Capitulo 4
**Alguns anos atrás…**
César discutia com a ex-mulher quanto à possibilidade de poder desfrutar as férias com a filha. Pretendia ter a oportunidade de exercer uma ligação paterna, pois o tempo e o trabalho o fizeram ser um pai ausente. A menina, com seus seis anos, ganhava mais presentes do que a presença de César.
Durante os primeiros meses de vida da filha, Bruna se esforçou para conviver na fazenda do ex-marido, mas, crescida na cidade grande, foi difícil viver ali no meio do “mato” ou “fim do mundo”, assim como ela se referia ao lugar.
─ Tenho o direito de querer Bianca comigo, mulher. Ela é minha filha, ora! ─ Ele elevou a voz para a ex-mulher.
─ Agora você lembra que é pai? Sinceramente, César, me poupe. ─ Ela mantém a respiração controlada para não perder a paciência. ─ Nem vem com essa historinha de “tenho direito”…
O fazendeiro revoltou-se, apertou o telefone com força.
─ Já decidi. No final de semana, vou buscá-la sem falta e sem mais. E tu não vais me impedir. ─ Disse, dando por fim à ligação. Acabou com qualquer argumento contrário de Bruna.
Aos seus 20 anos, César ingressou em uma das melhores faculdades de São Paulo, a contragosto, forçado pelo pai. No último semestre do curso de Administração, foi nesse período que o destino colocou Bruna no seu caminho, por meio de amigos do mesmo ciclo de amizade. Bruna cursava Direito, com o sobrenome de peso e reconhecido na capital paulista, também não caiu longe da árvore e seguiu os passos dos pais. A paixão durou dois anos, de modo que logo veio o pedido de namoro e, por diante, veio o casamento. Foram risos, felicidade para dar e vender, mas vieram as brigas por coisas banais e ciúmes, benefícios que só a ilusão do amor pode causar nos seus pobres reféns.
Então, o dia de ir buscar a filha chegou. Ao sair do aeroporto, ele adentrou no primeiro táxi que viu na sua frente. O automóvel cumpriu o trajeto para um condomínio fechado de alta classe na capital paulista. Observou a mansão, lembrou-se dos apelidos que Bruna dava para a cidade pequena que o irritava. Ele recebeu autorização para entrar; o veículo percorreu o endereço da ex-esposa.
No interior da mansão, tudo bonito: as paredes de cores claras e os móveis modernos combinavam com quadros contemporâneos, esculturas de artistas de nome. Bruna sempre desfrutou e aproveitou o que o dinheiro dos pais podia comprar e proporcionar. No salão de visita, o fazendeiro esperou por Bruna.
Foram seis anos sem se verem. César sentiu suas mãos suarem e manteve o contato visual com Bruna, que surgiu no salão exalando sua marcante presença. Os cabelos loiros, feitos raios solares do amanhecer… o homem a mirou bem, quis guardá-la na memória, quis tocá-la. Estar frente a frente com ela ressuscitou um sentimento que estava esquecido no coração.
─ Você… nossa… ─ Ele tenta falar, emocionado pelo reencontro. ─ Você não mudou nada… continua linda…
O frio na barriga lhe atingiu quando Bruna se pronunciou. Era como se fosse a primeira vez escutando sua voz.
─ Bom, a última vez que falamos, você não me deu a chance de terminar a conversa.
A mulher, vestida elegantemente, respondeu séria. Ela disfarçou o impacto causado por rever seu primeiro amor.
─ Continuo tentando entender essa sua vontade repentina de passar as “férias” com minha filha. ─ Bruna caminhou para se sentar no sofá em formato de L. ─ Você lembra quantas vezes te liguei para fazê-lo vir… ─ A mulher jogaria as numerosas vezes que o fazendeiro falhou com seu papel de pai na vida da filha; o homem lhe atrapalhou, cortando sua fala.
─ Claro. Essa é sua deixa para me afastar da minha filha. Sempre lhe expliquei os motivos de… ─ César sentou-se também noutro sofá. Colocou as mãos para esconder o rosto. ─ Eu nunca lhe deixei faltar nada…
─ Não, não… nem começa. Já conheço seu drama de cor. César, a única coisa que peço é para não dar expectativas à minha filha e depois voltar a ser ausente. ─ Bruna tinha receio de que aquele desejo do homem fosse momentâneo.
César encolheu os ombros. O homem sentiu a culpa ao atingi-lo.
Minutos depois, a babá da criança a levou para o salão onde o pai estava. Assim que os olhos do fazendeiro vão para a menina, ele se emociona e sorri. Bianca possuía o tom de pele e os cabelos da mãe, mas os olhos castanhos da menina foram herança de César e dos avós paternos. Bianca se escondeu atrás da perna da babá quando viu o pai.
─ Vem com a mamãe, meu amor!
Apesar de César ser ausente e a distância ser um empecilho na vida dos dois, Bruna jamais plantou ideias de ódio para a menina renegar o pai. Mesmo a contragosto, iria permitir o contato de César, pois era inevitável, mesmo que ele não merecesse.
─ Mamãe lhe mostrou as fotografias, lembra?
A menina concordou com a cabeça.
─ Ele é o seu papai. É o seu papai caubói. ─ Bianca se sentou junto da mãe.
─ Oi, princesa! ─ César sentiu o coração bater mais forte, sentiu medo de ser rejeitado.
─ Oi! Mamãe, ele não tem chapéu igual ao do Woody. ─ A menina olhou de cima para baixo o pai. ─ Cadê seu chapéu, cowboy?
César fez uma careta. Ele não entendeu do que a filha se referia, então buscou ajuda de Bruna.
─ O papai deixou o chapéu, meu amor! Ele ficou na fazendinha. Já lhe falei dela. ─ explicou a mãe.
Bruna explicou à filha que o pai veio para levá-la para a fazenda. A menina não aceitou de primeira a notícia, mas logo aceitou com esforços da mãe para convencê-la. Bruna esclareceu o que precisava ao ex-marido e, horas depois, pai e filha embarcam na aeronave rumo ao Estado do Pará. César prometeu para si que faria tudo para não se afastar ou entristecer a filha; seu coração se encheu de felicidade. Assim que chegaram na capital paraense, seu capataz, Zé Antônio, foi buscá-lo no aeroporto. Na estrada para a cidade Terra Firme, Bianca se encanta pela miragem da janela do automóvel e questiona o pai sobre como seria a fazenda Pôr-do-Sol.
─ Elas vão gostar de mim?
César comentou sobre Roberta, sua afilhada, e Helena. Bianca se animou e quis saber mais. A curiosidade era grande na menina.
─ Helena vai adorar tu, minha filha. ─ O fazendeiro respondeu com sorriso no rosto. ─ E tu terás a companhia de Beta também, princesa.
Ele esperava que ambas as crianças se dessem bem, principalmente Roberta. César conhecia o gênio forte da afilhada.
Quando César chegou ao casarão, foi recebido pela cozinheira. Helena foi avisada sobre o seu retorno; a mulher preparou o almoço, fez alguns doces caseiros para a nova hóspede. Distraída nos afazeres, nem recordou da filha. Buscou pela casa e nada; foi ao estábulo, o lugar em que a menina Roberta gostava de passar o tempo. Após achá-la, voltou para o casarão. Assim que a pequena Roberta avistou a Hilux, soltou a mão da mãe e correu sorridente para ver o padrinho. César, sentado na cadeira de centro, apreciava um pedaço de bolo com a filha, que observava atentamente tudo ao seu redor. A menina, já no interior da cozinha, foi logo abraçando o homem; quando sentiu a presença de outra pessoa na cadeira ao lado do padrinho, a mirou atenta. Bianca, tímida, desviou o olhar.
─ Quem é ela? ─ Ela franziu as sobrancelhas e cruzou os braços.
─ Quero lhe apresentar Bianca, minha filha. ─ César falou.
─ Diga “oi” para ela, Bianca…
Mesmo acanhada, a menina fez o que o pai mandou. Neste instante, Helena entrou e juntou-se a eles.
─ Oi! ─ dirigiu-se com a voz baixa e timidez.
Helena cumprimentou o patrão. A mulher reparou como Bianca trazia um pouco do pai e da mãe.
─ Olá, pequena! Patrão, sua filha é linda! ─ elogiou Helena.
Roberta saiu do ambiente. A menina ficou enciumada com todas as atenções que a visita recebia. Helena, constrangida com a atitude da filha, pediu desculpas para César. Bianca se encolheu na cadeira.
─ A deixa, Helena. Depois converso com Beta. ─ Respondeu ele.
Os dias passaram. Roberta e Bianca foram se tornando amigas devagar. Certo dia, Roberta escapuliu das vistas de Helena e foi para o estábulo às escondidas. A menina de pele retinta não percebeu que estava sendo vigiada por Bianca, que a seguiu. Roberta subiu na cocheira tentando abri-la, mas se assustou com a outra criança.
─ Sua mamãe não vai gostar…
Bianca ia falar, mas Roberta a cortou.
─ O quê? Eu não lhe chamei para cá. ─ Zangada com o flagra, ela desceu da cocheira de tábua. Encarou Bianca. ─ Vais embora.
─ Quero brincar com você ─ pediu a menina loirinha.
Roberta levanta o queixo e cruza os braços querendo intimidar a outra.
─ NÃO!
Com o grito, os cavalos se agitaram e assustaram as duas, que correram para fora do estábulo, segurando a mão uma da outra. Elas deram risadas. Roberta soltou a mão de Bianca.
─ Se tu não contares para minha mãe, eu deixo brincar comigo. ─ sugeriu.
A menina loirinha pensou; ela não gostava de mentir, sua mãe sempre advertiu sobre mentiras. Mas queria ter a amizade de Roberta, então concordou em não contar nada para Helena. Depois desse dia, as duas se aproximaram mais. Roberta levava a nova amiga para conhecer cada canto da fazenda, levava para ver os bichos. O fim das férias chegou, mas sempre que terminava o período letivo, César buscava a filha para a fazenda Pôr-do-Sol. Desde o fim do namoro das duas na adolescência, Bianca evitou visitar o pai para não reencontrar Roberta. Mas o tempo resolveu juntar todos novamente.
Fim do capítulo
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