Capitulo 20 - Visita
20 - Visita
Capítulo vinte
ESTHER MOTTA
Quando cheguei em casa, Jaque estava esquentando dois pedaços de pizza e eu sorri. Eu normalmente não comeria, mas estava cansada e ela provavelmente adivinhou.
A abracei por trás, era tão bom chegar em casa e tê-la ali me esperando.
-- Como foi a noite? -- Perguntei quando ela se virou para mim.
-- Ah, foi ótima… -- Ela parecia um pouco tensa. -- Pedi pizza e… depois eu e a Lara brincamos de tirar fotos até ela dormir.
Franzi a testa, não gostei do modo como Jaque desviou o olhar.
-- Aconteceu alguma coisa? -- Ela me olhou com uma cara de culpada.
-- Ah… Nada demais, é só que quando eu fui pedir a pizza, vi que tinha esquecido minha bolsa com o celular e a carteira lá na empresa, daí eu precisei ir lá buscar. -- Ela atropelou as palavras, visivelmente nervosa, e com razão.
-- E você deixou a Lara aqui sozinha?! -- Perguntei, já estava irritada.
-- Não! Claro que não! -- Jaqueline tentou me acalmar. -- Eu levei a Lara, peguei a minha bolsa e voltei. Tudo isso levou menos de uma hora e então já estávamos nós duas em casa de novo.
Espera, ela levou minha filha na empresa da Carolina?
-- VOCÊ FICOU LOUCA?! -- Eu surtei, e provavelmente isso assustou minha noiva, que arregalou os olhos no mesmo instante. Tentei me controlar. -- Jaque, você não podia ter feito isso! Ela podia ter sido sequestrada ou sei lá…
-- Esther, calma! -- Ela se aproximou. -- Quem vai sequestrar uma criança lá?! O prédio tava fechado, só tinham os seguranças lá.
Acalmei a respiração, é verdade, é sábado e estava de noite.
-- Então, não tinha ninguém lá?
-- Só a Carolina né… Mas nem me surpreende, já ouvi dizer que ela praticamente mora na empresa.
Eu devo ter ficado pálida, porque Jaqueline se aproximou me pedindo pra ficar calma, que Lara estava bem, que ela não faria mais isso de sair com a minha filha à noite e várias outras coisas que eu não consegui mais prestar atenção.
Me afastei dela, pedindo um pouco de distância. Eu queria parecer que eu estava irritada, ao invés de em pânico, que era o verdadeiro sentimento agora.
-- Vou dormir no quarto da Lara, mais tarde conversamos. -- Falei dando as costas. Na verdade eu não queria mais conversar sobre aquilo, mas ao mesmo tempo queria perguntar coisas, mas tinha medo de ouvir a resposta.
Será que Carolina tinha visto Lara? Ou melhor… Será que ela tinha notado alguma coisa? Porque ela sempre foi desatenta aos detalhes, mas minha filha era tão parecida com ela que chegava a assustar.
No dia seguinte, notei que minha noiva não estava em casa. Eu suspirei aliviada porque provavelmente o clima ficaria péssimo entre nós duas.
Resolvi que iria aproveitar o domingo. Assim que Lara acordou, servi seu café da manhã e logo fui questionada sobre Jaqueline.
-- A Jaque tem umas coisas pra fazer hoje… Mais tarde ela vem. -- Eu nem sabia se ela tinha dormido em casa, pra falar a verdade.
Ouvi batidas na porta e suspirei. Minha noiva provavelmente só tinha saído para comprar algo e já estava de volta. Sequei as mãos da louça que estava lavando e fui em direção a porta, mas assim que abri, meu reflexo foi de fechar novamente de uma só vez, porque não era a Jaqueline que estava parada ali.
Era a Carol. Como ela conseguiu subir?
Não fazia diferença, ela jogou o corpo contra a porta me impedindo de fechar na sua cara, e entrou quase a força no apartamento.
-- Você tá louca?! Eu vou chamar a polícia… -- Eu disse baixinho, porque não queria chamar atenção da Lara.
Carolina apenas continuou me olhando em silêncio, e logo depois passou os olhos pelo apartamento, como se procurasse algo. Droga… Eu sabia o que ela estava fazendo ali.
-- Saí agora, por favor… -- Mantive o tom, mas minha voz estava tremendo, e ela provavelmente conseguia notar.
-- Você vai chamar a polícia? -- Ela deu um sorrisinho forçado. -- Por que, Esther? Eu só vim aqui porque queria conhecer sua filha.
Ouvi passinhos descalços correndo em direção a sala. -- Mãe, quem… -- Lara ficou em silêncio notando que tinha alguém diferente em casa, mas logo sorriu. -- Oi… -- Disse timidamente. -- Você é a moça do trabalho da Jaque.
-- Sou eu sim. -- Caroline se virou sorrindo, mas logo seus olhos voltaram para mim. -- Esther… Quantos anos ela tem?
-- Que? -- Eu perguntei, apesar de ter entendido a pergunta da primeira vez.
-- Eu tenho cinco, e vou fazer seis anos daqui… dois meses, né mãe? -- Lara falou inocentemente e vi Carol abaixar o olhar, como se pensasse.
Ou estivesse fazendo as contas, mentalmente.
-- Carol… A gente precisa conversar. -- Finalmente seus olhos voltaram a fitar os meus e eu pude ver exatamente o momento em que a dúvida deu lugar a uma raiva contida.
Engoli em seco, eu teria que enfrentá-la de qualquer forma.
-- Não… -- Ela murmurou baixinho. -- Não precisamos.
-- Lara, vai pro seu quarto, a mamãe precisa conversar com a moça. -- Pedi com palavras e com o olhar, e minha filha prontamente atendeu.
-- Carol. -- Dei um passo à frente e ela se afastou de imediato. -- Carol eu estava muito assustada naquela época… E eu tive medo de você tirar ela de mim. -- Falei, minha voz estava trêmula.
-- Para… -- Ela balançou a cabeça transtornada. -- Diz que você não fez isso comigo…
Sim, eu havia feito.
E eu tenho que confessar que senti uma pontada no peito ao ver aquele olhar marejado. Ela não era de chorar.
-- Eu… Droga Carol… Você nem queria ser mãe!
Ótimo argumento Esther, bem convincente, parabéns.
Infelizmente eu não tinha como dizer outra coisa, aquela era a verdade.
Carolina deu um riso indignado.
-- Você é louca… -- Mordeu o lábio inferior para conter as lágrimas e abriu a porta saindo com pressa.
-- Carol, espera! -- Segurei em seu braço e ela se voltou para mim. -- A gente precisa conversar, de verdade.
-- AGORA VOCÊ QUER CONVERSAR?! -- Ela gritou arregalando os olhos e logo seu tom de voz mudou para algo assustadoramente calmo. -- Você vai conversar Esther… Com meu advogado. -- Disse terminando de descer as escadas.
Não tive coragem de segui-la. Senti muito medo, não era assim que eu imaginava aquele momento. Na verdade, eu não imaginava aquele momento. Eu torcia para que nunca acontecesse.
Me sentei em um dos degraus e comecei a chorar desesperadamente, não sei por quanto tempo, até que ouvi uma voz me chamar, preocupada.
-- Esther?! O que aconteceu? -- Jaqueline estava abaixada na minha frente. -- Eu vi a Carolina na portaria, ela passou sem nem olhar na minha cara… Ela não estava aqui, né?
Não respondi de imediato, minha cabeça começava a doer de tanto chorar.
-- Ela… Vai tomar minha filha, Jaque.
-- Hã? A Carolina?
Não respondi nada. Por que aquilo estava acontecendo comigo? Bom, eu tinha minha grande parcela de culpa, mas aquilo não devia acontecer daquela forma.
-- Esther… Não tem chance dela ser a outra mãe da Lara, né? -- Senti um certo receio na voz da minha noiva. Não consegui olhar pra ela, apenas balancei a cabeça confirmando.
-- Então foi ela que te abandonou com uma criança que foi planejada e resolveu continuar seguindo a vida como se nada tivesse acontecido?
Coragem Esther! Conte.
-- Ela não me abandonou, Jaque… Ela me traiu com outra mulher. -- Olhei para minhas próprias mãos e pude ter certeza que minha noiva fez uma cara pra lá de confusa. -- E então fui eu quem foi embora.
-- Certo… -- Jaqueline murmurou como se analisasse a situação. -- Mas eu no lugar dela teria ido te procurar imediatamente, eu jamais ia perder o nascimento de uma filha minha, poder cuidar dela nos primeiros dias, ver os primeiros passos, ouvir as primeiras palavras.
Obrigada Jaqueline, por fazer com que eu me sinta mais horrível.
-- Ela não me procurou porque… Eu fiz ela acreditar que eu perdi a criança.
-- C-como? -- Seu tom era de alguém que tinha escutado algo muito absurdo.
O que de fato era.
-- A Carol nunca soube que eu tive a Lara… Até agora.
-- Esther… Isso é grave… Ela pode…
-- Eu sei o que ela pode fazer, Jaque. Eu sei.
Entrei novamente no meu apartamento e tranquei a porta. Fui tomar um banho enquanto Jaque se ofereceu para fazer o almoço essa tarde.
Eu sabia que aquele era só o começo de um pesadelo que eu havia criado. Mas eu não ia deixar a Carol fazer nada que prejudicasse minha filha.
Fim do capítulo
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Em: 08/12/2025
Não sei do lado de quem eu fico ![]()
Acho que da Esther porque ela errou por medo de perder a filha e a Carol errou por falha de caráter mesmo
HelOliveira
Em: 07/12/2025
Acho que fico só lado da Esther, Carol errou feio e a machucou muito, e nem fazia questão de ter filha
silverquote
Em: 11/12/2025
Autora da história
De fato, a Esther não é nenhuma santa, mas eu pessoalmente acharia muito difícil perdoar a atitude que a Carolina teve com ela em um momento tão delicado.
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satsuky
Em: 06/12/2025
Não sei do lado de quem eu fico ![]()
Acho que da Esther porque ela errou por medo de perder a filha e a Carol errou por falha de caráter mesmo
silverquote
Em: 11/12/2025
Autora da história
Eu sei como é, nem eu que escrevi a história sei escolher um lado hahaha
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Socorro
Em: 05/12/2025
Eita !!
claro que esse momento ia chegar. Ambas erraram feio e nesse meio tem uma criança inocente.
Que situação difícil!!!
Autora volte logo ...
silverquote
Em: 11/12/2025
Autora da história
É, se dependesse da Esther acho que ela se escondia pra sempre haha
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