria minha vida para sempre, eu estava caminhando pelos corredores da Azzo. Tinha uma reunião às 13h15 com meu advogado, então fui direto para o seu escritório que não ficava muito longe dali. Depois de explicar toda a situação, ele abriu um sorriso e se alongou em sua cadeira.
-- É um causa ganha Carol, você sabe… -- Se apoiou na mesa. -- Ela te enganou, te privou de acompanhar o crescimento da menina. -- Ele passou as mãos nos cabelos curtos e espetados. -- Além do mais, convenhamos, a filha é tua.
-- Minha e da Esther. -- O corrigi, desconfortável.
-- Claro, claro. -- Ele respondeu com um desdém que me irritou um pouco, mas não queria discutir. Eu queria ter meus direitos.
-- Espero que isso corra rápido como você me prometeu. -- Falei me lembrando de como ele me custaria uma pequena fortuna. -- Não posso perder em hipótese alguma.
Meu advogado se inclinou sobre a mesa.
-- Carolina, você já ganhou causas em que você estava completamente errada… Você sabe que é tudo uma questão de falar com as pessoas certas e pagar o preço que elas cobram. -- Deu um sorrisinho arrogante. -- Não existe a menor possibilidade de você perder. -- Completou enquanto me acompanhava até a saída do escritório.
Voltei para a empresa com a confiança de que ganharia, mas um sentimento estranho de que talvez estivesse cometendo um erro.
Fim do capítulo
Será que a Carol está metendo os pés pelas mãos?
Quero agradecer pelos comentários, fico feliz de saber que ainda existem pessoas acompanhando, apesar do tempo que fiquei sem postar.
Prometo que irei responder o máximo que puder. Um grande abraço a todas.
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silverquote Em: 20/12/2025 Autora da história
A Carolina não está pensando nas consequências, por enquanto. Ela quer vencer.