Capitulo 3
No pequeno aposento, com uma cama de solteiro e uma cômoda de compensado ao lado, as duas mulheres dormiam. A luz da luminária ocupava o ambiente. Na noite anterior, Roberta parou sua caminhonete no estabelecimento Bar das Boas, ao qual fazia tempo que não ia, e encontrou uma antiga paquera. Após bebedeiras e flertes, elas juntas foram parar no motel Maçã do Amor, o mais conhecido e frequentado por aquela banda.
Roberta vira de lado, tenta sair da cama. Ela se distancia da mulher que lhe abraçava pela cintura e acaba acordando a amante, que resmunga, protestando. A imagem da companheira nua gradualmente ganha vida: cabelos negros e lisos, pele morena, olhos pretos e puxados; a beleza chamava atenção. Roberta senta na beirada da cama, bate os cílios e pousa as palmas das mãos nas vistas para desembaçar.
─ Cadê o beijinho de despedida? Sua fujona. ─ provoca com a voz rouca, indo para junto da vaqueira.
─ Pra quê pressa… hum… ─ Abarca com os braços Roberta, distribuindo beijos pelas costas, chegando ao pescoço. ─ O sol nem nasceu ainda, Rô.
Fugindo das carícias, ela se ergue da cama e vasculha o quarto em busca das roupas espalhadas.
─ Carla, queria eu poder acordar ao meio-dia. ─ Responde, sentindo a cabeça doer. ─ Mas se tu queres continuar deitada, tu podes ficar à vontade. ─ Carla revira os olhos, desgostosa com a resposta.
─ Que chatices, Rô! Posso oferecer um chá gostosinho… ─ sorridente, ela se descobre do lençol, insinuando-se para a agricultora.
Arrumada para ir embora, Roberta fala:
─ Gosto de coisas mais fortes. ─ fala cortante para Carla, que enruga a testa.
Habituada a despertar cedo, antes de o galo cantar, não tinha costume de ficar em repouso esperando o sol aparecer; nunca se deu bem com a quietude. Roberta evitava qualquer intimidade com suas peguetes temporárias e com Carla não seria diferente. A parceira da noite passada almejava um replay com a vaqueira, mas ficara só querendo, pois Roberta atravessa para a saída do dormitório, descartando seu afago. Roberta deixa o motel e retoma o caminho para a fazenda.
Ela chega e vai direto para a casa da mãe, que ficava mais no fundo do casarão. A moradia de alvenaria é bem simples, tanto por fora como por dentro. Uma varanda, as paredes pintadas de amarelo pediam para serem cuidadas, enquanto as portas e janelas tinham o acabamento branco. De imediato, Roberta segue para seu quarto, esquivando-se de encontrar Helena. A última coisa que desejava era ser interrogada pela mãe, e também estava com mal-estar pela embriaguez de ontem. A vaqueira cata a toalha de banho e avança para o banheiro, para logo se despir.
Roberta não entendia onde cometera o erro, não se lembrava de nada do dia em que toda sua infelicidade iniciou. O porquê de o destino estar brincando com ela, trazendo Bianca novamente para sua vivência, já estava quase tirando a mulher do coração, pensa ela, enquanto isso as gotas de água desabam em si. Ela fecha as pálpebras, inclina a fronte no azulejo e permite-se chorar, desse modo, lágrimas descem sem permissão.
O dia raiava para mais uma jornada de trabalho. Ajeitada para ir trabalhar na roça, Roberta adentra a cozinha modesta, aconchegante, que detinha uma decoração organizada: armário amadeirado antigo, mesa redonda com seis lugares com panos de crochê. A sala, que se dividia com a cozinha, era decorada por dois pares de sofás, uma estante com panos de crochê, quadros de fotografias e um vaso de flores. Roberta depara-se com a mãe preparando o café. Helena observa a filha, mas não quis indagar no que deu a conversação com César. O silêncio serviu de resposta não dita naquele momento. Roberta fuça as gavetas do armário no encalço de remédio para cura da ressaca e prossegue para o galpão dos funcionários da fazenda.
O fazendeiro César prosava na companhia de Zé Antônio, seu capataz fiel há anos. Os dois conversavam coisas banais na porta de entrada do depósito quando Roberta veio montada a Trovão, próximo deles. O clima muda. César ajusta no antebraço a camisa jeans azulada de manga longa, disfarçando o receio de topar com o olhar da afilhada. Bem como Roberta, que não soube como reagir; ainda se sentia magoada.
A mulher direciona o animal para o canto, desce da sela. Alguns trabalhadores iriam para a mesma rotina nos afazeres: cuidar dos gados, preparar a alimentação, verificar as condições de saúde deles. Ali, na fazenda Pôr-do-sol, mantinha-se mais de cem funcionários, e cada um com a função conforme a capacidade e o entendimento. Com propriedades em outros lugares, César criou raízes, amigos e uma família fora da fazenda que herdou do pai.
Roberta caminha para ajudar no carregamento de sacos de farelos. Seu físico atlético, que se sucede há anos atuando no trabalho rural, torna-se um pouco menos pesado à saca no ombro. Em seguida, termina a tarefa e parte ao estábulo para largar Trovão.
─ Beta… eu queria me desculpar… ─ coça a barba grisalha. ─ Eu não deveria ter… achei que tu…
─ Eu estava superando… ─ de maxilar rígido e queixo levantado, responde. ─ Padrinho, como falei ontem, eu sei meu lugar e não vou incomodar ninguém.
─ Meu motivo de chamar minha filha não foi só para ajudar nos negócios. Sinto falta dela e quero ficar mais próximo antes que… ─ De braços cruzados, César caminha para a saída do estábulo com Roberta.
─ Antes de quê? ─ pergunta, mantendo distância.
─ Besteira minha, Beta… ─ ele remexe o ombro e fala baixo.
─ Tenho saudades dos nossos momentos juntos. Todos juntos… ─ Ele dizia a verdade, mas só Helena sabia o real motivo para o fazendeiro querer reunir a família.
─ Hum… e quando ela e o noivo chegarão? ─ As palmas suadas e o olhar distante do fazendeiro, ela pergunta.
– Segunda-feira. — Roberta faz uma careta. Não quis saber mais de nada; somente anda para o trator de colheita, entrando e abandonando o acompanhamento de César.
A história das duas mulheres continha várias camadas. Cresceram juntas naquele imenso campo verde que se estendia longe; a amizade delas estendeu-se até a adolescência e, com o mudar de fase, também os sentimentos mudaram para o amor. Roberta nunca escondeu suas preferências amorosas; seu estilo, seus gostos já demonstravam. Bianca, sempre delicada, alegre, de personalidade totalmente diferente da amiga, não entendia a enxurrada de emoções ao ver a melhor amiga aos beijos com uma menina. Com ciúme, indignada, passou dias sem dar a palavra para a amiga, que não tinha conhecimento do que acontecia com Bianca. Nenhuma aguentou o afastamento, pois não conseguiam negar o amor uma pela outra, que durou três felizes anos.
César, quando tomou conhecimento da novidade, não quis aceitar. Para ele, a relação das duas aos seus olhos era errada, fora do padrão medido pela sociedade e anormal. O fazendeiro até tentou criar empecilho para o namoro da filha acabar, mas não adiantou, pois o tempo lhe mostrou o quanto ambas as adolescentes se gostavam, e o amor que possuíam tinha verdade. Como não existe felicidade sem sofrimento, o homem, que na época tinha seus 45 anos, serviu de amigo para a filha. Bianca desabou no choro nos braços do pai após descobrir uma traição de Roberta. Adiante disso, era impossível impedir a separação.
***
Após voltar do galpão e ser deixado falando sozinho por Roberta, César retorna para a sede da fazenda. Logo após almoçar, foi para o quarto descansar. O homem não andava bem nas últimas semanas. Helena preparou remédio do mato ao patrão, que aceitou de bom grado.
─ Oh, diacho amargoso, Helena. ─ Fazendo careta, reclama do remédio.
─ Foste tu que quiseste assim, homem. O médico o proibiu de tomá-lo. ─ A expressão dela endurece.
─ Nem vem tu também, Helen… ─ O celular do fazendeiro toca, interrompendo-o. Na tela do aparelho, a imagem da filha aparece. Todo o rosto de César ilumina. Pega o celular para atender.
─ Alô!
─ Oi, pai! ─ Bianca fala.
─ Pai, como o senhor está? O senhor está fazendo a dieta certinha?
─ Estou bem. Claro que faço a dieta como o doutor pediu, filha. ─ César coça o nariz e olha para Helena, desconfiado.
─ Ele está muito mesmo… ─ Helena resmunga baixo, mas na linha telefônica Bianca escuta.
─ Pai, passe o celular para Helena, por favor!
─ Agora deu, viu! Tu não acreditas em teu pai?
─ Pai!
─ Tomas aqui! ─ Ele ergue o celular para a senhora pegar.
─ Olá, Bia!
─ Lena, papai está obedecendo às recomendações do médico?
─ Tu já conheces teu pai. Tento fazê-lo comer conforme a dieta. ─ Helena conta a verdade para Bianca.
César cruza os braços sobre o peito. Os olhos esbugalham com a entrega da empregada.
─ Oh, que mentira, mulher! ─ Ele exclama alto.
─ O patrão é teimoso demais.
Ela coleta o copo já vazio que havia antes com xarope e guarda na mão esquerda.
─ Menina, vai me desculpando, mas preciso voltar para a cozinha. Vou dar o telefone para o teu pai, viu?
─ Tá bom, Lena. A gente se vê na segunda. Até logo!
Helena devolve o aparelho para César. O homem ajeita a posição na cama.
─ Papai, tem que parar de teimosia…
─ O doutor Alberto lhe explicou quais os riscos se o senhor não…
─ Sei, filha, eu sei…
─ Vou lhe colocar na linha. Deixa-me chegar aí. ─ A filha do fazendeiro fala séria.
O homem acostumado no campo não estava gostando nada daquele cuidado, tudo em cima dele. Não conseguia mais nem queimar o fumo, nem fazer coisas que antes podia. Mas sempre dava um jeito de burlar as regras do médico. Até beber às escondidas.
─ Hum… então, filha, mudando de prosa, eu falei com... com a Beta… ─ César comenta por cima.
─ Papai… não precisa…
─ Avise seu noivo para não se meter a besta com Beta. Ela anda me evitando…
─ É bem a cara dela. Sempre quer ser a dona da razão. Beta… Roberta só pensa em si… ─ declara a filha de César.
─ Ela não é assim, minha filha. Isso é a mágoa falando por ti. ─ O homem defende sua afilhada. ─ Ela ainda sente pelo passado… Beta nem dos meus problemas de saúde sabe. Não tenho coragem de dizer.
─ O senhor falou certo, passado. Agora precisarei finalizar nossa ligação, terei que resolver as questões para a viagem. E até lá o senhor não me apronte nada.
─ Ok. Ficarei lhe esperando, querida.
César repousa o celular no criado-mudo. O fazendeiro descansa sobre a cama, seus pensamentos voaram longe.
Fim do capítulo
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