Capitulo 19 - Um pensamento muito absurdo
19 - Um pensamento muito absurdo
Capítulo dezenove
CAROLINA FONSECA
Em alguns dias, eu me esforçava para não trabalhar demais. Hoje não era um desses dias. Minha terapeuta provavelmente ficaria decepcionada em saber que passei o sábado todo na empresa.
Devo confessar que gosto do vazio e do silêncio às vezes. Sinto-me mais produtiva.
Fui buscar um café, eu deveria colocar uma máquina de café daquelas na minha sala, seria bem mais prático, mas tudo bem, de vez em quando era bom esticar as pernas um pouco.
Assim que cheguei no hall, meus olhos rapidamente focaram em uma criança parada de frente a estante de câmeras fotográficas.
Hã? Uma criança? Estou ficando louca?
Me aproximei, curiosa. Quem tinha colocado uma criança ali dentro? E se ela quebrasse algo? Apesar de ser apenas decoração, algumas daquelas câmeras eram literalmente relíquias, valiam uma fortuna hoje.
-- Boa noite… -- Eu disse e depois me repreendi. Por que estou cumprimentando uma criança como se fosse alguém que espero para uma reunião? É uma criança, poxa! -- Hum… Cadê sua mãe?
A menina se virou para mim, os olhos dela diziam com todas as letras que ela não queria falar com estranhos.
-- Trabalhando… -- Ela disse apenas.
Trabalhando? A mãe dela é uma funcionária da empresa?
-- Qual o nome da sua mãe?
A menina me olhou como se não tivesse entendido a pergunta, mas pareceu pensar um pouco antes de dizer.
--- Hum… Mãe?
Respirei fundo, ela estava zombando da minha cara? Não, não, aquele era um comportamento de criança, tinha certeza. Resolvi ser mais objetiva.
-- Quem foi que te trouxe aqui?
-- A Jaque, ela esqueceu a bolsa dela aqui. -- A menina sentou-se no sofá, seus pés balançavam sem tocar o chão.
Senti algo no peito, uma sensação estranha. De repente minhas mãos ficaram geladas.
-- Jaque? Hum… E ela é… Sua tia? -- Perguntei com um pouco de medo da resposta.
-- Não, eu só tenho duas tias. -- A menina me respondeu com uma careta, como se eu tivesse dito algo absurdo. -- A Jaque é namorada da minha mãe.
Senti o ar faltar momentâneamente. A Esther tinha tido uma filha? Quando? Com quem? Ela conheceu alguém antes da Jaqueline e teve uma filha? Espera... Esther não podia engravidar naturalmente. Meus pensamentos se atropelavam em alta velocidade.
-- Ah… Entendi. -- Dei alguns passos pra trás. Então Esther tinha uma família agora. Faz todo sentido ela ter me rejeitado com tanta força. Agora ela tinha tudo o que eu roubei dela um dia. -- Bom, tchau então…
Virei as costas depois de ouvir a menina dizer tchau balançando a mãozinha pra mim. Mas antes de sair, um pensamento passou pela minha cabeça.
Um pensamento muito absurdo.
-- Ei... Qual o seu nome? -- Perguntei, e os olhinhos castanhos me fitaram outra vez.
-- Lara. -- Ela sorriu. -- E o seu?
Eu acho que esqueci como se respirava, por um minuto, minha cabeça foi longe, especificamente para a primeira noite após Esther me contar sobre a gravidez.
6 anos atrás.
-- Ei, você quer escolher o nome, se for um menino? -- Eu perguntei para Esther. Estávamos deitadas na cama conversando sobre o futuro.
-- Por que se for um menino?
-- Bom, eu já tenho um nome, se for uma menina.
-- Ah é mesmo? -- Ela riu. -- Você quer que seja uma menina, não é?
-- Bom… -- Olhei para ela com amor. -- É errado eu preferir que seja menina? Eu não vou amar menos caso seja um menino.
-- Eu sei, meu amor. -- Esther me abraçou. -- Pra ser sincera, também sempre sonhei com uma menina.
Respirei aliviada, pelo menos não teríamos uma discussão sobre aquilo.
-- E qual nome você escolheu? Se for uma menina? -- Ela perguntou curiosa.
-- Eu gosto de Lara, que acha? -- Perguntei e vi seus olhos brilharem, sinal de que tinha aprovado.
Voltei para o presente sentindo um pequeno mal estar. A criança na minha frente me olhava com interrogação, esperando que eu respondesse sua pergunta.
Saí correndo dali, eu devia estar pálida. Nem sei dizer o que eu estava sentindo. Medo? Raiva? Não… Eu nem conseguia colocar meus sentimentos em palavras.
Quando encontrei Jaqueline no corredor, eu não sei o porquê, mas quis testá-la. Me referi a menina como filha dela, mesmo a criança tendo me confirmado que ela não era sua mãe.
E para minha desagradável surpresa, ela não me corrigiu. Senti raiva, mas não deixei transparecer, espero que não. Só me despedi e entrei na minha sala. Minha cabeça doía muito.
Lembrei que havia até esquecido de pegar o café e fechei os olhos irritada. Eu não ia voltar lá enquanto ela não saísse. Deitei no sofá que ficava de frente para minha mesa.
Eu precisava pensar um pouco. Eu queria conversar com alguém, mas Raquel estava viajando, e além do mais, pra minha história fazer sentido, eu teria que contar coisas que eu não me sentia confortável em contar pra ninguém.
Fechei os olhos e acabei adormecendo ali mesmo.
Fim do capítulo
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